Uma mancha na auto-estima
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quinta-feira, 02 de maio de 2002
Rosângela Vale 
Ao voltar da praia ano passado, a empresária Maria Sueli começou a notar algumas manchas nas mãos, face e joelhos de seu filho, hoje com 11 anos. Essas regiões, ao contrário do resto do corpo, não bronzeavam. No mesmo dia em que chegou a Londrina, ela foi procurar um dermatologista, que imediatamente lhe deu o diagnóstico: vitiligo. Tratamento iniciado, a empresária começou a procurar informações sobre a doença. Em vão. Parece que o preconceito é tão grande, que as pessoas têm medo de falar, observa.
A única fonte foi a Internet, onde descobriu uma associação dos portadores de vitiligo, além de contatos médicos. Mas algumas dúvidas sobre o tratamento mais adequado ao filho ainda persistem, assim como a constante preocupação com a reação dos outros. Sei que esse medo do preconceito é mais meu do que dele, que ainda é uma criança, diz Maria Sueli, que procura evitar falar sobre o problema com o marido na frente do filho.
Ele segue o tratamento sem que haja necessidade de cobrar. Só cuidamos para que ele não fique estressado demais, porque nesses momentos as manchas se tornam mais evidentes, conta ela. Dia desses, após uma queimadura que tornou a mancha vem visível, Maria Sueli notou que o garoto preferiu usar uma camisa de mangas compridas para ir ao shopping.
De acordo com o médico dermatologista Airton Gon, o maior problema do vitiligo é exatamente o preconceito, a sensação de repulsa dos outros, que não deveria existir, já que a doença não é transmissível nem contagiosa. Também não compromete o estado de saúde da pessoa, mas pode causar grandes danos psicológicos que levam até à insociabilidade. A vergonha pelas manchas brancas faz com que os pacientes, em muitos casos, se escondam e se autodiscriminem. Isso pode acabar causando um quadro depressivo, afirma Airton.
Stress O dermatologista explica que as manchas do vitiligo aparecem espontaneamente e são causadas por perda de pigmentação. A doença, segundo ele, é considerada comum: atinge de 1% a 2% da população mundial. Não existe uma causa definitiva. Existem teorias. A mais aceita é a de que o próprio organismo criaria anticorpos contra o melanócito, a célula que produz o pigmento da pele. Ele informa que há uma predisposição hereditária à doença, mas isso não é determinante.
Alguns fatores costumam agir como desencadeantes do vitiligo, como se fossem gatilhos para a doença: queimaduras, ferimentos e cicatrizes de cirurgias. Outro fator é o stress. Não é regra geral, mas em alguns casos o emocional pode contribuir para o aparecimento do problema, diz o médico.
O vitiligo atinge mais frequentemente pessoas de 20 a 40 anos, mas pode surgir em qualquer idade. É classificado de acordo com a distribuição no corpo: localizado (poucas lesões), segmentar (só de um lado do corpo) e generalizado, sendo mais comum na forma simétrica (dos dois lados do corpo), principalmente nas mãos, pés e face. Cabelos e pêlos também ficam brancos nas regiões atingidas pela doença.
Existem vários tratamentos, mas o dermatologista ressalta que cada caso deve ser tratado de forma única. Alguns são curados com facilidade; outros são bem difíceis de resolver, informa. As chances de cura dependem, em grande parte, de a doença ser tratada no início. Não há como prever como o vitiligo vai evoluir, mas os tratamentos são sempre longos. É preciso de, no mínimo, seis meses para saber se a medicação está fazendo efeito. A persistência é fundamental para ter resultados, avisa.
Maquiagem Entre os tratamentos mais utilizados está um grupo de medicamentos chamado psoralenos, que estimulam a pigmentação. A pessoa tem que usar e depois tomar sol. Ou então utilizar o método PUVA Psoraleno mais Ultravioleta A, com exposição monitorada por médicos. Também há a melagenina, extrato de placenta humana descoberta por um ginecologista cubano. Funciona em alguns casos, mas não há nenhum estudo científico que comprove sua eficácia, esclarece o médico. É importante frisar que, quando há um fator emocional desencadeando o problema, é fundamental a associação de psicoterapia ao tratamento.
Em casos de o vitiligo ser muito extenso, o que é raro, o dermatologista informa que é mais fácil fazer o tratamento para clarear o resto da pele do que tentar voltar ao tom normal. Exatamente o que teria acontecido com o cantor Michael Jackson. Existe ainda a possibilidade de as manchas desparecerem espontaneamente.
Quando o vitiligo é estável, ou seja, as manchas não evoluem, é possível fazer enxerto de melanócitos. Outra alternativa é a maquiagem, recurso utilizado, segundo Airton, pela modelo Luiza Brunet, que convive com a doença desde criança. Uma vez superado o trauma estético, é uma forma de contornar o problema sem expectativas nem ansiedade em relação aos tratamentos. Por que ficar tão preocupado em reverter um processo difícil quando não há comprometimento da saúde?, questiona o dermatologista.


