Quem já foi estudante universitário conhece muito bem a sensação de abandono que surge às vésperas da formatura. Com exceção dos que vão buscar o canudo já devidamente empregados, a pergunta mais frequente dos que se vêem prestes a encarar o mercado é ‘‘por onde começar?’’ A boa notícia é que pelo menos os formandos de moda já têm a resposta: uma passarela – montada em plena Avenida Paulista – e uma platéia repleta de empresários do setor e imprensa especializada.
A iniciativa é da Natura e tem tudo para se tornar um marco na história da moda brasileira. Com o objetivo de aglutinar escolas e mercado, provocando a troca de experiências entre profissionais e estudantes e a divulgação de talentos, o projeto aponta um caminho para a contínua evolução do setor, já que ‘‘criatividade e tecnologia serão a combinação do próximo milênio’’, anunciou Rubens Aprobato Machado Jr, presidente da Fibra DuPont, co-patrocinadora do projeto ao lado do Citibank e da Fundação Takano. O projeto contou ainda com o apoio da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).
Coordenado pela ex-modelo Betty Prado (que já esteve à frente do extinto Phytoervas Fashion), o naturaformandomoda teve sua primeira edição nos dias 14 e 15 deste mês, no MASP, em São Paulo, reunindo 13 faculdades de todo o País e cerca de 150 alunos. A idéia era mostrar os trabalhos de conclusão de curso dos formandos em dois tipos de apresentação, dependendo do número de looks determinados pelas próprias escolas em questão.
As faculdades que para o trabalho de graduação exigem apenas um look de cada aluno foram para a categoria Exposição. Foi o caso da Universidade Estácio de Sá (RJ), Universidade Paulista (SP), Universidade Tuiuti do Paraná, Universidade Cândido Mendes (RJ), Universidade Federal do Ceará, Senac/Esmod (SP) e Centro Universitário de Rio Preto (São José do Rio Preto). Já as escolas que estabelecem no mínimo três looks para a tese de conclusão do curso participaram da categoria Desfile: Universidade Caxias do Sul (RS), Universidade Estadual de Londrina, Universidade Salgado de Oliveira (RJ) e Universidade Estadual de Santa Catarina (SC). A Universidade Anhembi Morumbi e as Faculdades Santa Marcelina marcaram presença nas duas categorias.
Nas diversas instalações espalhadas pelo vão livre do MASP, cujas cores e formas revelavam a cultura e as inspirações de diferentes regiões brasileiras, o mais expressivo conjunto de trabalhos foi mostrado pelo Senac/Esmod. O maior destaque, porém, ficou por conta das Faculdades Santa Marcelina: tanto pela exposição – onde foram exibidas jóias, fotografias e sapatos – como pelo desfile, que reuniu criações de 16 alunos, a escola foi a responsável pelos melhores momentos do evento, mostrando um verdadeiro exercício de técnica e criatividade em grande parte dos trabalhos. Na passarela, muitas vezes, ficaram explícitas referências a alguns estilistas (brasileiros, ainda bem) como Alexandre Herchcovitch, mas o resultado geral foi mais que positivo: uma moda que aguça o olhar e atiça a imaginação.
Os desfiles das demais faculdades foram quase sempre ‘‘mornos’’ demais. Faltou, de forma geral, trabalhos de maior consistência em termos de pesquisa e criatividade. Em vários momentos, o que se viu foram roupas demasiadamente convencionais, quando o que se esperava de um evento desse tipo eram criações desvinculadas de preocupações mercadológicas. O estabelecimento de um tema único, proposto pela organização do naturaformandomoda para todas as faculdades participantes – sugestão para as próximas edições – talvez possa contribuir para solucionar o problema.
Com a proposta de atender os excluídos da moda, segmentos da população desprezados pelos padrões estéticos impostos pela mídia e pelo mercado, o curso de Estilismo em Moda da Universidade Estadual de Londrina arrancou aplausos da platéia ao colocar na passarela deficientes físicos, gordinhas, gestantes, senhoras e negros. Grande parte das propostas, entretanto, carecia de apelo estético suficientemente forte para estar ali. Destaque para o sportswear politicamente correto de Emanuelle Tonani, direcionado aos deficientes visuais – com volumes localizados, texturas e nervuras que valorizam a percepção, tendo como referência as linhas de trem, em looks coloridos e contemporâneos.
Também dentro do estilo sportswear, merece atenção a coleção de Reginaldo Antônio da Silva, que apresentou peças para amputados de pernas ou braços, usuários de prótese, conciliando estilo e funcionalidade. E de Roberta Assan, que criou roupas para usuários de metrô, evidenciando o conforto e a ergonomia com referências dos anos 70 e 80, coleção que já havia sido apresentada este ano no desfile da Novíssima Geração da Fenit. Bons exemplos da primeira ‘‘safra’’ de profissionais formados pela UEL.
* A jornalista Rosângela Vale viajou a São Paulo a convite do naturaformandomoda.

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