Não há como negar. Minas Gerais é um dos mais ativos centros de criação de moda do Brasil. Carregam o sotaque mineiro nomes de peso no circuito fashion nacional, como Renato Loureiro, Therezinha Santos (da Patachou) e o expert Ronaldo Fraga, unanimidade entre os fashionistas. No meio internacional, o representante é Inácio Ribeiro, da marca Clements Ribeiro, sediada em Londres.
Da terra do pão de queijo saíram ainda grifes como Alphorria, Vide Bula e Jotta Sybbalena. Impossível, para quem gosta do assunto, já não ter ouvido falar deles. Mas a boa notícia é que de onde eles vieram tem mais talento. Foi o que mostrou o Calendário Oficial da Moda – Edição Belo Horizonte, que aconteceu semana passada, reunindo 15 marcas do Estado.
Os desfiles aconteceram na Serraria Souza Pinto, um local reservado a eventos culturais no centro da cidade. Por lá passaram, durante quatro dias, centenas de pessoas curiosas para saber o que lhes reservam as vitrines de verão. As principais tendências já vistas em outras passarelas estiveram presentes e, vez ou outra, vieram temperadas com um molho bem particular. Caso de Graça Ottoni, que encantou com bordados rústicos e o bom uso de tecidos naturais, da Disritmia, com seus jeans descoladamente detonados, e de Rodrigo Fraga, que transformou o mundo canino em uma bem resolvida coleção. (Confira os destaques nas próximas páginas).
Fora da passarela, o saldo também foi positivo. Reunidos em uma mesa-redonda, os estilistas Inácio Ribeiro, Giácomo Lombardi (Vide Bula), Ronaldo Fraga, Sônia Lessa (IBZ), o diretor artístico do evento Paulo Borges e a imprensa especializada discutiram os destinos da criação de moda no Brasil. Muito mais do que lutar para conquistar um lugar ao sol no competitivo mercado internacional, concluiu-se que o mais importante é garantir que os futuros estilistas dêem continuidade à construção de uma identidade para a moda nacional, pois só assim o País conseguirá visibilidade externa. E que a melhor forma de fazer isso é investir na educação.
‘‘As faculdades estão equivocadas. Ensinam a arrumar emprego e não a criar’’, denunciou Paulo Borges, alertando para a idéia superficial que se tem a respeito do profissional da área. O que faz com que muitos jovens escolham a profissão baseados apenas no glamour propagado pela mídia. ‘‘Faltam mestres, referências de moda no Brasil’’, diagnosticou. (Leia mais sobre o assunto na página 18).
* A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização do evento.
Bárbara Bela
Weber Pádua
Tradição e modernidade caminharam juntas na passarela de Bárbara Bela, que deu uma nova cara à renda, sempre marcante em seu trabalho. Ela surge em vestidos curtos assimétricos e nas batas brancas artesanais – deslumbrantes – usadas com jeans five pockets. A leveza das musselines e chiffons e a delicadeza dos frufrus e fitas contrastam com a agressividade dos coturnos, numa referência ao visual de Courtney Love no início dos anos 90. Para romântica nenhuma botar defeito.
Drosófila
Lincoln Continentino
Em um cenário de madeira que remete ao Oriente, a Drosófila lançou seu verão atirando para todos os lados. Das assimetrias aos grafismos, das flores aplicadas aos românticos babados. Mas só acertou mesmo na abordagem brechó, que é sua especialidade. O destaque são as estampas inspiradas em calendários chineses antigos, com camafeus que aparecem também na forma de bottons e de fivelas em cintos de correntes. Outro ponto alto é a estampa de colagens, no melhor estilo agenda de adolescente.
Victor Dzenk
Giancarlo Palmesi
As listras em branco/preto e amarelo/preto permeiam todo o verão de Victor Dzenk e surgem em bodies (femininos e masculinos) e vestidos assimétricos. Bonito o trabalho de retalhar a musseline preta, formando flores em fundo vermelho. As saias e vestidos longos em amarelo ficam interessantes com os detalhes manchados de verde. E o vestido assimétrico preto drapeado nas costas é um dos melhores momentos da coleção.
André Brant
Bem resolvido e bem-humorado, o verão 2002 de Jotta Sybbalena transforma ícones do heavy metal em estampas: flags de bandas, como Iron Maiden e Metalica, e pinturas retratando índios americanos cobrem calças e camisetas. O vermelho, fetiche do estilista, surge em companhia do branco em vestidos estilo corselet e em belíssimas botas cano alto repleta de fechos. A chama – sua marca registrada – aparece no tricô azul-claro e na barra de saias e bermudas. Destaque para a estampa da caixa de maisena, que deve virar hit entre os fashionistas.
Calisto
Weber Pádua
Um certo clima bonequinha de luxo invadiu a passarela da Calisto, que apresentou um prêt-à-porter feminino pra lá de romântico. Às listras e rendas que marcam o seu repertório de verão, a grife acrescenta tule franzido, formando volumes nas mangas e cobrindo saias de cetim. Além do luxo dos longos vestidos de musseline e cetim, marcados por babados laterais e decotes ousados nas costas, também merece destaque a saia de tiras jeans em fiapos, em look trash chic.
Printing
Divulgação
O branco total foi o ponto de partida da Printing, que apostou na alfaiataria – ternos sequinhos, saia-lápis e bermudas – temperou com vestidos ora fluidos e assimétricos, ora com saia rodada e cintura marcada por lastex – e incluiu listras azul navy com interferências de amarelo grafitado. Na cartela de cores, verde suave, vermelho, preto e o delicado rosa pele. Estampas de florais diluídos dividiram a cena com bordados de libélulas.
Alphorria
Fernando Louza
Seguindo a inspiração étnica, a Alphorria trouxe para a passarela de Belo Horizonte boas idéias, como a estampa de tartaruga com aplicação de paetês, o cache-coeur zebrado e as franjas usadas como frente-única, manga ou sobressaia. O preto é protagonista e tem seu ponto alto nos macacões com calças amplas e costas nuas. O couro surge em detalhes de tiras sobre as peças e nos cinturões tipo corselet marcando vestidos assimétricos transparentes. Deslize: o tamanco preto, muito grosseiro para a proposta sofisticada da grife.
Rodrigo Fraga
Talento parece ser mesmo dom de família. No caso dos Fraga, a coisa é mesmo certa. Rodrigo (irmão de Ronaldo) resolveu soltar os cachorros na passarela e o resultado foi uma coleção cheia de poesia e criatividade. Apostando nos tecidos 100% naturais e nas formas quadradas, o estilista apresentou casacos dupla face, mangas franzidas e jeans oversize com costuras aparentes. Inovou nos bolsos das calças – arrendondados, com botões, ou franzidos, com abertura central tipo saco – e abusou das estampas caninas, que cobrem toda a peça ou surgem como traços de carvão ou ainda como pinturas que revelam partes ampliadas do bicho (focinho e olhos).
Eduardo Suppes
Eduardo Suppes acha que famosos devem brilhar. É para eles – e demais interessados em holofotes – que o estilista desenhou a coleção ‘‘Famous Forever’’, apostando no efeito ofuscante de pedrarias e paetês de grandes proporções. Nesse clima de glamour absoluto, também há lugar para vestidão de veludo com cauda, listras de efeito zebrado e jeans detonado com aplicação de cristais. O perfume punk surge no cinturão de couro com tachinhas e nos braceletes para elas e eles. Saias assimétricas, leggings e transparências completam a coleção.
Vide Bula
A Vide Bula trouxe a top Mariana Weickert e o bonitão sul-africano Damien Vanzil, com exclusividade, para o seu desfile na temporada mineira. Nem precisava tanto. A grife, que faz um jeanswear reconhecido em todo o Brasil, apresentou uma coleção que, por si só, já merece destaque e deve agradar em cheio ao seu público-alvo, os adolescentes. Para elas, não faltam os vestidinhos floridos, as minis, as batas e as Capris justinhas – rendinhas, lastex e babados incluídos. Nem os jeans surrados e oversize e as camisetas esportivas (de beisebol) que devem fazer a cabeça dos garotos. E como a onda punk ainda está no ar, tachinhas e muito preto também marcam presença. Destaque para a delicada estampa xadrez rosa e verde e para o cinto de patchwork de couro.

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