Se o relacionamento entre homem e mulher já é suficientemente complicado mantendo-se a devida distância nos horários comerciais – cada um no seu ‘‘habitat’’ profissional – imagine como fica a situação quando o casal divide o mesmo ambiente de trabalho. Pois não são raros os casos em que os pombinhos fazem ninho ali mesmo, entre um clic e outro no mouse. Mesmo porque o cupido costuma agir com bastante competência nestes lugares.
Foi assim com João Alberto Gonçalves, 39 anos, e Suzete Prado, a Suzi, 32 anos, ambos funcionários da Embrapa Soja. Quando ela entrou na empresa para assumir seu cargo na área de Comunicação Empresarial, o primeiro contato foi com ele, que trabalha no setor de Recursos Humanos. Na época, Suzi estava namorando, o que não foi empecilho para as investidas de João. ‘‘Ele me assediou durante dois anos’’, conta. ‘‘Ela tinha medo, não me achava confiável por eu ser mais velho e solteiro’’, lembra ele.
Mas nada como encontros frequentes, proporcionados pelo espaço físico em comum e por eventos sociais promovidos pela empresa, para reverter a situação. ‘‘Nas festas, eu não levava o namorado, aí a gente dançava e conversava bastante, já que no trabalho não havia oportunidade de falar sobre coisas pessoais’’, revela Suzi. Os demais papos se limitavam ao refeitório e ao ônibus que os transportava para a Embrapa. ‘‘Como eu entrava primeiro, sempre guardava lugar para ela do meu lado’’, recorda João.
Tanto ‘‘grude’’ chamou a atenção dos colegas e levantou suspeitas que, finalmente, foram confirmadas em uma festa junina da empresa. Depois de um mês de namoro ‘‘na surdina’’, resolveram assumir o relacionamento que já dura 11 anos, oito deles dividindo o mesmo teto. Para eles, compartilhar o ambiente de trabalho traz algumas vantagens. ‘‘Costumo viajar bastante e o fato de ele saber que minha atividade exige isso é positivo. Se ele não trabalhasse na mesma empresa, talvez não seria tão compreensível’’, observa Suzi. ‘‘O que tem de bom é a proximidade, a possibilidade de saber tudo o que acontece com ela’’, salienta João.
Segundo ele, para a empresa também é vantajoso ter casais no seu quadro de funcionários, pois ela acaba ficando muito mais presente na vida deles. Tanto que, às vezes, mesmo quando combinado o contrário, é impossível não levar os assuntos de trabalho para casa. Eles garantem que a harmonia do relacionamento só não resistiria se trabalhassem no mesmo setor. ‘‘No nosso caso, não daria certo. Já vivi a experiência uma vez e não gostei. Como a gente tem intimidade para falar tudo para o outro, isso poderia gerar confusão. Eu não saberia diferenciar o marido do profissional’’, argumenta Suzi. ‘‘O convívio pessoal acaba interferindo’’, concorda João.
Mas nem sempre é assim. ‘‘O segredo para um casal que trabalha junto dar certo é apenas um ter o poder de decisão. O problema acontece quando os dois passam a medir forças’’, ensina Ivone Álvares Pacanhan, 29 anos, sócia do marido Mário Nei Pacanhan, 36, na representação da Docol em Londrina. Casados há 9 anos, eles descobriram a fina sintonia no trabalho fora do Brasil.
Na época, ele era funcionário de um grupo com negócios nas áreas de Construção Civil e Confecção que estava começando a atuar no Mercosul. Foi então transferido para Buenos Aires como diretor administrativo da firma. Ivone trancou a faculdade de Economia e largou o trabalho em Londrina para acompanhar o marido. Lá, acabou conseguindo uma vaga de assistente financeira na empresa e começaram, então, a descobrir que tinham mais afinidades do que imaginavam. ‘‘A pressão de adaptação em outro país é muito grande. E nessa hora, a pessoa que você mais quer do seu lado é a que você ama. Só permanecemos dois anos lá porque estávamos juntos’’, diz Mário.
Em seguida, Ivone engravidou e quis ter o filho no Brasil. Pouco tempo depois, Mário também estava de volta. E começaria uma nova fase profissional. ‘‘Já tínhamos um escritório comprado quando retornamos a Londrina. Surgiu uma oportunidade de representar a Docol e reposicioná-la no mercado. ‘‘Aceitei o desafio, mas era imprescindível que a Ivone estivesse comigo. Hoje, ela cuida da parte financeira, tem muita habilidade para lidar com a área’’, elogia ele. ‘‘Sempre deu certo porque é ele quem tem o papel de direcionar, dirigir’’, revela ela. O resultado de tanta cumplicidade são dois prêmios pela performance de vendas conquistados em cinco anos de trabalho.
De acordo com Mário, ambos sempre tiveram total liberdade para empreender outras atividades profissionais. ‘‘Mas toda vez que testamos esse tipo de situação, entendemos que conseguimos capitalizar melhor quando estamos juntos’’, constata, ressaltando a importância de preservar os hábitos e gostos de cada um para manter a individualidade e a saúde da relação.
É claro que, como qualquer casal e qualquer sociedade, existem atritos. A dica é dar um tempo. ‘‘Quando o clima está intempestivo, não adianta discutir’’, ensina ele. O respeito às regras para manter um relacionamento sadio – apesar do trabalho em comum (leia box) – termina aí. Para eles, deixar de conversar sobre a empresa no sagrado recinto do lar é missão impossível. Mesmo porque, seria improdutivo. ‘‘Temos as melhores idéias sempre em casa’’.

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