A mulher brasileira teve acesso à educação formal há pouco mais de 120 anos, e há 69 anos pode votar. Só recentemente, já no século 21, a Câmara dos Deputados aprovou o novo texto do Código Civil, que acaba com a possibilidade de anulação do casamento se o parceiro constatar que a noiva não é mais virgem. Mesmo assim, em nenhum outro período da história a mulher obteve tantas vitórias do ponto de vista profissional e pessoal.
‘‘Esses avanços fizeram com que a mulher se libertasse de obstáculos e preconceitos, principalmente morais, que impediam sua realização pessoal’’, observa a socióloga e escritora Maria Lucia Victor Barbosa, para quem o século que passou marcou muito esse crescimento da mulher como ser humano. ‘‘Numa outra época, o Renascimento, mulheres se destacaram, mas isso se deu de forma restrita, na área das artes’’, acrescenta.
Sem dúvida, a escola, a profissão e a independência financeira contribuíram muito para essa evolução. ‘‘A mulher superou muitas dificuldades na medida em que conseguiu alcançar duas esferas sociais importantes sem as quais ninguém se realiza: o trabalho e a educação. A independência econômica fez com que ela deixasse de ser estritamente dependente do homem e a educação contribuiu para que ela pudesse progredir profissionalmente, compreender melhor sua condição e dar um sentido mais amplo à vida’’, explica Maria Lucia.
A socióloga lembra que no Brasil a formação colonial teve como base a dupla moral: uma masculina e outra feminina, marcando muito o pensamento conservador que aceitava uma postura do homem e negava tudo à mulher. Hoje, segundo ela, ‘‘essa relação se processa de forma mais igual, mas ainda com muitas reservas e dependendo da classe social porque, sobretudo nas classes mais baixas, a postura machista prevalece’’.
Maria Lucia chama a atenção para um aspecto importante que pode ocorrer na relação homem/mulher, resultado do movimento pela igualdade entre os sexos. ‘‘É até paradoxal, mas essa igualdade pode produzir desequilíbrios, quando a mulher tenta superar o homem, abandonando sua essência feminina. Ela não pode passar para o lado oposto, substituir o machismo, que ela tanto condenou, pelo feminismo exagerado, querendo ser superior como o homem. A harmonia deve ser mantida. Até pela própria natureza, as diferenças sempre existirão entre o homem e a mulher, e são diferenças várias que asseguram o fascínio, a atração entre os sexos. Homem e mulher são como os dois lados de uma mesma moeda, e na sua integração devem encontrar o equilíbrio, a harmonia, para alcançar um bom relacionamento’’.
Para a socióloga, o casamento é um dos pontos nevrálgicos da nova condição da mulher. Ela observa que a relação a dois tornou-se bastante instável, justamente por esse lado bom da independência, mas que pode levar a excessos de incompreensão entre o casal – um preço amargo invariavelmente pago pelos filhos. ‘‘A mulher não deve ignorar alguns papéis que são próprios de sua condição feminina, principalmente o papel de mãe, que não pode ser descartado em nome do feminismo’’, alerta a socióloga.
A busca do amor
Poderosas, emancipadas, independentes, cheias de responsabilidade, as mulheres, no fundo, ainda querem manter a feminilidade e o amor de um homem. Com um arsenal de produtos e cirurgias a seu dispor para manter a aparência, elas tiram de letra o quesito beleza ao mesmo tempo em que reclamam da ausência de um homem a seu lado para compartilhar a vida. ‘‘É, muitos homens estão assustados e inseguros com essa nova mulher, mais forte, que surgiu nas últimas décadas’’, afirma Maria Lucia Victor Barbosa. ‘‘Afinal, ela tem tomado a iniciativa em todas as áreas, inclusive na conquista amorosa e com uma postura bastante agressiva’’. Mas essa atitude de afirmação apenas sexual segundo a socióloga, faz a mulher sofrer porque é contra a sua natureza psíquica e física, ela é menos epidérmica que o homem, é mais sensível e suscetível às oscilações sentimentais. ‘‘Sempre existirá a busca do nosso complemento psíquico e físico. Por mais que queiramos ser livres e independentes, hoje, em pleno século 21, ainda somos aquelas românticas do século 19. E se hoje não podemos perfumar nossas cartas que agora são enviadas por e-mail, ainda gostaríamos de nos abanar com um leque e exaltar nossa feminilidade. É inútil esconder isso através da postura rígida de uma médica, burocrata, advogada, empresária. O grande desafio é saber conciliar com competência as funções e papéis, assumindo com igual sabedoria a missão de mãe, de dona de casa, os estudos e a carreira’’, pondera. (A.R.B)
O corpo em evidência
A possibilidade de se sentir mais bonita, atraente e confiante também é uma conquista recente. A mulher mudou o jeito de olhar para si mesma e ganhou o controle sobre seu corpo. Para a socióloga Maria Lucia Victor Barbosa isso é louvável e gratificante, mas existe outra questão: ‘‘A mulher está se expondo demais através dessas celebridades momentâneas feitas de silicone, em que o culto ao corpo faz com que se exibam com apelos exclusivamente sexuais, como se fossem mercadorias, servindo de mau exemplo para muitas jovens’’. Para a socióloga, essa exposição exagerada acaba ‘‘coisificando’’ a mulher, é mais um desvio da independência exagerada. ‘‘Não se pode confundir liberdade com liberalidade. Se a mulher quer ser valorizada, tem que buscar os verdadeiros valores, não só a exibição pura e simples. Essa atitude a mantém como um objeto, é um retrocesso depois de tantas conquistas’’. (A.R.B)
Socióloga e escritora, Maria Lucia Victor Barbosa tem cinco livros publicados: ‘‘O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A Ética da Malandragem’’, ‘‘América Latina em Busca do Paraíso Perdido’’, ‘‘Fragmentos de uma Época’’, ‘‘Contos da Meia-Noite’’, ‘‘A Colheita da Vida – Resgate Histórico da Sociedade Rural do Paranᒒ.

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