Com tantas informações sobre a nutrição adequada para a saúde e o desenvolvimento pleno das crianças, as mães mais preocupadas não deixam faltar no cardápio ferro, cálcio, vitaminas A, B, C, D. Mas, segundo pesquisas, muitas estão esquecendo de fornecer aos filhos a vitamina S (de sujeira!), também essencial para os pimpolhos.
Foi assim que a atriz Glória Pires explicou na semana passada, durante o Fórum Omo, analisando a infância na visão global das mães e revelando como ela cria seus filhos e consegue fazer com que sua família seja um exemplo para todo o País. ''Foi o médico da Cléo (filha mais velha da atriz) que me falou da vitamina S pela primeira vez. Ela era muito moleca, estava sempre machucada e suja e eu me preocupava. Desde então, procuro oferecer para meus filhos a possibilidade de viverem mais livres'', conta.
Glória esteve em São Paulo a convite do Instituto Unilever, organizador do evento, para lembrar que as brincadeiras de antigamente, tão esquecidas hoje em dia, são importantes para a crianças ser mais felizes. ''Na infância, eu costumava brincar com a turma do bairro e essa experiência me enriqueceu, me tornou mais atenta, me deu repertório de vida. E quando meus filhos estavam pequenos, nos mudamos para Goiânia e moramos um tempo na fazenda. Até hoje eles lembram com carinho dessa época'', afirma.
Direito de ser criança- O que a atriz aprendeu com a vida foi confirmado pelos professores de psicologia da Universidade de Yale, Dorothy Singer e Jerome Singer, também convidados para o fórum. Eles coordenaram uma pesquisa feita a pedido do Instituto Unilever com mães de dez países para investigar a percepção delas sobre Aprendizagem Experiencial (AE) - ''o processo de aprender pela exploração, pela convivência, pela criação e por brincadeiras espontâneas. Resumindo, é dar aos filhos o direito de ser criança'', segundo Dorothy.
O estudo feito pelo casal Singer, mostra que as mães se preocupam com a falta do brincar dos filhos e reconhecem que isso pode atrapalhar o desenvolvimento deles. ''Para as mães, há vários obstáculos para a AE. A violência foi um dos mais citados, seguido pela falta de tempo dos pais, pelo medo de que as crianças se machuquem, e a falta de local adequado. Infelizmente a infância está desaparecendo'', alerta o professor Jerome.
Fora de casa- Foi pensando em dar mais qualidade de vida ao filho Ricardo, 2 anos, que a londrinense Graziela Palombo Cremonezi, 38 anos, se mudou de um apartamento para um condomínio fechado. ''Incentivo muito meu filho a brincar fora de casa com os amiguinhos porque acredito que isso seja bom para ele esse contato com a natureza, com outras crianças'', explica.
E as vantagens das brincadeiras simples, como caçar insetos, subir em árvores, brincar na terra e correr com os amigos são inúmeras. ''Elas oferecem desenvolvimento cognitivo, afetivo, social, físico e atencional. As crianças ficam mais felizes, formam suas próprias idéias, resolvem problemas, ganham auto-estima, aprendem a dividir, ajudar, esperar sua vez, cooperar e interagir com o outro. Quando brincam ao ar livre, as crianças comem melhor, dormem melhor e desenvolvem a atenção'', enumera Dorothy.
''Morei em uma casa onde não me sentia segura em permitir meus filhos de brincar na rua. Agora que moramos no condomínio, eles vivem na rua com os amigos e percebo que ficaram mais desenvoltos, mais ativos e alegres'', comenta a doceira Isabela Martins Biondo, 39 anos, mãe de Sérgio Luís, 10 anos, e Gabryela, 5. ''Tenho dó das crianças que moram em apartamento porque acho que elas não têm muitos amigos e nem lugar para brincar'', completa o garoto.
Ao invés de sair para brincar, a maioria das crianças passa o dia com atividades mais passivas, de acordo com a pesquisa (veja box). ''Depois de voltar da escola, muitas passam o dia assistindo à TV, no computador ou no videogame. Muitas mães acreditam que assim seus filhos estão seguros. Mas existem riscos nessas atividades: pesquisas mostram que as crianças assistem a programas adultos, com muita violência e fora da realidade. Os jogos de computador e videogame mais atraentes são violentos e já sabemos que as crianças que brincam com isso ficam mais agressivas. Sem falar do problema da obesidade e diabetes, causadas pelo tempo excessivo que as crianças ficam paradas. Isso acaba acontecendo porque as crianças não são apresentadas pelos adultos a outras opções de lazer'', afirma Dorothy.
Sujeira boa- Para a analista de sistemas Maristela Ferreira Tironi, 39 anos, mãe de João Paulo, 10 anos, e Julia, 5, incentivar os filhos a brincar fora de casa é fundamental. ''Gosto quando eles chegam todos sujos em casa porque sei que eles aproveitaram bastante'', diz. ''Minha brincadeira preferida é futebol. Não gosto muito de videogame, só jogo quando chove e não dá para brincar na rua'', afirma João.
Os professores lembram que não só em casa, mas também nas escolas, a brincadeira livre está sendo substituída pela necessidade de adquirir conhecimento teórico. ''Aulas de música e arte, assim como o recreio, têm sido cada vez mais reduzidas. Nos Estados Unidos, e no Brasil também, existe uma exigência muito grande para as crianças atingirem padrões não adequados de aprendizagem. Isso causa uma tensão imensa nelas. As crianças que obtiveram os melhores resultados escolares são as da Finlândia, e lá, os alunos têm alguns minutos para brincar depois de cada aula'', garante Jerome.
Para ajudar os filhos, os especialistas afirmam que os pais precisam encontrar maneiras de levar seus filhos para as antigas brincadeiras de rua. ''Todo bairro tem uma praça onde é possível brincar. Os pais que moram na mesma rua podem fazer grupos de brincadeira para cada um cuidar das crianças em dias alternados. Quanto aos programas de TV, tente discutir com a criança um final alternativo para a história, ou sugira uma encenação de um trecho do filme ou desenho. Ao invés de pedir ao filho que coloque a mesa do jantar, convide-o para brincar de restaurante. Os pais precisam perder a vergonha de brincar'', ensina Dorothy.
Para a grande maioria dos pais que reclamam da violência, Jerome tenta mostrar um lado mais tranquilo da vida. ''Os meios de comunicação dão muito enfoque à violência e nós passamos a acreditar que o mundo é só isso. Claro que não podemos descuidar completamente, mas as mães deveriam parar de assistir a tantos programas policiais e imaginar que seu bairro é mais violento do que realmente é.''

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