Xixi na cama
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de março de 2003
Cláudia Collucci<br> Agência Folha 
Até os 11 anos, o estudante e jogador de basquete Lucas, 13, não aceitava convites para dormir na casa de amigos e se recusava a participar de competições em que precisasse passar a noite fora de casa. Toni, 13, sempre dispensava as férias na casa de praia dos tios. Motivo: ambos tinham medo de fazer xixi na cama.
Assim como eles, de 2% a 5% dos adolescentes até 15 anos têm enurese noturna, ou seja, urinam involuntariamente na cama enquanto dormem. A ocorrência é frequente até os cinco anos de idade. Afeta pelo menos 15% das crianças nessa faixa etária. A partir dos seis anos, a tendência é que de 10% a 15% das crianças se curem espontaneamente a cada ano. Mas isso não quer dizer que elas não devam ser tratadas. ''Nessa fase, a enurese pode afetar o desenvolvimento emocional e a sociabilidade da criança'', diz o urologista Luis Augusto Seabra Rios, do Hospital Albert Einstein.
O primeiro passo, segundo ele, é conferir se a enurese não está relacionada a infecções urinárias ou a outros problemas da bexiga. Por isso, é importante que os pais observem se a criança tem urgência em urinar durante o dia ou se expele sangue pela urina, sintomas que podem sugerir problemas mais sérios.
As causas da enurese noturna, quando não está associada a nenhum outro sintoma, podem ser várias. A falta de um hormônio responsável pela diminuição da quantidade de urina eliminada à noite e o atraso no desenvolvimento de áreas do sistema nervoso central que controlam o funcionamento da bexiga são algumas delas.
Segundo o médico urologista Eric Roger Wroclawski, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, a herança genética é outro fator importante. Se o pai ou a mãe da criança tiveram enurese noturna na infância, as chances de o filho apresentar o mesmo problema são de 40%. Se ambos eram enuréticos, as chances vão para 70%.
O tratamento da enurese pode se dar por meio de remédios, de terapia comportamental ou da associação de ambos. Wroclawski afirma que somente um médico especialista, após avaliar o histórico e os exames da criança, poderá indicar o tratamento ideal.
Segundo a pediatra Maria Teresa Nardin Sauer, 39, diretora do departamento científico da adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, o uso de alarme um sensor colocado próximo aos genitais que dispara um alarme quando detecta as primeiras gotas de urina tem sido de grande ajuda no tratamento.
Ao ouvi-lo, o adolescente acorda e vai urinar no banheiro. Após três a seis meses, segundo Sauer, a pessoa adquire um condicionamento e não precisará mais do sensor para urinar quando sentir que a bexiga está cheia.
Para Sauer, é fundamental que os pais de crianças e adolescentes com enurese se convençam de que o problema tem grandes chances de cura e que não é provocado por ''preguiça'' do filho de ir ao banheiro. ''Não é culpa dele. Ele não faz isso para chamar a atenção. Fazer a criança se sentir culpada por algo que ela não controla é uma total ignorância.''
Possíveis dificuldades emocionais, embora sejam sempre mencionadas pelos pais como a principal explicação da enurese, não são consideradas causas importantes, segundo Sauer.
Muitas vezes, o problema emocional é resultado das frustrações pelas quais o adolescente passou em razão da disfunção. ''O apoio psicológico é importante porque ele se sente fracassado, perde a auto-estima'', afirma, ressaltando a necessidade de os pais ajudarem os filhos a acreditar na sua capacidade de vencer o problema. n


