Vintage para beber e vestir
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de junho de 2002
Da Redação 
Vendemia, vindima, colheita, safra, cosecha e anata. São os sinônimos mais conhecidos da palavra francesa vintage que, traduzida literalmente, denomina o ano em que a uva de determinado vinho foi colhida. Mas, neste sofisticado mundo, o termo ganhou um enfoque diferente, sobretudo na região da Champagne, França, e no Porto, em Portugal. Nesses centros produtores, vintage é a denominação para vinhos especiais e únicos, elaborados com uvas de safras extremamente nobres. No caso do vinho do Porto, provar um vintage é um gesto quase sagrado.
Mas essa matéria não é exclusiva para os enófilos de plantão. Foi feita para quem cuida do seu estilo como um connaisseur cuida do seu paladar. Por isso mesmo, acredite, vinho e moda tem muitas coisas em comum. Esses dois assuntos estão irremediavelmente ligados por uma palavra: vintage. O termo migrou para a moda e virou sinônimo de peças especiais e com aspecto de envelhecidas, com cara de outra época.
É claro que diferentemente do vinho, as grifes não dispõem de espaço (adegas) e nem de tempo (e bota tempo nisso!) para produzir peças a partir de um processo natural de envelhecimento. Então usou-se a tecnologia. O resultado é belíssimo, com exemplares extremamente especiais e, como os vinhos, únicos.
A jeanswear Carmim desenvolveu para o inverno de 2002 o jeans vintage, com aspecto de usado, que rapidamente virou a estrela da coleção. Já a grife masculina Anni Futuri fez camisas sociais também vintage que dão a impressão de já terem sido usadas em outra época. O caimento do tecido submetido a essa técnica proporciona um conforto incomum para peças novas.
Moda é cultura. É, ao mesmo tempo, imagem e reflexo de comportamento e atitude. É também feita de processos e rituais.
O apreciador dessa bebida milenar não bebe, apenas. Da mesma forma, o apreciador de moda não se veste, apenas. Tomar vinho envolve gostar de geografia e história, saber de onde vem aquela maravilha, quando a uva foi colhida, quem fez, e entender a magia dessa criação. Na moda, é absolutamente igual; entender da onde veio a inspiração (folk indiano...), de quando (época Vitoriana....) e quem foi o agricultor dessa idéia.
Produzir uma peça vintage é dar-lhe um passado, uma história e assim torná-la especial. A moda entendeu a importância de valorizar o que passou para então criar tendências e misturar de forma criativa passado, presente e futuro.
Com o mesmo cuidado que o artesão do vinho cria sua obra, os designers de jóias compõem peças que encontram no encanto do passado sua razão de ser. Novamente, o vintage surge como elo entre esses dois universos de estilo e sofisticação.
O designer de jóias Renato Wagner buscou em Nova York um artesão de 80 anos, que desenvolveu uma técnica de esmaltação semelhante à utilizada nos antigos vitrais Lalique.
O ritual do vinho envolve principalmente dois sentidos básicos; o olfato e o paladar. O apreciador gosta de sentir os aromas da bebida ainda no copo (como se fosse um perfume ), depois senti-la na boca e descobrir seu gosto, corpo, estrutura e influências.
No ritual da moda não é diferente. O apreciador tem a visão e o tato aguçados, e, através deles aprende a apreciar as cores, texturas, formatos, enfim, os detalhes de cada exemplar.
Por falar em detalhes, nem os acessórios ficaram de fora. A Legaspi tradicional empresa de acessórios femininos do sul do país trabalhou em sua coleção o aspecto de envelhecimento no couro. Vera Arruda desenvolveu uma coleção inspirada nos anos 30 e 40. Cristais e metais assumiram uma aparência que só o tempo é capaz de propiciar a uma peça.
Gostar do que é esteticamente belo, agradavelmente harmonioso ou deliciosamente perturbador não é mais privilégio dos amantes do vinho, mas também dos amantes da moda. E o vintage veio para provar isso.


