Uma relação delicada
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de abril de 2002
Rosângela Vale 
Driblar o ciúme da superproteção dos pais e aprender a reorganizar os valores da vida são alguns desafios de quem tem um irmão portador de deficiência mental
A convivência entre irmãos é a primeira e mais intensa experiência de relacionamento entre iguais. Irmãos compartilham segredos, ajudam-se mutuamente, servem de exemplo para o outro e, é claro, brigam e se desentendem bastante. Se tiverem uma sólida base emocional transmitida pelos pais, também aprendem a resolver as diferenças, num saudável exercício de socialização. Mas, e quando um dos irmãos não tem condições de corresponder aos padrões exigidos para essa relação entre iguais?
Sentimentos de pena, raiva, não aceitação, preocupação, vergonha, solidão e revolta são comuns na família que tem um portador de deficiência mental. Aceitar um irmão deficiente é vencer a si mesmo, escreve Sandra Soares na monografia apresentada para a pós-graduação em Educação Especial Deficiência Mental, defendida na UEL em 1998. Motivada pela experiência pessoal a relação entre os filhos Leonardo, 20 anos, e Frederico, 17 anos, que tem paralisia cerebral severa, Sandra, que é formada em Relações Públicas, entrevistou em Londrina 18 irmãos normais sobre o fato de terem irmãos especiais. O objetivo era identificar as características e dificuldades nesse tipo de relacionamento.
De acordo com a pesquisa, o período da infância costuma ser o mais difícil. Depois, começam a se estabelecer ligações afetivas, a ponto de o irmão se sentir responsável pelo outro. Questionados se preferiam ter um irmão normal, boa parte dos entrevistados respondeu que sim. Mas poucos classificaram a relação de difícil, definindo-a, em alguns casos, como um exercício de sabedoria, paciência e prazer. A maioria revelou encontrar dificuldades na convivência social pela falta de assistência e pela discriminação, mas considera a própria família um bom exemplo de como tratar um filho especial.
Um consenso entre os estudiosos do assunto é de que está na atitude dos pais a chave para a boa convivência entre irmãos normais e especiais. Sandra observa ainda que os problemas costumam ser proporcionais à gravidade do quadro clínico e à situação sociocultural da família. Mas, na grande maioria dos casos, o ciúme da superproteção que o irmão recebe dos outros e, principalmente, da dedicação e atenção dos pais, está sempre presente. Saiba como eles lidam com a situação nos depoimentos desta página.
Mário César


