No relacionamento entre mãe e filha, é possível perceber nitidamente que a época é de transformação. As mães já não são as mesmas e as filhas também não. A revolução sexual, o ingresso no mercado de trabalho, os avanços na área de estética e a independência financeira são fatores que tornaram as mães de 35, 40 e tantos anos mais jovens, comparativamente às mães de duas gerações atrás. Nesta idade, as mulheres que trabalham fora estão no auge da vida profissional, e o ingresso no mercado de trabalho fez com que elas se preocupassem mais com a aparência física.
As garotas hoje, em alguns aspectos, têm mais informações que as suas mães. Há uma liberdade de se falar sobre os grilos e as delícias das paqueras, do ficar e dos desejos. Elas dividem emoções e sentimentos de uma maneira mais tranquila. O guarda-roupa também pode até ser dividido, pois a moda hoje é mais democrática e as mães exibem exuberância e jovialidade. Elas até frequentam as mesmas lojas, restaurantes, festas e clubes. Outro ponto a ressaltar é que os pais hoje demonstram mais a afetividade entre eles. E como reflexo, a filha namora em casa sem constrangimentos.
Mas, inegavelmente, a mídia tem uma influência decisiva nesta geração, propagando comportamentos e modos de vida e criando um nível de normalidade, até então inimaginável. Esses são alguns fatores citados pela psicólaga Devanira Domingues, que fizeram com que diminuíssem as diferenças entre mãe e filha. Para ela, atualmente, os canais entre elas estão muito mais abertos.
Na opinião da especialista, entre os vários aspectos do comportamento humano, a relação entre mãe e filha é uma das mais apaixonantes. Certamente, esse modelo de relação irá influenciar a relação com as outras pessoas. ‘‘Existem poucos segredos entre elas hoje. Mãe e filha compartilham seus problemas e vivências. Mas isso não tirou da mãe a grande tarefa de educar’’, argumenta Devanira. A vida das duas está muito parecida, com um nível de aproximação maior, apenas as responsabilidades é que são diferentes.
A identificação com a figura materna é primordial. Tanto que as filhas estão mais compreensivas, por exemplo, com a ausência da figura da mãe, em função do trabalho fora de casa. Elas sabem que esta luta da mãe vai reverter em benefícios para elas.
‘‘A mãe deve ter consciência que a filha está caminhando para ser mulher - que ela está enfrentando mudanças físicas, psicológicas e sentimentais. É importante que a mãe dê espaço para que a filha seja adolescente, sem cobrar algo maior dela. Com isso, a mãe também vai ter mais espaço também’’, explica Devanira. Ela acrescenta que a relação entre as ‘‘novas’’ filhas e as ‘‘novas’’ mães fluirá caso a mãe não queira que sua filha torne-se adulta antes do tempo, respeitando esta fase, que é passageira. ‘‘Os filhos nem sempre vão trilhar o mesmo caminho dos pais, mas é preciso caminhar ao lado, sem criar obstáculos’’.
Essa transformação típica dos anos 90, em que a mãe exibe exuberância e divide o mesmo espaço com a filha, demonstra que não é só o tempo que ensina, os pontos de vista diferentes também. E nisso, as filhas contribuem com modos de pensar até inesperados. ‘‘A aparência jovem veio trazer uma relação mais harmônica e mais transparente’’, sentencia a especialista.

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