O Brasil tem nada menos do que 18 milhões de cães de estimação só perde para os Estados Unidos e cerca de 12 milhões de gatos. Petshops estão entre os negócios mais rentáveis do País. O setor foi um dos únicos a registrar crescimento nesses tempos de economia estagnada. Só a indústria de alimentos para animais deu um salto de 400% nos últimos oito anos.
Na turma dos lulus e bichanos mais afortunados, as cifras são de cair o queixo. De acordo com reportagem publicada recentemente pela revista Isto É, acessórios de luxo como coleiras de strass, perfumes e roupinhas de grife movimentam algo em torno de R$ 5 bilhões por ano. Excessos à parte, somente quem tem um bichinho de estimação pode entender sem espanto ou condenação a razão desses números.
''Só falta falar'', é a frase recorrente dos donos de animais domésticos. Essas criaturas desfrutam praticamente das mesmas regalias de um ente da família, pois costumam interagir como se assim fossem. ''Parece que ela entende tudo o que a gente diz'', conta a aposentada Gessi Guimarães, 58 anos, referindo-se à gata siamesa Keith, que come bolacha com requeijão e, no inverno, dorme embrulhada no cobertor, ''como se fosse um bebê'', compara a ''vovó'' coruja.
Com carinho, lealdade e gracinhas, os bichinhos juram os donos babões retribuem todos os agrados que lhes são feitos. Puro instinto de sobrevivência, diriam os mais céticos. Amor incondicional, rebateriam os loucos por pets. Não é à toa, portanto, que eles queiram encher de mimos e cuidar da saúde desses companheiros tão especiais. No mercado, já há ração light para cães obesos e ração terapêutica para gatos hipertensos. O resultado de tanto zelo é um aumento considerável da expectativa de vida destes bichos de 9 para 13 anos em menos de uma década.
Olhos e dentesPara acompanhar essa demanda, os veterinários vêm se segmentando cada vez mais. Em São Paulo, existem especialistas em praticamente todas as áreas: coração, rins, pele, dentes. A tendência começa a chegar por aqui. A veterinária Angélica Massumi Ito fez especialização em oftalmologia veterinária em Hokkaido, no Japão, e já atende casos encaminhados pelos seus colegas ''clínicos gerais'' em Londrina. Ela explica que os problemas oftalmológicos surgem em qualquer idade, acarretados por traumas, processos bacterianos e irritação.
''Conforme a raça, há problemas específicos. No pequinês, por exemplo, as dobras nasais entram nos olhos e machucam'', exemplifica. Os exames são feitos com lupas e oftalmoscópio. Há ainda testes com barreiras e espelhos para medir o grau de visão dos bichos. ''Em alguns casos, há como reverter a perda da visão com medicamentos'', observa.
Cursando a especialização em odontologia veterinária da Associação dos Clínicos Veterinários de São Paulo (Anclivepa) a primeira do gênero na América Latina Sônia Fatel Filla atua na área, em Londrina, há quatro anos. De acordo com ela, cerca de 80% dos cães e gatos que chegam ao consultório para o tratamento dentário têm problemas periodontais (tártaro). ''É um acúmulo de placa que se calcifica, juntando bactérias. Nos animais mais velhos, isso acaba provocando mau hálito e até perda de dentes'', explica. Cachorros de raça pequena são o grupo de maior risco: por estarem sempre junto aos donos, comem mais vezes ao dia e, na maioria das vezes, alimentos não tão saudáveis.
Sônia explica que o tratamento periodontal, feito pelos especialistas, difere da simples limpeza de tártaro realizada pelos veterinários tradicionais, pois inclui uso de ultra-som, radiografias, polimento com flúor, anestesia geral inalatória e, se forem necessárias, cirurgias gengivais, canais e extrações. Ao contrário do que se imagina, cáries em cães e gatos são raras. ''Os dentes são mais retos e têm menos fissuras. Além disso, eles comem menos carboidratos que o homem'', esclarece a veterinária.
Sintomas Segundo Sônia, algumas medidas simples, como uma boa olhada nos dentes do bicho pelo menos uma vez ao mês, e outras não tão simples assim uma escovação caprichada a cada dois dias podem prevenir o acúmulo de tártaro. O ideal é que esta prática seja iniciada nos primeiros meses de vida do animal. Assim, ele se tornará mais receptivo. Para quem pensa em tentar mesmo depois de alguns anos sem o hábito, uma idéia é tentar pegar o bicho pelo estômago: existem pastas dentais com sabores de carne e frango.
A empresária Fabíola Ancioto, 22 anos, escova os dentes do poodle Puppie, de três anos, durante os banhos semanais. A prática é ''sagrada'' e começou depois que ela descobriu os efeitos desagradáveis do acúmulo do tártaro na poodle Lani, de 10 anos. ''Notei o problema por causa do hálito. Achava que ela estava suja, mas o mau cheiro vinha da boca'', lembra.
Além do hálito, outros sintomas e ações do animal podem denunciar problemas dentários: salivação, preferência por locais gelados para deitar, mania de passar a pata no focinho e de mastigar de um lado só, além da diminuição da alimentação e da presença de feridas embaixo do olho o que geralmente é confundido com problema de pele. ''Os gatos apresentam ainda estomatites (inflamação gengival)'', avisa a veterinária.
Outros motivos que levam os bichos ao dentista são as fraturas, sobretudo em animais de grande porte. ''É bem frequente em pitbulls durante os exercícios de adestramento com excesso de força; em cães de guarda que mordem o portão e também durante brigas'', enumera Sônia. Embora mais raros, problemas ortodônticos também podem ocorrer. A causa, geralmente, é malformação genética. ''Um dente mal posicionado pode atingir o palato e causar perfuração'', exemplifica ela. Sim, já existe aparelho ortodôntico para cachorro, mas não vá pensando em latidos e rosnados prateados. O ''acessório'' é colocado na parte interna dos dentes.

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