Orçamento maior é apontado como prioridade na Cultura
Mobilizado por dificuldades impostas pela pandemia, setor sugere que gestores do próximo quadriênio invistam mais na estrutura da secretaria e em financiamento direto para os projetos
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de novembro de 2020
Mobilizado por dificuldades impostas pela pandemia, setor sugere que gestores do próximo quadriênio invistam mais na estrutura da secretaria e em financiamento direto para os projetos
Lúcio Flávio Moura/Especial para a FOLHA 
Assim como tem orgulho do seu corpo, com um skyline de tirar o fôlego dos forasteiros, Londrina sempre se gabou da sua alma, traduzida por seus grandes artistas, mulheres e homens que se alimentaram da cidade para depois sustentá-la como ideia e sentimento mundo afora.

O polo cultural - que foi se fortalecendo em uma viagem de décadas, contada em ciclos de efervescência, de serenidade e de amadurecimento - está mobilizado, por necessidade, mas, sobretudo, por vontade de provar sua importância estratégica na vida pública.
Gestores do setor ouvidos pela FOLHA demonstram que existe uma sólida articulação para uma guinada nas perspectivas do setor, duramente abalado por uma crise sem precedentes, agravada pelo distanciamento social imposto pela pandemia.
O início de um novo ciclo administrativo no Executivo e no Legislativo neste contexto de retomada é encarado como uma oportunidade ímpar para colocar a cultura em destaque na agenda política. A grande bandeira do setor está mais que desfraldada: mais recursos garantidos em Orçamento e menos cortes contingenciais. Por mais modesto que pareça, a dotação de 1% do orçamento municipal para a Secretaria de Cultura é apontado como um patamar de investimento viável e recomendável - em 2019 chegou a 0,46%, segundo estudo feito pelo professor Sinival Osório Pitaguari, do Departamento de Ciências Contábeis da Universidade Estadual de Londrina (o pico de investimento ocorreu no fim da década passada, com a fatia de 1,08% do orçamento total).
PROMIC
O eixo central da política de fomento, o Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), custou cerca de R$ 5,3 milhões ao contribuinte em 2020 (em 2021 será R$ 4,5 milhões), valor que poderia quase dobrar com o atendimento do pleito de 1% para a pasta. “Poderíamos potencializar o alcance dos projetos, que gera o acesso à cultura a todas as regiões da cidade”, explica o ator, diretor e produtor Eddie Mansan, presidente do Conselho Municipal de Política Cultural. E o que isso significaria para a população? “Por exemplo: festivais mais abrangentes, com mais espectadores, mais turistas, mais retorno para a economia”. O Carnaval deste ano, um grande sucesso de público e financiado pelo Promic, é considerado um caso que ilustra muito bem como a cidade pode usufruir destes investimentos. “Ampliar o orçamento é uma prioridade porque impacta a produção cultural, permite a manutenção adequada das estruturas, além de eventuais restauros e revitalizações”, concorda Vanda Moraes, diretora de Patrimônio Artístico e Histórico-Cultura da secretaria.
Para Magali Kleber, diretora da Casa de Cultura da UEL, a garantia de recursos para que a cidade siga sendo conhecida e reconhecida como a terra dos festivais, é a prioridade para o próximo quadriênio. “A realização destes eventos projeta a cidade, que os realiza com muita competência”, afirma. “Promovem o trânsito entre as pessoas, as estéticas, o que tornou a cidade muito peculiar em relação às outras cidades”.
Os gestores da área acreditam que a mudança de entendimento de prefeitos e vereadores que vão atuar nas próximas gestões sobre o que é cultura e como seu fortalecimento impacta positivamente diferentes setores e deve facilitar o pleito por mais recursos. A torcida é para que o conceito da economia criativa, tão falada e pouco percebida pelos governantes, possa, enfim, ecoar nos corredores do poder.
“Quando se financia um projeto cultural é preciso compreender os benefícios que ele provoca, os dividendos para a economia”, lembra Guilherme Perari, presidente do Londrina Audiovisual, arranjo produtivo local que fomenta a inovação no setor. “Há um retorno muito maior que o investimento, ao contrário de uma visão ultrapassada que enxerga estes aportes como apenas um gasto”.
Perari recomenda também que prefeito e vereadores usem um ativo importante do município, os fundos já instituídos para o segmento, como facilitador para a busca por emendas parlamentares nos orçamentos estadual e federal, além da participação em editais que exigem contrapartida. “Dinheiro de fora que gera empregos aqui e que irriga financeiramente uma cadeia de serviços”, justifica.
Para ele, prefeito e vereadores também podem envolver a iniciativa privada no esforço de fortalecimento da economia criativa e trabalhar para que ela se insira cada vez mais no ecossistema de inovação. “O número de cidades que tem este nível de organização dá para contar nos dedos”.
RECOMPOSIÇÃO DE SERVIDORES
O diretor do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos, ex-secretário da pasta, adverte que um orçamento mais robusto pode esbarrar em outro problema: a falta de um corpo técnico na secretaria de Cultura. “Pra mim, a prioridade é a reestruturação do corpo de funcionários e a adequação dos espaços administrados pela pasta”, sugere. “Muitos servidores se aposentaram e não houve a reposição. Se tivermos um orçamento maior, corremos o risco de não conseguir executá-lo por falta de pessoal”, avisa. Vanda destaca que esta recomposição permitiria a realização das tarefas essenciais das políticas públicas que estão sob responsabilidade da pasta. O produtor Eddie Mansan também faz a ressalva que o “déficit gigantesco” de servidores diminui os horizontes para uma ação mais concreta do governo municipal.
TEATRO MUNICIPAL
A finalização da obra do Teatro Municipal, parada desde 2014, ainda divide opiniões, especialmente pelo alto valor do seu orçamento original, de R$ 80 milhões, sem contar os gastos com a recuperação da parte abandonada e da inflação do período. Considerada uma estrutura ambiciosa e que colocaria Londrina em uma posição de destaque no interior do País, o Municipal pode ser redimensionado. “O fato é que a prefeitura precisa cuidar melhor dos espaços culturais e oferecer estruturas melhores. Acho que a prioridade é esta. Podemos pensar em outras alternativas”, defende Magali. Para Vanda Moraes, a obra é emblemática e “um grande anseio do segmento”. Ela acredita que o teatro ajudará Londrina a se tornar um grande polo cultural.


