Moderação e gestão da pandemia definiram reeleição nas maiores cidades

Analistas e políticos comentam os resultados do pleito marcado pela pandemia e pela mudança em parte das regras das candidaturas

Pedro Moraes - Grupo Folha
Pedro Moraes - Grupo Folha

Apurados os votos e conhecidos os mandatários das 398 cidades paranaenses – a exceção é Ponta Grossa, que terá segundo turno –, já é possível compreender como foi o comportamento e opinião do eleitorado em um período tão atípico. A diferença não se fez somente com a pandemia de Covid-19 e mudanças causadas por ela. Politicamente, o fim das coligações para as chapas proporcionais, que elegem os legisladores, impôs um novo ritmo aos partidos. As legendas não só precisaram investir num número massivo de nomes para se manterem relevantes, como também acabaram por oferecer nomes próprios para o Executivo. Isso fez com que os números de candidatos a prefeito nas grandes cidades fossem os maiores já vistos. Caso de Londrina, que foi disputado por dez pessoas. Essas alterações influenciaram a decisão dos cidadãos na hora da escolha de seus candidatos.


 

Moderação e gestão da pandemia definiram reeleição nas maiores cidades
Franklin Freitas/Folhapress
 



As análises ainda vão se aprofundar em cima dos resultados, mas um fenômeno foi notado: o grande número de concorrentes concentrou os votos nos candidatos mais populares. Os votos não se dissiparam e muitos dos eleitos fizeram marcas expressivas, acima dos 50%. Quatro dos maiores colégios eleitorais do Paraná reelegeram os prefeitos em primeiro turno com expressivas votações: em Cascavel, Leonaldo Paranhos (PSC) fez 71,72% dos votos válidos; Marcelo Belinati (PP) conquistou 68,66% em Londrina; Rafael Greca (DEM) obteve 59,74% em Curitiba; e Ulisses Maia (PSD) ganhou com 56,85% dos votos válidos em Maringá.  




“Os partidos, tentando sobreviver, lançaram chapas no majoritário. Antes o que se via eram os partidos maiores englobando os menores nas coligações. Acabou que lançaram balões de ensaio para poder expor nomes para o pleito de 2022”, explica o cientista político Bruno Bolognesi, professor e coordenador do laboratório de Partidos e Sistemas Partidários da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Ele citou o caso de Curitiba, onde o deputado estadual Goura (PDT) e Carol Arns (PODE) tiveram resultados superiores ao esperado na corrida vencida por Rafael Greca (DEM). Eles agora têm seus nomes fortalecidos para enfrentar o próximo pleito.


A impressão é confirmada pelo presidente do Democratas no Paraná, o deputado federal Pedro Lupion. Ele avalia que o pleito no Estado não teve surpresas, que as vitórias foram óbvias. “Pelo fato de não haver coligações, muitos partidos pensaram em 2022 e lançaram candidaturas próprias. O próprio DEM escolheu municípios para que nomes fossem apresentados pensando no futuro, o que não vai ser fácil com 30 partidos disputando”, conta. A iniciativa, no entanto, fez comprovar a sensação já apontada nas pesquisas: de que o eleitorado se encaminhava para escolher políticos com discursos mais moderados. “Essa oferta não mudou a opinião da população, que se mostrou avessa a radicalismos. O que se mostrou foi que os perfis mais moderados e com experiência em administração saíram vitoriosos”, aponta Lupion.


COMPETITIVIDADE

As mudanças socioeconômicas impostas pelas ações de combate ao coronavírus também tiveram grande influência no voto neste ano. Aqueles prefeitos que foram bem avaliados por suas populações acabaram sendo aprovados nas urnas, com a reeleição ou a escolha de seu indicado. “Os que souberam administrar a pandemia e não descuidaram das pessoas saíram ganhando. Também é preciso lembrar que este período foi muito atípico e o curto espaço de campanha após uma época tão tumultuada eliminou a competitividade dos concorrentes”, lembra o cientista político Elve Cenci, professor de Filosofia e Ética da UEL (Universidade Estadual de Londrina). “Também ficou claro um fenômeno nacional: depois da polarização extrema, a política migrou para o centro”, conclui o analista.


Para os que disputam as eleições, este último pleito também foi diferente. Não só pelas necessidades impostas para evitar a Covid-19. Com os partidos se digladiando por vagas nas Câmaras Municipais, a presença dos candidatos nas ruas aumentou e a competitividade foi sentida na pele. “Não foi uma campanha comum, de contato físico. Dependemos muito das redes sociais e dos amigos. Notei um número enorme de candidatos na rua, o que polui mais, acaba confundindo a população. Ficou pior para divulgarmos nossos projetos”, avalia o vereador de Londrina Jairo Tamura (PL), reeleito com 3.078 votos. “Vi nesta eleição como foi forte a ligação de candidatos com causas próprias, como quem tinha, por exemplo, a ligação com uma instituição religiosa ou defendeu uma causa específica”, detalha o vereador, atual líder do governo de Marcelo Belinati (PP).


ELEITORADO

O fenômeno da multiplicação de candidatos para vereador ocorreu em todas as cidades. Em Curitiba, por exemplo, foram 1.190, em Londrina, 568, um recorde na cidade. O número expressivo de políticos – muitos deles neófitos – trouxe uma realidade dura para os que já seguem na carreira há muito tempo. O impacto na qualidade da gestão dos legislativos municipais só poderá ser visto no futuro. “Os partidos tiveram que se virar para buscar candidaturas. Não foi fácil formar chapas nessas eleições e isso resultou em algumas surpresas. Sendo algumas ruins, já que muitos nomes tradicionais acabaram ficando de fora devido ao voto de legenda”, explica Lupion, que disse não preferir o modelo atualmente válido sem as coligações para votos proporcionais.


O balanço das eleições 2020 aponta que os partidos tiveram dificuldades de coordenar a disputa no novo modelo, além de adotarem estratégias diversas em cidades de menor porte. “Ficou claro que fazer vereadores em cidade com número reduzido de eleitores é muito mais difícil. Essa foi uma questão enfrentada pelas legendas. Acabou que em cidades menores a quantidade de partidos lançados foi menor”, aponta Bolognesi, que ressalta a mudança no eleitorado. “Toda ação estremada tem reação da mesma proporção. Depois da vitória do bolsonarismo é normal vermos um apoio maior aos direitos das minorias. Logo, é possível observar a vitória de candidatos que defendem os nichos específicos”, conclui.

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