Você tem mania ou obsessão?
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quinta-feira, 18 de setembro de 2003
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
Arrumar a casa, lavar as mãos e fazer compras são atividades comuns durante o dia-a-dia das pessoas. Mas lavar as mãos repetidas vezes, gastar mais do que se recebe em compras desnecessárias e organizar coisas que dispensam ordem, como o lixo de casa, podem ser sinais de uma doença conhecida como TOC Transtorno Obsessivo Compulsivo. Comumente chamado de neurose, o TOC é um distúrbio comportamental no qual a pessoa faz de um simples hábito uma verdadeira obsessão.
Os médicos acreditam que entre 2% e 3% da população mundial sofre da doença, o que significa cerca de 100 milhões de pessoas. Segundo o terapeuta analista do comportamento Denis Roberto Zamignani, de São Paulo que esteve em Londrina ontem para dar uma palestra sobre o assunto durante o XII Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina Comportamental só a partir do século XX o TOC passou a ser considerado um quadro psiquiátrico independente. Antes ele era tratado como parte da depressão e, na Idade Média, acreditava-se que este tipo de problema fosse provocado por possessões demoníacas. Infelizmente, ainda hoje nós vemos alguns grupos religiosos que tratam do problema como uma possessão de demônios e espíritos, comenta.
Motivos Hoje os médicos sabem que o TOC é causado por motivos neurológicos e variáveis ambientais e emocionais. De acordo com a psicóloga e presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC), Zilah Brandão, a pessoa que sofre de TOC possui um pensamento fixo incontrolável, que é a obsessão, e realiza atividades de forma compulsiva para tentar aliviar a angústia de sua obsessão. Uma pessoa que tem obsessão de se contaminar por alguma bactéria não consegue parar de pensar nesta idéia. Ela lava as mãos de forma compulsiva para tentar aliviar o medo de se contaminar, explica.
Apesar de usar os hábitos compulsivos como forma de combater a ansiedade provocada pela obsessão, a angústia volta a afetar o doente logo em seguida. O tratamento do TOC é complicado porque, segundo Zilah, na maioria das vezes, o paciente entende que seus hábitos são normais e não aceita a doença. Mesmo quando a pessoa percebe que tem alguma coisa de errado em seu comportamento, ela não reconhece isso para outras pessoas por vergonha, afirma.
Imagine o quanto deve ser complicado para uma pessoa que ocupa um cargo de responsabilidade e que é respeitada pelos outros admitir que precisa verificar se as portas da casa estão trancadas mais de dez vezes antes de se deitar ou que tem dificuldade de pisar nas divisões das calçadas. Por isso, as pessoas se fecham e escondem suas compulsões, explica.
O TOC pode afetar homens e mulheres em igual proporção e geralmente surge na adolescência ou no começo da idade adulta, mas existem casos da doença também em crianças. O surgimento do problema já foi relacionado a várias razões, como educação repressora e traumas de infância, mas estudos recentes mostram que há uma pré-disposição genética que pode ou não aparecer, dependendo da história da pessoa e da cultura onde ela vive.
O meio é um importante fator não no surgimento da doença, mas no conteúdo das obsessões. Uma cultura muito religiosa pode provocar em pessoas pré-dispostas obsessões relacionadas à religião, enquanto que em culturas de grandes cidades podem surgir casos de obsessão por segurança.
Medo As compulsões mais comuns, segundo Zamignani, são as de limpeza, arrumação, checagem e purificação. Uma pessoa que tem medo obsessivo de ser assaltada ou de sofrer acidentes pode desenvolver compulsão por checagem, por exemplo. A pessoa sente necessidade de verificar, várias vezes, se fechou as janelas e portas da casa, se desligou a saída de gás. Tudo por medo de que algo ruim aconteça, explica. Mas, muitas vezes, a compulsão não tem relação direta com alguma obsessão. Uma pessoa que tem compulsão por entender de onde vêm suas sombras, por exemplo, não faz isso por alguma obsessão. Ela simplesmente não consegue deixar de fazer, afirma.


