Vida a dois
Cleide Cavalcante
Agência Estado
Xuxa, Adriane Galisteu, Suzana Werner, Carla Perez, Eliana, Ana Paula Arósio, Raí, Marcello Novaes, Tarcísio Filho, Marcos Palmeira, Caio Blat, Fábio Júnior, Tiago Lacerda, Heitor Martinez, Luciano Szafir e muitos outros. A lista dos solteiros famosos é bastante extensa, isso sem contar os anônimos. As mulheres sempre reclamaram da falta de homens, mas o que se observa agora é que a solteiríce forçada é um problema que independe de sexo. Tendência de uma vida moderna? Pode ser, mas os especialistas advertem que há várias maneiras de se manter um bom relacionamento, e que, muitas vezes, as pessoas não se preocupam com este detalhe até o rompimento da relação.
Separações sempre ocorreram, explica o psicoterapeuta Haroldo Lopes, mas nos últimos 40 anos, assim como verificou-se um aumento populacional mundial, o mesmo ocorreu com o rompimento de casais. O que se denominou casamento, no passado era algo mais duradouro. Porém, para se fazer uma avaliação mais próxima da realidade, temos de olhar o casamento levando em consideração a diferença social de um país para outro e o momento social mundial, argumenta.
Lopes frisa que o fato da democracia ter sido adotada em muitos países gerou um clima de maior liberdade social. E isso, consequentemente, acabou refletindo no sistema familiar. Com essa abertura, as pessoas passaram a refletir mais, raciocina. Em contrapartida, o mesmo não ocorre em países como Índia, China e Egito, nos quais o prazer da mulher numa relação sexual é algo fora de questão. Muitas mulheres, inclusive, ainda têm o clitóris extirpado.
Emancipação O que também mudou na sociedade moderna, com profundas repercussões nos relacionamentos, foi a emancipação feminina em vários setores. Hoje, a mulher disputa o mercado de trabalho em estágio de igualdade com os homens. E não foi só profissionalmente que a mulher ganhou espaço, a emancipação sexual feminina veio junto, argumenta.
Este universo de mudanças, no qual também pode ser incluída a quebra de tabus religiosos e familiares, resultou num questionamento amplo acerca do casamento. A mulher, com a sexualidade amadurecida, não se importa tanto com a condição de separada. Aspecto que antes não era visto com bons olhos perante a sociedade. O mesmo acontecia com os homens que deixavam o lar, a mulher e os filhos, afirma.
Conforme o psicoterapeuta, com tudo isso, a equação é positiva. As pessoas passaram a entrar numa relação sem apostar em algo definitivo. Se der certo, tudo bem. Caso contrário, separa e começa de novo. E essa postura está muito atrelada à evolução social. O próprio casamento já é visto com outros olhos. A sociedade já aceita o viver junto, os parâmetros de moralismo mudaram.
Ou seja, a mudança de valores foi de um extremo ao outro. Se no passado, se percebia uma certa acomodação dos casais por causa da postura do eterno, do até que a morte os separe, agora o que as pessoas mais questionam são os valores.O casamento passou a ser instituído em bases mais sólidas, com mais responsabilidade, argumenta Lopes.
Alma gêmea Como terapeuta de casais, Lopes destaca uma outra vertente. Apesar de toda a globalização e modernidade, ainda é comum verificar que muitas mulheres, e até homens, ainda procuram a chamada alma gêmea, que acreditam ser sinônimo de felicidade eterna, conta. Isso é um enorme erro. É retroceder no tempo e voltar ao que defendia Platão, para quem o homem era um andrógeno divino e os deuses, enfurecidos com a sua vaidade, o dividiram em dois, o homem e a mulher. E seria a união destes dois arquétipos que resultaria novamente no ser divino. Daí a idéia de almas gêmeas, ensina.
Para Lopes, essa visão platônica é idealizar o casamento de uma forma improcedente, é querer viver numa infindável fantasia, a exemplo do ocorrido com Carola e Chiquinho Scarpa e Adriane Galisteu e Roberto Justus. Na verdade, o errado é casar com um personagem idealizado. A fase do namoro é um mar de águas claras, mas quando a união é formalizada, os problemas começam a emergir. No dia-a-dia, a aparente afinidade, a beleza, o sonho, as coisas bonitas, começam a tomar outro vulto. O primordial é estar atento a isso, pois nem sempre o casal está preparado para enfrentar o cotidiano em parceria, ensina.
Terapia Neste momento, indica Lopes, o terapeuta pode ser um bom aliado. O profissional irá agir como um interlocutor, tentando descobrir e apontar onde existe problema, de forma que o casal possa perceber as diferenças de caráter e de conduta de cada um.
A falta de maturidade e o excesso de romantismo e lirismo são os maiores inimigos do felizes para sempre. A busca da alma gêmea pode fazer com que a pessoa case uma, duas, três vezes e nunca perceba onde esta errando. Situação favorecida, como já disse, pela mudança de valores da sociedade contemporânea, argumenta. Se as pessoas repensarem isso, eliminarem essa coisa utópica e souberem ceder no momento certo, aí sim poderão descobrir com o parceiro o caminho da felicidade. A união não é só somar é, também, saber dividir e conviver com as diferenças, completa ele.





