Uso esporádico é tolerável
Se, de um lado, empresas idôneas lançam produtos exclusivos para as pequerruchas hipoalergênicos e com menos corantes, ao contrário das maquiagens para as bonecas dos anos 80, que muitas vezes acabavam no rosto da criança por outro, o crescimento desse mercado estimula o uso quase diário de batons, esmaltes e outros que tais. Segundo os médicos, é na freqüência que fica o limite. E os riscos vão atingir a parte mais sensível das gatinhas de 4, 5, 6 anos: a vaidade. Eles explicam que quanto mais cedo as meninas são expostas a produtos químicos, mesmo hipoalergênicos, maiores são as chances de se desenvolverem alergias e dermatites de contato, que se manifestam geralmente no rosto. E aí não há mais volta. Uma vez sensibilizado, o organismo jamais voltará a tolerar a substância e as futuras mocinhas terão de dar adeus à maquiagem para a vida toda.
O que me assusta é a oferta absurda desses produtos infantis. Muitas mães compram estojos de maquiagem que, na realidade, são destinados a bonecas. A bonecas, não a crianças! Aquilo não é cosmético; é tinta! Com uma carga de componentes químicos intolerável para a pele. Mas essa informação vem escrita na embalagem em letras minúsculas. E em relação aos produtos específicos para crianças, acho que há um abuso na freqüência com que são usados, diz Angela, que já orientou a filha a recusar esse tipo de brinquedo das amigas. Quando oferecem maquiagem para ela, Joana diz que é alérgica e que não pode usar. Faz isso direitinho.
PrecoceSegundo o alergologista Carlos Loja, o que está ocorrendo no Brasil hoje é o uso abusivo de cosméticos de todo o tipo em crianças. Algumas décadas atrás, as meninas começavam a usar maquiagem depois dos 15, 16 anos. Antes disso era impensável. Hoje, as mães acham bonitinho que uma criança de 2, 3 anos use batom ou esmalte. E o fato de a filha ser um pouco mais velha e não ter apresentado reação não quer dizer que está imune às alergias. É só uma questão de tempo.
Por que e quando as pessoas perdem a tolerância ainda é uma incógnita. A conseqüência, segundo o médico, é que mais pessoas vão se sensibilizar com mais freqüência e mais cedo. Como exemplo, ele compara a incidência de dermatites de contato em homens e mulheres. As mulheres sofrem mais de dermatite de contato do que os homens. No caso deles, as alergias só ocorrem quando manipulam substâncias irritantes no trabalho.
Carlos Loja, porém, não vê problemas em se usar um batonzinho na apresentação de balé no fim do ano ou para ser dama de honra em um casamento. O uso esporádico pode ser tolerado. Mas mesmo assim o ideal é usar produtos hipoalergênicos de marcas reconhecidas no mercado. O que não quer dizer que esses produtos estejam completamente livres de causar alergias. Esses produtos têm menor quantidade de corantes, fragrâncias e outros compostos que costumam provocar reações alérgicas. Mas nada garante que um de seus elementos não possa causar alergia num indivíduo mais sensível.
Por conta disso, a dona de casa Divâni Laundos, mãe de Catarina, de 6 anos, mantém os cosméticos das Superpoderosas e da Sandy em locais estratégicos. Minha filha caçula tem dermatite tópica, por isso, controlo para que a Catarina não desenvolva uma dermatite de contato.
O dermatologista Pedro Freitas Ribeiro, que identificou a alergia de Joana Tostes, explica as diferenças entre as duas doenças: Os sintomas são semelhantes: coceira, eczemas, vermelhidão, inchaço. Mas a dermatite tópica aparece na criança muito cedo, ainda bebê. A de contato se desenvolve por intolerância a um determinado produto em qualquer fase da vida.
EsmalteE entre os produtos que mais causam alergia está o esmalte, diz o médico. Isso porque ele contém bálsamo do Peru, uma das 51 substâncias que mais provocam alergias, segundo um protocolo internacional de diagnóstico de dermatite de contato. O problema é que as coceiras e os eczemas se manifestam no rosto e principalmente em torno do olho, o que deixa os pais perdidos.
A primeira atitude das mães é observar se a filha passou sombra ou algum outro produto no rosto. Elas não associam a alergia ao esmalte. O que ocorre é que a unha, por ser menos sensível, não apresenta reação imunoalérgica às substâncias. Mas quando a menina passa a mão no rosto, o antígeno, ou seja, a substância irritante é apresentada ao organismo que rapidamente responde a ele com uma reação. Se ela mantiver o uso do esmalte vai continuar coçando o rosto com o agente desencadeador, gerando um ciclo de causas e efeito, explica Ribeiro, especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria, mestre pela UFRJ e professor da Estácio de Sá. A partir daí, essa informação fica no organismo nas chamadas células de memória. Todas as vezes em que for apresentado ao antígeno, o corpo vai responder. Por isso, é tão importante retardar as primeiras exposições. (T.C./O Globo)





