Fazer xixi na cama e nas fraldas é algo normal para qualquer criança menor de dois anos. Mas em alguns casos, calcinhas e cuecas molhadas são rotina até para os maiores, que sofrem com as piadas dos colegas e as broncas dos pais, que acreditam que os acidentes são apenas falta de disciplina ou mau hábito dos filhos.
O que pouca gente sabe é que essas crianças podem ser vítimas de uma doença ainda pouco conhecida da população: a disfunção vesical. ''Nela, a criança perde urina durante o dia, geralmente em pequenas gotas, sem causar dor. Isso acontece mesmo depois de a criança ter ido ao banheiro'', diz a nefrologista pediátrica Solange Farah Ramos de Mello.
Segundo ela, a medicina ainda não consegue entender a causa do distúrbio, que pode atingir crianças de várias idades e assumir características distintas. ''O volume de xixi que a criança solta varia, embora seja sempre em pequena quantidade. A frequência também muda, pode acontecer todos os dias ou apenas duas vezes por semana, acometendo mais meninas do que meninos, em uma proporção de três para um. E há também o fator hereditário. Quando uma criança apresenta o distúrbio, geralmente o pai ou a mãe também teve algo similar na infância'', afirma.
Outra característica comum aos pacientes é a doença ser associada ao intestino preso. ''O distúrbio é mais frequente em crianças com obstipação intestinal porque as alças intestinais ficam cheias de fezes e, com isso, comprimem a bexiga. Essa compressão vai tornando a contração da bexiga, responsável pela liberação da urina, insatisfatória. Com isso a criança perde xixi de maneira involuntária'', explica a especialista.
Alguns sinais servem para alertar os pais. ''As crianças começam a ter atitudes de contenção da urina, como colocar as mãos entre as pernas, sentar sobre o calcanhar para causar pressão e, nos meninos, apertar a ponta do pênis. Como hoje as mães trabalham fora, muitas não observam mais as roupas dos filhos, mas é importante ficar de olho em calcinhas e cuecas úmidas ou com cheiro forte de urina. Outra dica é observar quanto de xixi os filhos fazem quando vão ao banheiro, se o volume é grande e a força de saída é boa'', ensina.
O distúrbio é transitório, mas a médica lembra da importância de tratamento. ''Além da questão psicológica, abalar a autoestima, a disfunção pode causar infecções urinárias de repetição. A bexiga sempre fica com um pouco de urina e isso facilita a proliferação de micro-organismos. E essas infecções constantes podem trazer problemas sérios renais ou atrofiamento do músculo do esfincter vesical, o que dificulta a saída da urina'', alerta.
O tratamento é feito combinando reeducação e uso de medicamento. ''A re-educação faz com que a criança vá mais vezes ao banheiro, sem pressa e sem vergonha, e também ajuda a desfazer as atitudes de contenção que surgiram por conta do problema. O remédio geralmente é tomado por três ou quatro meses e não tem efeitos colaterais'', diz.
A especialista lembra que fatores psicológicos também podem ser responsáveis pelo surgimento da doença. ''Mudança de escola ou endereço, mortes na família, a chegada de um irmão, gerando ansiedade. É importante que os pais não pensem que o problema é apenas falta de atenção ou má vontade dos filhos. Pode ser um problema físico que gera angústia para a criança e precisa ser tratado corretamente.''

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