Políticas de prevenção devem ganhar força no pós-pandemia
Foco em atenção primária, reorganização do sistema e articulação política por mais dinheiro de Brasília são as recomendações de especialistas em saúde pública para novos mandatos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
Foco em atenção primária, reorganização do sistema e articulação política por mais dinheiro de Brasília são as recomendações de especialistas em saúde pública para novos mandatos
Lúcio Flávio Moura - Especial para FOLHA 
Um processo eleitoral transcorrido em plena pandemia não pode ser parecido com nenhum outro. A votação marcada para domingo vai ter odor de álcool 70%, distanciamento entre as pessoas e seções eleitorais tomadas por mascarados. À revelia das escolhas dos estrategistas das campanhas, as próprias circunstâncias do pleito colocam a saúde no centro das atenções.

Pesquisa feita pelo Ibope durante a atual campanha confirmou que os milhões de casos e dezenas de milhares de mortos por coronavírus no Brasil influenciaram a percepção dos eleitores sobre os principais problemas dos futuros gestores.
Para 63% dos paulistanos, saúde é a área da administração que mais preocupa. No mesmo levantamento realizado antes das municipais de 2016, este índice era de 46%. Em Curitiba, aferição idêntica feita pelo Ibope apontou que 58% dos eleitores cravaram saúde como prioridade, contra 49% de quatro anos antes.
Especialistas ouvidos pela Folha recomendam que em Londrina Executivo e Legislativo mirem suas ações para o quadriênio 2021-2014 na atenção primária, com investimentos maiores em programas como o Saúde da Família. Os entrevistados também convergiram sobre a necessidade de reorganização do sistema, com mais rigidez na distribuição dos atendimentos de baixa, média e alta complexidade conforme o perfil das unidades.
Eles também concordam que esta rede de assistência mais ativa se concentre no atendimento aos pacientes das doenças crônicas mais comuns, aos idosos e às gestantes.
Outro aspecto mencionado pelos entrevistados como fundamental para a melhora da saúde pública do município é a ampliação do volume repassado pelo Ministério da Saúde para custear os procedimentos de alta complexidade, cujo deficit é de aproximadamente R$ 60 milhões anuais.
RECURSOS DO MINISTÉRIO
A revisão do volume de recursos repassados para Londrina exige duas frentes de articulação. A primeira envolvendo a sociedade civil, em especial os gestores de hospitais privados, para discutir os argumentos técnicos da elevação do teto, além da frente política para a negociação com o governo federal, tarefa árdua numa provável realidade de cortes orçamentários que se vislumbra para o quadriênio.
“Os gestores municipais devem deixar claro à sociedade as carências em relação a equipamentos, equipes de trabalho e estrutura física e liderar a busca por recursos nas esferas estadual e federal”, defende Beatriz Emi Tamura, presidente da Associação Médica de Londrina, entidade que congrega cerca de mil profissionais, 300 deles atuando no sistema público.
O ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde, Luiz Soares Koury, acredita que, desta vez, a mobilização em torno desta proposta deve envolver outras forças, além do prefeito e dos vereadores, para obter sucesso. “Não há dúvida de que esta é uma prioridade porque sem receber o mínimo necessário os hospitais ficam defasados tecnologicamente e com equipes reduzidas, sem materiais suficientes e com uma oferta menor de leitos”, explica. “Esta reivindicação junto ao governo federal deve ser feita de modo incisivo, envolvendo a pressão de toda a sociedade, caso contrário fracassa, como ocorreu outras vezes”.
João José Batista de Campos, professor aposentado do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina e presidente do Inesco (Instituto de Estudos em Saúde Coletiva), propõe a criação de uma Frente Regional em Defesa da Saúde. “Unidos teremos melhores condições de captar os recursos e resgatar a esperança dos profissionais de saúde em um sistema que já foi referência nacional pelas coisas boas que criou e desenvolveu”, avalia.
ATENÇÃO PRIMÁRIA
Gilberto Martin, ex-secretário estadual e municipal da pasta e reconhecido como um estudioso do SUS, sugere que o município comece no próximo quadriênio um processo de transição do modelo de saúde pública, com duas ações prioritárias.
“É preciso colocar a atenção primária no centro do sistema. Promover a identificação e a abordagem da população de risco para que ela seja acompanhada antes de ficar doente”, explica. Neste caso, Martin recomenda a divisão da cidade em distritos sanitários e que a população seja detalhadamente cadastrada para dar mais eficiência e abrangência aos programas de prevenção. “O importante é que os prefeitos tenham em mente que é preciso sair de um modelo regido pela demanda e passar a pensar o sistema como uma rede de assistência que atue ativamente nos bairros".
Ao mesmo tempo, ele propõe uma ação emergencial para reduzir filas para exames, consultas com especialistas e cirurgias, com o aumento da carga horária dos médicos nos postos de saúde por um prazo determinado. Para ele, com a redução deste deficit e o foco na prevenção, a melhoria no sistema aconteceria naturalmente nos anos seguintes.
O professor da UEL Airton José Petris, mestre em saúde pública, é outro entrevistado que diz acreditar na reestruturação da atenção primária como prioridade na área. Ele propõe a criação de centros de apoio à saúde da família, com equipes multiprofissionais. “É um programa que deveria recuperar o espaço importante que já ocupou no município”. Para o docente, a ampliação do atendimento de especialidades também deveria estar na lista de prioridades do governo municipal. Segundo ele, a combinação de mais acesso a profissionais específicos e à continuidade do tratamento por meio dos centros de apoio seria um grande ganho para a prevenção e para o desafogo na alta complexidade.


