Uma relação quase perfeita
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de janeiro de 1997
Francelino França 
No relacionamento entre mãe e filha, é possível perceber nitidamente que a época é de transformação. As mães já não são as mesmas e as filhas também não. A revolução sexual, o ingresso no mercado de trabalho, os avanços na área de estética e a independência financeira são fatores que tornaram as mães de 35, 40 e tantos anos mais jovens, comparativamente às mães de duas gerações atrás. Nesta idade, as mulheres que trabalham fora estão no auge da vida profissional, e o ingresso no mercado de trabalho fez com que elas se preocupassem mais com a aparência física.
As garotas hoje, em alguns aspectos, têm mais informações que as suas mães. Há uma liberdade de se falar sobre os grilos e as delícias das paqueras, do ficar e dos desejos. Elas dividem emoções e sentimentos de uma maneira mais tranquila. O guarda-roupa também pode até ser dividido, pois a moda hoje é mais democrática e as mães exibem exuberância e jovialidade. Elas até frequentam as mesmas lojas, restaurantes, festas e clubes. Outro ponto a ressaltar é que os pais hoje demonstram mais a afetividade entre eles. E como reflexo, a filha namora em casa sem constrangimentos.
Mas, inegavelmente, a mídia tem uma influência decisiva nesta geração, propagando comportamentos e modos de vida e criando um nível de normalidade, até então inimaginável. Esses são alguns fatores citados pela psicólaga Devanira Domingues, que fizeram com que diminuíssem as diferenças entre mãe e filha. Para ela, atualmente, os canais entre elas estão muito mais abertos.
Na opinião da especialista, entre os vários aspectos do comportamento humano, a relação entre mãe e filha é uma das mais apaixonantes. Certamente, esse modelo de relação irá influenciar a relação com as outras pessoas. Existem poucos segredos entre elas hoje. Mãe e filha compartilham seus problemas e vivências. Mas isso não tirou da mãe a grande tarefa de educar, argumenta Devanira. A vida das duas está muito parecida, com um nível de aproximação maior, apenas as responsabilidades é que são diferentes.
A identificação com a figura materna é primordial. Tanto que as filhas estão mais compreensivas, por exemplo, com a ausência da figura da mãe, em função do trabalho fora de casa. Elas sabem que esta luta da mãe vai reverter em benefícios para elas.
A mãe deve ter consciência que a filha está caminhando para ser mulher - que ela está enfrentando mudanças físicas, psicológicas e sentimentais. É importante que a mãe dê espaço para que a filha seja adolescente, sem cobrar algo maior dela. Com isso, a mãe também vai ter mais espaço também, explica Devanira. Ela acrescenta que a relação entre as novas filhas e as novas mães fluirá caso a mãe não queira que sua filha torne-se adulta antes do tempo, respeitando esta fase, que é passageira. Os filhos nem sempre vão trilhar o mesmo caminho dos pais, mas é preciso caminhar ao lado, sem criar obstáculos.
Essa transformação típica dos anos 90, em que a mãe exibe exuberância e divide o mesmo espaço com a filha, demonstra que não é só o tempo que ensina, os pontos de vista diferentes também. E nisso, as filhas contribuem com modos de pensar até inesperados. A aparência jovem veio trazer uma relação mais harmônica e mais transparente, sentencia a especialista.


