Vitória da vida
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de outubro de 2000
Ligia Formenti Agência Estado 
Ainda cursando o primeiro ano da faculdade de medicina, Manuela Pacífico de Freitas Segredo já sabe em que vai se especializar: oncologia pediátrica. A opção que muitos estudantes julgam prematura nessa fase começou a ser delineada ainda na infância, quando a estudante lutava contra o câncer. Prestei vestibular para poder tratar de crianças com os mesmos problemas que eu tive, diz. Quero retribuir os benefícios que recebi.
Assim como Manuela, uma legião de crianças que desenvolveu o câncer na infância conseguiu vencer a doença e hoje trabalha ou estuda. Estima-se que uma em cada mil pessoas que estão completando 30 anos seja sobrevivente do câncer pediátrico. Para tentar acompanhar essa geração de ex-pacientes, foi criado há dois anos no Hospital do Câncer, em São Paulo, um centro de atendimento o Grupo Especial Pediátrico dos Efeitos Tardios do Tratamento Oncológico (Gepetto). No serviço, são avaliados pacientes que venceram a doença para verificar se a terapia contra o câncer não deixou sequelas. Queremos alcançar não só a cura biológica, mas também a psicológica e social, afirma Luiz Fernando Lopes, coordenador do serviço.
Boas notícias O primeiro estudo feito a partir do atendimento do Gepetto traz dados muito animadores. Dos 324 pacientes avaliados na pesquisa, 32% não apresentavam nenhuma sequela. É um número muito bom, principalmente quando se leva em conta que, para um adolescente, uma cicatriz muitas vezes é considerada como uma terrível consequência da doença, observa o médico. E as cicatrizes, por menores que sejam, são incluídas na lista de consequências do tratamento.
Os pacientes observados na pesquisa tinham idade entre 11 e 35 anos. Dos avaliados, 60% disseram que nunca beberam e 88% nunca fumaram. Além disso, 93% dos pacientes fora de tratamento nunca consumiram nenhum tipo de droga. São números muito bons, afirma Lopes. Dos entrevistados, 1,9% disse ter usado cocaína. Para pacientes com problemas, fazemos o encaminhamento para outros profissionais.
A capacidade de trabalho também foi observada: 50%, por serem jovens, ainda dependem economicamente dos pais, e 43% disseram trabalhar sem nenhuma dificuldade. Do grupo, 6,8% não exerciam nenhuma atividade, ou por sequela do tratamento ou por discriminação.
O acompanhamento de pacientes fora de tratamento é feito por uma equipe multidisciplinar. Já desenvolvíamos atividade semelhante antes do grupo, mas não assim, com um centro multidisciplinar, conta Lopes. No Gepetto são atendidos apenas os pacientes que passaram pelo serviço de pediatria oncológica do Hospital do Câncer.
O Instituto da Criança também acompanha de perto os ex-pacientes do serviço de oncologia. Aqui, porém, não dispomos de um serviço específico, com espaço físico ou horário de atendimento próprios, conta o chefe do serviço de oncologia do instituto, Vicente Odone Filho.
Assim como no Hospital do Câncer, o serviço do Instituto da Criança procura detectar e tratar possíveis distúrbios acarretados pela terapia contra o câncer. Essa atenção se justifica. No tratamento é usada uma série de recursos e medicamentos. Alguns procedimentos podem aumentar o risco de problemas de crescimento, de fertilidade, cardiológicos ou funcionamento dos rins. Fazemos um acompanhamento minucioso, para tratar qualquer desvio que possa aparecer, conta Odone.
Mas o trabalho dessas equipes vai além. Os dois grupos dispõem, por exemplo, de atividade de assistência social. Quando um paciente fora de tratamento não conseque emprego por problemas de discriminação, tentamos auxiliá-lo, explica Odone.
Superproteção No Gepetto, o aspecto psicológico recebe uma atenção especial. Há pacientes que têm medo de ter uma recidiva, diz. Mas não é só isso. Problemas familiares também são frequentes. Uma reclamação muito comum é a superproteção dos pais. Muitas mães acostumaram-se a cuidar do filho em tempo integral e hoje continuam tratando-os como se fossem crianças, relata Lopes.
Os filhos desses pacientes também passam por um check-up. Nossa maior alegria é perceber que essas crianças nascem sem nenhum problema, afirma Odone. Dos 54 filhos de pacientes do Instituto da Criança, nenhum nasceu com problemas que poderiam ser atribuídos ao tratamento para o combate ao câncer. O nascimento dessas crianças saudáveis era a etapa que faltava para fechar o ciclo da recuperação e da completa retomada da vida normal e saudável, conclui.


