'Quando lutamos contra o racismo, lutamos por uma sociedade melhor'

Para Maria Nilza da Silva, docente da UEL e coordenadora do Neab, os negros estão mais conscientes e reagindo ao preconceito

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

Na próxima quarta-feira (20) menos de 1.300 dos 5.570 municípios brasileiros devem comemorar o dia que lembra a morte de Zumbi dos Palmares, escravo símbolo da luta do povo negro contra a escravidão. Londrina não terá feriado novamente em 2019, ano que marca o 10º aniversário da lei municipal que criou o feriado em Londrina. Na semana que antecede o Dia da Consciência Negra, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou pesquisa que aponta 2018 como o primeiro ano em que o índice geral de negros e pardos superou o de brancos em instituições de ensino superior federais, estaduais e municipais em todo o País. 

 

'Quando lutamos contra o racismo, lutamos por uma sociedade melhor'
Ricardo Chicarelli
 


Os dados são do estudo ”Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil” e, também, reforçam que o caminho que começou a ser percorrido no País no início da década de 1990 para se corrigir uma injustiça secular contra o povo negro ainda está longe do fim. Enquanto representavam mais da metade da força de trabalho, pretos e pardos ocupavam apenas 29,9% de cargos de gerência e 64,2% da população desocupada em 2018. Foi constatado diferença de 45% no rendimento mensal médio entre a população branca e o grupo de pretos e pardos, o que também refletiu nas condições de moradia e assustadoramente nos índices de violência. Em 2017, uma pessoa negra tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma branca. 




Na mesma semana, estádios de futebol foram novamente palco de casos de racismo. No Brasil, o duelo entre Atlético-MG e Cruzeiro registrou discussão entre um segurança e dois torcedores que parou na delegacia por conta de ofensas raciais. O caso mais grave ocorreu dentro das quatro linhas contra os brasileiros Taison e Dentinho, do Shaktar Donetsk, vítimas de insultos e cânticos racistas dos torcedores do Dínamo de Kiev, na Ucrânia.

 

A coordenadora do Neab (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros) e docente do Departamento de Ciências Sociais da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Maria Nilza da Silva, avaliou diversos pontos acerca da luta da população negra brasileira com base em mais de 30 anos dedicados à pesquisa sobre relações raciais, população afro-brasileira e a imigração negra no Brasil.  


O racismo é um fenômeno mundial. Existe em países com sistemas de educação mais desenvolvidos também. Como a senhora avalia o momento atual?  

Me parece que os negros também estão mais conscientes e estão reagindo. Então a população de uma forma geral, também, não está aceitando as manifestações de racismo. Ao mesmo tempo que percebemos que há uma visibilidade maior, eu não consigo dizer se houve aumento ou não dos casos. O que eu estou percebendo é que há uma reação maior, então muitas pessoas procuram o Ministério Público, a polícia. Muitas vezes as pessoas não tinham canais de comunicação, agora estão reagindo. 

     

Há diálogo entre o movimento negro ligado fortemente aos movimentos sociais e grupos de esquerda e a população negra inserida no contexto das igrejas evangélicas ou outras de caráter conservador? Há consenso em uma pauta que caminhe na mesma direção?    

Eu considero que é um desafio atual porque algumas, eu não digo as igrejas evangélicas de forma geral, eu digo que algumas denominações dentro das igrejas evangélicas manifestam um conservadorismo maior, inclusive um racismo maior do que outras, mas não dá para generalizar. Algumas fazem um bom trabalho em relação ao combate ao racismo, mas o que nós estamos percebendo na atual conjuntura é, realmente, um acirramento do racismo e, também, de manifestações mais conservadoras dentro de algumas denominações religiosas, sobretudo as pentecostais.


O movimento negro sempre foi protagonista das lutas antirracismo desde a década de 1940. Em 1948, o movimento negro já demandava que as instituições de ensino, não somente superior, mas as públicas e privadas, reservassem cotas para negros. Abdias Nascimento, que era um líder, um intelectual, foi deputado, chegou a ser senador, ele coordenava o Teatro Experimental do Negro, no Rio de Janeiro, e já pregava isso no seu jornal, chamado "O Quilombo". E aqui na cidade de Londrina foi o movimento negro que em 2002 solicitou à administração da UEL (Universidade Estadual de Londrina) comandada pela professora Lygia Pupatto que começasse a se discutir. Havia sintonia com a 3ª Conferência de Durban (África do Sul) contra o racismo, xenofobia. O Brasil foi signatário e se comprometeu em criar políticas. Em 2003 e sobretudo em 2004 foi quando aconteceram os debates. Eu estava voltando do meu doutorado e participei daquela audiência pública com a professora Yvonne Maggie que foi contratada pelas pessoas que eram contrárias ao sistema cotas para defender uma posição contrária. Quando fizemos a primeira avaliação em 2011 muitas pessoas foram contrárias, e em 2017 também. Só que sempre contamos com a presença do movimento negro local. A UEL foi uma das primeiras e é uma das instituições em que a política sobretudo para negros está mais consolidada, mas isso não quer dizer que está garantida. Embora tenha sido renovada por mais 20 anos, é necessário estar sempre vigilante porque o racismo vai surgindo em várias regiões do mundo e do Brasil.  

 

Qual a sua leitura sobre o embate histórico em Londrina na questão do feriado?   

A recusa ao feriado do dia 20 de novembro faz parte desse “pool’ de manifestações de não compreensão da realidade da população negra. Então não existe uma valorização do negro e da sua trajetória, história e contribuição cultural. Geralmente se justifica que o comércio vai perder, mas não se tem em mente que este feriado é um momento de se refletir sobre o racismo existente, os caminhos a seguir. Na UEL geralmente é feriado. Este ano, por causa do calendário escolar, não será feriado, mas a UEL está preparando um evento o dia inteiro (20 de novembro) sobre os 15 anos do sistema de cotas. A partir do ano que vem, na UEL  vamos continuar sim com o feriado, mas isso porque tem uma consciência. Por exemplo, eu fiquei sabendo através de um colega professor da Universidade Federal do Maranhão que foi retirado o feriado em São Luís este ano, o argumento foi o comércio.

Tentam justificar o injustificável porque existem outros feriados que as pessoas não questionam, mas o feriado em relação à população negra que representa mais de 50% da população brasileira, mais de 70% das mortes e homicídios, em todos os níveis da educação e salariais o negro está atrás é questionado. Enquanto o País não lutar contra todas as formas de racismo e segregação não é somente o negro que sofre, sofre a população brasileira. Não existe um país que seja bom apenas para uma parcela da sua população. Quando o país é desenvolvido, ele é para todos. Quando há desigualdade, todo mundo sofre. Neste sentido o Brasil precisa caminhar muito.  


Existem vozes que questionam: “vai haver reparação histórica até quando?” 

Enquanto houver desigualdade. Até quando vai haver reparação? Até quando vai haver cotas? Até quando for necessário. Até quando houver injustiça. E já está provado, por exemplo, que as cotas não prejudicaram a UEL. Uma das grandes questões era que a UEL iria perder qualidade. Embora com todas as dificuldades, a UEL não perdeu qualidade. Antes não chegávamos a 5% de negros, mas hoje são 27% de negros dentro da instituição e não se perdeu qualidade. Hoje ela corresponde muito mais a sua missão de servir à sociedade. E a sociedade é branca, mas é indígena, negra, mestiça, tem pessoas com deficiência, o ser humano brasileiro. Eu sinto que hoje a UEL tem um pouco mais a cara da sociedade brasileira.     


No Paraná temos hoje apenas dois deputados estaduais negros dentre 54. Também o Estatuto da Igualdade Étnico Racial está se tornando projeto de lei apenas agora, nove anos depois do nacional. Sempre há a justificativa de que o Sul é mais “europeu”, mas não é tão simples assim, não? Não somente o Paraná. As cidades dos Estados do Sul nos sites das prefeituras sempre aparecem com uma ascendência branca e europeia. Então o Paraná sempre escondeu seus negros. Octavio Ianni, professor, sociólogo da USP (Universidade de São Paulo), fez um livro sobre os negros no Paraná. Wilson Martins escreveu sobre a ausência do negro no Paraná. Havia, na verdade, uma luta para dizer que não houve escravidão no Paraná. Por exemplo, os quilombos tiveram uma visibilidade maior de 2006 até 2010, quando se descobriu que no Paraná havia 96 comunidades quilombolas. Em 2010 cessaram os estudos que estavam identificando essas comunidades e algumas sofreram perseguições neste período. Sempre foram relegados ao anonimato, como se fossem insignificantes.


Todos os Estados tentaram fazer isso, é que no Nordeste é mais difícil invisibilizar quando se tem mais de 70% de negros. Em Londrina também era um pouco mais difícil porque a margem sempre foi 23% até 28% de autodeclarados negros. Nós vemos pelo número de pessoas que são consideradas pioneiras em Londrina. O único pioneiro negro oficialmente foi o Dr. Clímaco Justiniano da Silva, sobre quem escrevemos um livro. É o único que figura no panteão dos pioneiros. Mas vemos pelas fotos que existiam inúmeras pessoas que vieram para cá, derrubaram matas e construíram Londrina, mas não figuram, como se fosse uma vergonha falar dos pioneiros negros. É lamentável. Essa invisibilidade é estrutural do Brasil, negros e indígenas. Aquilo que é do negro não é considerado como cultura, é considerado folclore. Ainda teremos um longo caminho.  


“Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. É o que resta às pessoas brancas progressistas, como disse a professora americana Angela Davis?  

Exatamente e também compreender que numa sociedade que é desigual, que tem um grupo que sofre mais violência e um grupo que é mais “privilegiado”, essa sociedade jamais será boa, nem para o grupo que é considerado “privilegiado”, nem para os outros que sofrem o racismo. Quando lutamos contra o racismo, estamos lutando por uma sociedade melhor para os nossos filhos, para os nossos netos, para nós mesmos. Eu vejo que é uma luta que ainda temos que caminhar muito, mas já conquistamos alguns avanços e as políticas de ação afirmativa e essa visibilidade em alguns momentos, sobretudo agora no 20 de novembro, é positiva. Nos ajuda a refletir e refletindo vamos combatendo estas manifestações. As pessoas vão tendo coragem de dizer que sofrem, porque essa é a grande questão. As pessoas tinham vergonha do seu cabelo, se sentiam acuadas, não conseguiam se manifestar quando se sentiam diminuídas. Hoje vemos que esses alunos sentem-se mais seguros, até a vir aqui no Neab, encaminhamos à ouvidoria, ao Ministério Público. Antes as pessoas davam risadas e para não se sentirem prejudicadas até coadunavam com algumas manifestações racistas como se fosse engraçado. Não tem nada de engraçado, não há piadas racistas das quais se possa rir porque elas ferem profundamente o indivíduo e vão fazendo com que ele se sinta cada vez mais diminuído. Temos que continuar vigilantes sempre. 


Continue lendo


Últimas notícias