A rotina do londrinense Claudines Bartolomeu, de 41 anos, integrante da Seleção Brasileira de Natação Paraolímpica, inclui treinos de natação todos os dias. Ele já perdeu as contas de quantas medalhas conquistou nas inúmeras competições que participou - e participa - Brasil afora. Sua meta é atingir o índice necessário para as Paraolímpiadas que acontecem no ano que vem em Londres. Ele também viaja para dar palestras em universidades. É convidado para contar a sua história de vida, que é marcada por força de vontade e muita superação.
Claudines é cadeirante e recebeu o diagnóstico de tetraplegia aos 21 anos de idade. Era um sábado, dia 12 de outubro de 1991. Ele seguia a sua rotina normalmente e nem imaginava que a sua vida nunca mais seria a mesma após essa data. A apenas dois quarteirões de sua casa, no Jardim Bandeirantes (Zona Oeste de Londrina), sofreu um grave acidente de moto. Passou um mês e dois dias internado, sendo boa parte na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). ''Os médicos chegaram a dizer que eu iria ficar na cama para sempre e que não adiantava nem fazer fisioterapia. Foi muito difícil'', conta.
No entanto, Claudines surpreendeu. Amparado pela família, especialmente pelos pais, seu quadro começou a evoluir. ''Comecei a fazer fisoterapia e hidroterapia. Sempre fui otimista e não me entreguei em nenhum momento'', relata.
O início de sua história com a natação foi em meados de 1993. As sessões de hidroterapia acabaram induzindo Claudines ao esporte. ''Em 1993 participei da minha primeira competição. Foi em Recife. Lá tive contato com muitos deficientes e percebi que existiam pessoas em piores situações do que eu. De certa forma, isso serviu de estímulo'', diz.
De lá para cá, foram inúmeras conquistas. Hoje, ele dirige um carro adaptado e não é mais uma pessoa totalmente dependente. ''Consigo fazer o que preciso, como usar o banheiro e tomar banho. Vou visitar amigos e parentes sozinho de carro. Fui muito abençoado por Deus. Sinto-me um vencedor'', ressalta.
O apoio da família, segundo ele, foi fundamental. O que chama a atenção é que o pai de Claudines, Domingos Bartolomeu, 71 anos, não tem o braço direito. Ele teve o membro amputado na década de 1980 em razão de um acidente de trabalho. O fato, no entanto, não impediu que ele carregasse o filho sempre que necessário. ''Tive que aprender a fazer tudo com o braço esquerdo. Usei prótese por um tempo, mas agora não uso mais. Apesar disso, faço tudo o que quero. Não podemos nunca desistir'', destaca Domingos, que também inclui na sua rotina os treinos de natação. ''Eu e meu filho nadamos juntos. Somos companheiros'', observa.
E se o assunto é superação, o fisioterapeuta Lincoln Santos de Araújo Júnior, 47 anos, pode falar com propriedade. Ainda na infância, aos sete anos, começou a apresentar dificuldades para enxergar. Aos poucos, foi perdendo a visão. ''Recebi vários diagnósticos. Os médicos não sabiam exatamente o que eu tinha. Por isso, acabei sendo submetido a tratamentos errados, o que agravou o quadro. Aos dez anos, já tinha perdido 85% da visão'', lembra.
Ele conta que chegou a estudar em escolas especiais para deficientes visuais. ''Não foi nada fácil. Eu era criança, mas não levava a vida como as demais'', desabafa. Os médicos chegaram ao diagnóstico correto seis anos depois dos primeiros sintomas. Tratava-se de uma artrite reumatóde ocular. ''Aos 13 anos fiz o primeiro transplante de córnea e o quadro começou a evoluir. Aos 23, passei por outra cirurgia'', pontua.
Muito apegado a Deus, Lincoln nunca perdeu a esperança. Apesar das dificuldades, cursou duas faculdades: educação física e fisioterapia. Hoje é casado e tem três filhos. ''Sofri com o preconceito e muitas vezes fiquei deprimido. Mas enfrentei todos os obstáculos. Na faculdade, fazia as leituras com o auxílio de lupas de aumento. Comecei atuando como massoterapeuta e me especializei em fisioterapia manipulativa'', conta.
Após enfrentar uma série de tratamentos, conseguiu recuperar 65% da visão. ''É uma grande vitória'', define Lincoln, ressaltando que ''para alcançar a superação dos problemas, é preciso acreditar em uma força superior, lutar e fazer sempre o melhor''.

Fotos: Gina Mardones

Imagem ilustrativa da imagem Vidas marcadas por luta e superação
O atleta paraolímpico Claudines Bartolomeu com o pai, Domingos: ''Sempre fui otimista e não me entreguei em nenhum momento. Sinto-me um vencedor'', afirma
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''Para alcançar a superação dos problemas, é preciso acreditar em uma força superior, lutar e fazer sempre o melhor'', diz o fisioterapeuta Lincoln de Araújo Júnior