Vaidade que traz riscos
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quinta-feira, 20 de março de 2008
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Aparentemente inocentes, os modelos infantis de sandálias e tamancos com salto alto reinam absolutos nas vitrines e nos pés das meninas, seduzindo até mesmo as garotinhas pequenas. O capricho de usar sapatos parecidos com os dos adultos, apesar de satisfazer a vaidade, oferece riscos à saúde. Os saltos, além de aumentarem a possibilidade de quedas, também podem causar desvios de postura.
Por isso, a ortopedista pediátrica Adriana Prueter Pazin não recomenda os modelos mais altos para quem ainda está crescendo. ''Além do risco de a criança cair, o salto interfere no eixo da coluna e pode até levar a uma alteração de crescimento'', afirma. Ela relata que as quedas são comuns e causam entorce, fratura do tornozelo e de outras partes do corpo. ''Até quem usa só para sair, se correr com o calçado aumenta o risco de acidentes'', diz.
E mesmo as meninas mais comportadas não estão isentas de prejuízos à saúde. O sapato alto altera o eixo de equilíbrio e causa desvio na postura, levando à alteração do crescimento. ''O centro de equilíbrio é jogado para frente, formando uma postura em forma de S'', explica a médica. As consequências são sentidas no desenvolvimento da menina e também no dia-a-dia. ''É comum atender crianças de 8 ou 9 anos com dores nas costas. O problema é causado pelos calçados, pelas mochilas pesadas e a vida sedentária.''
Plataforma também é perigosa
A empresária Eleni Carvalho Jeremias não gosta que a filha Gabriela, de 6 anos, use sapatos com salto. Graças à cumplicidade de uma tia, entretanto, a garota coleciona modelos mais altos no guarda-roupa. ''Eu prefiro não comprar, mas ela pede à minha irmã e acaba ganhando'', diz, acrescentando que só libera os modelos de plataforma e apenas para passear. ''Na escola e nos cursos, a Gabriela vai de tênis, sandália baixa ou rasteirinha'', afirma.
A preocupação da mãe não garante que a coluna da menina vá ser preservada. De acordo com a ortopedista, as plataformas parecem dar firmeza, mas, por serem mais duras, impedem o ''jogo'' dos pés durante o andar, comprometendo ainda mais a postura.
Na contramão dos apelos da mídia, as irmãs Emanuelle, 4 anos, e Stephanie, 5, nunca tiveram sapatos de salto. Por medo de acidentes, a mãe delas, Cristiane Garcia Grande, vetou os modelos altos e procura sempre as opções mais confortáveis, como sapatilhas, tênis e sandálias baixas. ''Dou preferência a marcas que ofereçam solado de borracha e sejam antiderrapantes'', conta.
Para driblar as meninas, ela faz as compras sempre sozinha. ''Chego em casa com os calçados de presente e elas aceitam. É bem tranquilo'', diz Cristiane, que encontra um pouco de dificuldade para comprar calçados de festa sem salto. ''Também é difícil achar modelos ortopédicos em cores femininas'', reclama.
Vontade prevalece
Emanuelle e Stephanie são excessões entre o público feminino mirim que frequenta as lojas infantis. Gerente da Pedicelo, Andressa Fernandes afirma que as crianças gostam do que vêem na propaganda da TV. ''Normalmente são sapatos de salto'', revela, acrescentando que, se as mães avisam que não querem os modelos altos, as vendedoras não mostram. O comum, entretanto, é prevalecer a vontade da criança. ''Acontece de a mãe não levar o calçado e depois voltar para comprar porque a filha ficou doente.''
De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias do Calçado e Vestuário de Birigui (pólo produtor de calçados infantis), Wagner Aécio Poli, as indústrias seguem a recomendação do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (Ibtec) no que diz respeito à produção de calçados infantis com salto. A dica da entidade é que as mães estejam atentas à idade da criança e que observem se os sapatos têm selo de conforto aprovado pelo IBTEC. Segundo ele, os calçados que têm este selo passam por testes de materiais e ensaios físico-mecânicos e são adequados às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).


