Que a internet é hoje uma ferramenta indispensável, não há o que se discutir. Através dela podemos pagar contas, comprar de presentes a eletrodomésticos, fazer pesquisas escolares e profissionais, encontrar amigos e familiares, trocar fotos, músicas e vídeos, nos informar sobre os últimos acontecimentos do outro lado do mundo e muito mais,

Porém, há quem tenha preferido tudo isso a "viver de verdade", como encontrar os amigos, jantar com a família, passear com o cachorro no fim de tarde. E como todo extremo é perigoso, estamos começando a colher os primeiros frutos desse excesso.

O alerta é do psicoterapeuta Ivan Capelatto, que esteve em Londrina recentemente a convite do Colégio Universitário para uma palestra para pais e alunos sobre a internet. Segundo ele, o excesso de virtualização está causando a falência das emoções e essa indiferença para com o outro é a causa de tanta violência que vemos hoje. Para tentar frear esse processo, os pais precisam estar atentos para dosar o tempo que os filhos passam junto à rede e também os ensinar a lidar com as emoções. Em conversa com a FOLHA, Capelatto fez vários alertas e também recomendações para ajudar os pais a enfrentar o problema. Confira a seguir.

Virtualização
"A questão eletrônica, virtual, saiu do Google e entrou em todos os aspectos da vida. Começamos nos anos 1990 a ter os bichinhos virtuais e hoje temos o Furby, que todas as crianças têm. Humanizar algo que está virtualizado traz uma perda do sentimento de cuidado porque se eu esquecer de dar comida ele morre, eu aperto 'reset' e ele volta. Mas o cachorrinho não volta. A virtualização traz um prejuízo para o compromisso."

Jogos eletrônicos
"Os jogos eletrônicos são bons, usamos em pacientes com Alzheimer, para pessoas paraplégicas, tetraplégicas. Tivemos pacientes com Alzheimer que ficaram estáveis com o uso do Wii (videogame), controlado por um fisioterapeuta, por um psicólogo. Mas tem um jogo que para eu atingir o prazer, tenho que matar o dono da mercearia, estuprar uma menina na estação do metrô. As pessoas não percebem que há uma emoção atrás disso. Eu vou atingir o alvo, mas eu tive prazer em matar. Em crianças pequenas, que não têm uma boa estrutura mental, esse prazer começa a ser também um prazer que vem para o real – agredir, lesar, causar dano."

Redes sociais
"As redes sociais são maravilhosas, tem gente que passa várias informações, planos de vida por ela e tem gente que se comunica de maneira falsa, está sentindo uma coisa e escreve outra. Eu estou comendo um sanduíche e coloco no Instagram e as pessoas curtem isso. Mas eu não faço isso porque gosto dessas pessoas, mas porque quero que elas se interessem por mim, quero ver quantos seguidores eu tenho, que poder eu tenho. Não é uma relação de amor, de afeto, é só uma relação de poder."

Vício
"Tem muitos adolescentes que estão indo para o consultório porque estão adictos virtuais, estão viciados, não conseguem mais dormir. Tenho uma paciente adolescente que teve cistite porque não podia deixar de responder às mensagens e não foi urinar. Tem meninos que estão obesos, outros que estão anoréxicos, sem a capacidade de perceber o que sentem. A virtualidade em excesso mata a capacidade de as pessoas terem uma coisa muito importante que é o sentimento de pertinência à vida. Quando eu começo a anular minhas emoções por causa da virtualidade, eu vou reprimindo amor, raiva, medo saudade, tristeza. As consequências da repressão das emoções são diversas. Temos muitos adolescentes depressivos, que não conseguem distinguir o real do virtual, com labirintite, doenças autoimunes, gastrite, azia, refluxo, enxaqueca, dor de cabeça, problemas circulatórios. O excesso da virtualidade, a repressão dos sentimentos e essa coisa falsa viram uma doença."

Falta de emoções
"A minha preocupação é essa geração que tem o virtual como babá. A virtualidade vai fazer com que haja uma estimulação intelectual, mas não emocional. A namorada briga com o rapaz e ele tenta matar. Essa geração que usa a virtualidade como meio de vida vai pagar um preço muito caro."

Frustração
"Tudo tem fim na vida – o dia, a semana, a festa, o prazer. Suportar essa angústia é o recurso que a gente tem para viver bem. A virtualidade não tem fim, então não traz angústia. É como uma bebida, uma droga. As pessoas vão fazendo com que o contato virtual fique infinito. Às vezes não dorme, não vai ao banheiro. Tudo tem que ter limite e a virtualidade também precisa ter."

Ensinando a viver
"Os pais têm que entender que filho não é como árvore, que a gente rega uma vez por semana e pronto. O filho precisa da presença dos pais. A maior função deles é construir nos bebês, crianças e adolescentes a capacidade de autoestima. A gente só tem autoestima quando consegue suportar a frustração. Para suportar frustração, a gente precisa de alguém que suporte junto com a gente. Os pais chegam em casa, vão jantar e têm que tirar os filhos do computador. Têm que aguentar o choro, o xingo, a crise dos filhos. A função dos pais é preparar o filho para a vida e a gente só prepara para a vida quando sente que pode suportar as perdas. Uma pessoa saudável é aquela que suporta a frustração, chora, sente raiva, recomeça. Hoje a maior parte das crianças e dos adolescentes vai crescendo sem se frustrar. E quando se frustram saem da escola e vão para algo que frustre menos. Vão vender droga, usar droga, tudo isso tira essa sensação de perda com a qual não conseguem lidar. A função dos pais é colocar limites e quando veem a crise acontecer e suportam a crise sem bater, o filho começa a perceber que pode suportar a frustração."

Suportando as crises
"A criança precisa ter um tempo para conviver, para brigar com a mãe e o pai, para fazer coisas físicas, para almoçar junto. As relações precisam acontecer para se usar os sentimentos. Na virtualidade nenhum sentimento a gente usa. Mesmo nas ligações via skype, se alguém começa a brigar comigo eu desligo. Se alguém começa a colocar sentimentos que eu não gosto no facebook, eu excluo essa pessoa. Esse é o problema da virtualidade, o impedimento à vida interna. Estamos perdendo a capacidade de vivermos emocionalmente e quando uma sociedade perde isso, ela adoece, como estamos adoecendo. O suicídio aumenta, o uso de drogas, de bebidas, a violência."

O que fazer?
"Alguns países de Primeiro Mundo têm começado a fazer campanha, países extremamente compulsivos com isso, como Japão, Alemanha. Os Estados Unidos têm conseguido em programas na escola usar a virtualização dentro desse tempo. Ter um tempo para jogar bola, ficar com o amigo, colocar a virtualidade como parte da vida, não como a vida. Mas estamos no Brasil, vamos sofrer um tempo para dar esse limite. Os pais mais conscientes, os políticos, as escolas vão ter que pensar nisso. As mães devem marcar uma reunião com outras mães, falar sobre a necessidade de as crianças se encontrarem no playground. Temos que ter um tempo para viver com os outros, senão nossas emoções param. As pessoas devem pensar que somos seres emocionais, nosso intelecto não nos protege de nada. A falência das emoções é a falência da vida, da sociedade."

Imagem ilustrativa da imagem ‘Viver de verdade’
| Foto: Fotos: Anderson Coelho e Shutterstock
"Tem que ter um tempo para jogar bola, ficar com o amigo, colocar a virtualidade como parte da vida, não como a vida. Os pais mais conscientes, os políticos, as escolas vão ter que pensar nisso", diz o psicoterapeuta Ivan Capelatto
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"Essa geração que usa a virtualidade como meio de vida vai pagar um preço muito caro"
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"Os pais chegam em casa, vão jantar e têm que tirar os filhos do computador. Têm que aguentar o choro"
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