Há dois anos, a estudante de administração Gabriela Abreu Nantes, 20 anos, deixa o conforto do apartamento onde mora com a família e passa o horário de almoço das terças e quintas-feiras em uma casa que apóia crianças e adolescentes com câncer de Londrina e região. Lá ela brinca, ajuda a servir a refeição e alegra por algumas horas o dia difícil de quem tem que encarar uma doença grave ainda no começo da vida.
O caso de Gabriela chama a atenção não só pela idade da voluntária da Organização Não-Governamental Viver, mas pela constatação de que a solidariedade está presente na vida de muitas mulheres que dispendem um período do seu dia, ou muitas vezes o dia todo, para ajudar quem precisa. ''Desde pequena queria ajudar os outros de alguma maneira e quando descobri a o Ong Viver resolvi pôr isso em prática. Uma amiga da minha mãe é diretora lá e me falou sobre o trabalho'', conta ela.
A professora aposentada Marinilce Ferreira dos Santos, 58 anos, se dedica ao trabalho voluntário desde 1969. ''Quando meu marido começou a fazer parte do Rotary Club, ingressei na Associação de Senhoras de Rotarianos e nunca mais parei. No princípio fui por curiosidade, mas à medida que conheci o trabalho, não deu mais para interromper. Já fui presidente, tesoureira, e hoje sou secretária'', diz.
O feito mais importante desses 37 anos de voluntariado foi a construção e manutenção do Centro de Educação Infantil Haydée Colli Monteiro, que atende em período integral 145 crianças entre quatro meses e cinco anos de idade, moradoras do Jardim do Sol, em Londrina. ''Construímos a creche com ajuda de vários colaboradores, que doavam materiais e trabalho. Hoje temos um convênio com a prefeitura, que repassa R$ 10 mil por mês. Mas ficam faltando outros R$ 5 mil para cobrir todas as despesas, que as companheiras de associação têm que conseguir com bazares, bingos e doações'', observa.
Os eventos beneficentes também fazem parte, há 15 anos, da rotina da relações-públicas Leonice Camarani El Kadri. Esses eventos servem para levantar fundos para o Grupo de Apoio Provida, da Santa Casa de Londrina, que ela preside pelo segundo mandato. ''Comecei a trabalhar com voluntariado na Sercomtel, quando era funcionária da empresa. Foi uma amiga que me convidou para ajudar na Santa Casa também. Hoje me dedico totalmente ao Provida'', afirma.
Além de arrecadar dinheiro para diversas prioridades do hospital, o grupo também se ocupa da confecção de toda a roupa de cama da instituição e de doações para os pacientes. ''Algumas pessoas chegam sem nada, não têm nem uma roupa limpa para colocar quando saem do hospital. Compramos o tecido e temos um grupo de senhoras voluntárias que costuram as peças. Na última compra, gastamos R$ 30 mil em tecidos, quantia conseguida em bingos, rifas, bazares e jantares beneficentes'', comenta.
Para todas elas, o tempo gasto com o voluntariado não é perdido. ''Faço visitas duas vezes por semana e o Viver não me atrapalha em nada. Encaro como qualquer obrigação do meu dia, como o inglês, a faculdade'', diz Gabriela. ''Todo dia tem alguma coisa para fazer e garantir que tudo corra bem. Temos uma secretária que nos ajuda e muita coisa consigo fazer em casa mesmo. Adoro trabalhar com isso'', garante Marinilce. ''O mais complicado são os dias que antecedem as festas beneficentes. Trabalho o dia inteiro durante cerca de 40 dias antes do evento. Mas faço muita coisa em casa para a Santa Casa e isso não atrapalha minha vida'', completa Leonice.
Sem nenhum tipo de gratificação financeira, o pagamento para quem é voluntário vem de outra maneira. ''É muito bom saber que você alegrou o dia de uma criança que está sofrendo. Sempre gostei de crianças e às vezes alguns casos me emocionam bastante. Já recebi até uma visita em casa de um menino que conheci na Ong Viver'', lembra Gabriela.
Para Leonice, o trabalho é uma boa forma de se ocupar. ''Gosto de ajudar e assim exercito a mente. Penso que tem tanta gente precisando e que eu tenho condições de fazer algo por elas'', explica.
''Quando a creche completou 30 anos, fizemos uma festa para comemorar. O pai de um aluno escreveu uma carta dizendo que já tinha estudado aqui e agora o filho tinha a mesma oportunidade. Já conseguimos cirurgias e tratamentos para alunos nossos e é muito bom saber que fizemos a diferença na vida dessas pessoas'', diz Marinilce.
E apesar de tanto esforço e dedicação por parte dessas voluntárias, elas garantem que quanto mais gente ajudando, melhor. ''A casa do Ong Viver sempre precisa de doações. São atendidos entre 110 e 130 pacientes que precisam de remédios, cestas básicas. Acho que muito mais gente poderia ajudar. Para isso não é preciso ter dinheiro, eu mesma ajudo com trabalho e carinho'', afirma Gabriela.
''Nossa maior necessidade é humana. Gostaríamos de ter pessoas que viessem aqui e oferecessem algo diferente para as crianças. A Escola Livre de Música está dando aulas aqui e elas adoram. Também precisaríamos de mais vagas no berçário'', diz Marinilce.

mockup