Portinari, Van Gogh, Picasso, Renoir e Salvador Dalí saem do museu e vão para a pré-escola. A proposta de apresentar às crianças a vida e a obra dos grandes artistas começa a tomar corpo em algumas pré-escolas. Crianças de diferentes idades vibram com o surrealismo de Dalí e a beleza dos campos de girassóis retratados nos quadros de Van Gogh. Elas conhecem também o trabalho de pintores locais, visitam ateliês, museus e exposições. Tudo faz parte de um programa de valorização da arte e renovação do ensino da Educação Artística.
Dulce Dezan, coordenadora de sala do Instituto de Educação Infanto-Juvenil, de Londrina, explica que não é uma proposta expositiva. ‘‘Nossa intenção não é apenas mostrar as obras desses pintores, mas permitir que a criança se envolva com a arte e sinta prazer em descobri-la. Com isso, ela passa a respeitar e a valorizar arte como um todo’’. A escola promoveu também uma exposição dos quadros da artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira. ‘‘Durante 15 dias, as obras ficaram expostas nos corredores. E, para um contato mais direto com a pintura, levamos grupos de crianças para visitar o ateliê da artista plástica’’, acrescenta Dulce Dezan.
As aulas procuram ser uma atividade prazerosa e não impositivaMas a proposta da escola é ainda mais ambiciosa. ‘‘No ano que vem pretendemos levar as crianças à Bienal de São Paulo’’, planeja a professora de Arte, Tânia Nascimento. No Instituto, as aulas de arte não se restringem apenas à pintura. ‘‘No lugar da tradicional sineta, tocamos música clássica para dar início às aulas. Além disso, sempre levamos nossos alunos para assistir aos concertos da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina’’, informa Dulce Dezan.
Excursão Vânia Aparecida Ferreira Sakiyama, coordenadora do Filadélfia Júnior, conta que durante 15 dias, a escola fez um trabalho com crianças de 3 a 6 anos sobre as obras de Monet, Iberê Camargo, Van Gogh, Tarsila Amaral e Alfredo Volpi. ‘‘Nosso objetivo foi despertar nas crianças o gosto pela arte, além de proporcionar a elas diferentes visões do mundo’’, diz Vânia Sakiyama, ressaltando que a escola também toca música clássica enquanto as crianças estão desenvolvendo atividades didáticas. A Escola Alfa é outra que está fazendo um trabalho semelhante. ‘‘Estamos trabalhando com Portinari, Van Gogh, Renoir e Picasso, além dos pintores locais’’, salienta Solange Gomes Fávaro.
A escola está organizando para o dia 4 de dezembro, uma excursão a Brodósqui, (SP), cidade natal de Portinari. ‘‘Queremos que as crianças conheçam de perto onde viveu esse grande pintor brasileiro’’. Solange Gomes lembra que ao falar sobre a pintura de Renoir, os professores tiveram que explicar às crianças o nu artístico presente nas obras do pintor. ‘‘Dependendo da idade, não entramos em determinados detalhes da vida do artista. Para os mais novos, por exemplo, não falamos sobre o suicídio de Van Gogh. Para nós, mais importante é a obra do artista e não sua vida particular’’, observa. A cada semana, a escola convida um pintor local para falar sobre seu trabalho às crianças.
A obra de Van Gogh é uma das preferidas das criançasRenovação Quando o assunto são os pintores clássicos, as crianças têm as respostas na ponta da língua. Raquel Kubiak Gorla, 6 anos, é taxativa. ‘‘Eu jamais confundiria um quadro de Monet com um de Salvador Dal풒. Carlos Frederico Loureiro Bracarense Costa, 6 anos, interrompe: ‘‘Dalí é muito esquisito e loucão. Ele pinta elefantes com pernas bem finas e relógios que parecem bexigas murchas’’. Laís Bastos Martins, 6 anos, tem a explicação. ‘‘É porque ele é surrealista. Salvador Dalí modifica a realidade’’, acrescenta.
Mas Van Gogh parece ser o preferido da garotada. Guilherme Henrique de Oliveira Cestari, 7 anos, dá uma aula sobre o pintor. ‘‘No início da carreira, ele só usava tintas escuras porque queria retratar a miséria em que vivia. Van Gogh era muito pobre e dependia do irmão Theo até para comprar as tintas’’, conta. Mas o conhecimento de Guilherme Cestari sobre o pintor não pára por ai. ‘‘Ele usava o espelho para pintar seu auto-retrato. Um dia, numa crise de desespero ele cortou uma de suas orelhas. Outra característica de Van Goh era pintar a natureza, aquilo que estava a sua volta’’.
Quanto a pergunta é sobre a trágica morte do pintor, Guilherme demonstra segurança e discernimento. ‘‘Ele se suicidou com um tiro na cabeça, porém alguns livros afirmam que foi no peito. Mas Van Gogh não se matou porque era pobre, mas por depressão. Ninguém valorizava a arte dele e ninguém entendia seu amor pela pintura. Durante sua vida, Van Gogh vendeu apenas um quadro. Por isso, a gente precisa valorizar o trabalho de um artista’’, conclui Guilherme Cestari.
Para a artista plástica Neldy Kalau Gonçales, esse trabalho que as pré-escolas estão fazendo é uma renovação. ‘‘É importante as crianças conhecerem as obras dos grandes mestres da pintura e também dos artistas locais. É uma forma de despertar na criança o gosto pela arte e a sensibilidade para entender as diferentes expressões artísticas’’, afirma Neldy Kalau.Dorico da SilvaA garotada se diverte com os livros sobre pintura e esculturaCelso Mattos

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