Desenvolvido inicialmente com a finalidade de estimular o coração nos casos de batimentos cardíacos lentos, o marcapasso acabou incorporando toda a evolução da eletrônica e hoje agrega também outras funções, além de ter diminuído sensivelmente de tamanho nas últimas décadas. Os atuais modelos em nada lembram o primeiro aparelho implantado do qual se tem notícia. Foi em 1958, na Suécia, em um procedimento realizado pelo engenheiro Rune Elmquist e pelo cirurgião Ake Senning.
No Brasil, os primeiros marcapassos foram produzidos e implantados no início dos anos 60, pelo pioneiro da estimulação cardíaca no País – e um dos grandes expoentes mundiais na área – o médico Décio Kormann, do Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo. Desde então, novas tecnologias vêm contribuindo constantemente para o bem-estar dos que sofrem de problemas cardíacos.
O marcapasso é indicado para pessoas com deficiência no número de batimentos cardíacos ou na condução da eletricidade para o músculo do coração. ‘‘Lá, existe uma região responsável pela geração de eletricidade que determina quantas vezes o coração bate por minuto. Existem também fios condutores que levam eletricidade para que o músculo do coração possa se contrair (bater). Então, se há uma diminuição de estímulos ou uma doença nos fios condutores de eletricidade, ocorrem batimentos cardíacos lentos ou até mesmo parada cardíaca. Através de pequenos choques, o marcapasso vai ativar o coração reguladamente’’, explica o médico cardiologista Cláudio Fuganti, especialista em marcapasso e professor da Universidade Estadual de Londrina.
Vários fatores comprometem o sistema elétrico do coração, levando à necessidade do marcapasso: envelhecimento, cicatrizes causadas no coração por infartos antigos, doenças no músculo cardíaco, complicações de cirurgias cardíacas, cardiopatias congênitas e, em especial no Brasil (e na América Latina), a doença de Chagas, uma das principais causadoras de bloqueios no coração. Os principais sintomas do problema são desmaios, tonturas, falta de ar e inchaço nas pernas. ‘‘Muitas vezes, o paciente tem um desmaio em casa e quando chega ao hospital o coração voltou a bater normalmente, dificultando o diagnóstico. Nestes casos, uma criteriosa avaliação de um cardiologista consegue, em geral, identificar o problema’’, diz Fuganti.
Evolução Segundo o cardiologista, atualmente, a cirurgia para a colocação do marcapasso é realizada com anestesia local e tem cerca de uma hora de duração. ‘‘É feito um pequeno corte logo abaixo da clavícula, isola-se uma veia e através dela são levados de um a dois eletrodos (fios) para dentro do coração. O marcapasso, que vai funcionar como um gerador de estímulo elétrico transmitindo o choque através dos fios, é colocado embaixo da pele, em cima do músculo, perto da clavícula’’, esclarece ele, garantindo que a melhora de sintomas é imediata. O paciente fica internado de dois a três dias. Depois, deve retornar ao especialista em marcapasso e ao cardiologista pelo menos duas vezes ao ano, para regulagem periódica do aparelho e checagem da duração da carga da bateria.
Revestido de titânio – que praticamente não tem rejeição do organismo – e composto por um microship e uma bateria, o marcapasso nada mais é do que um computador. Além da redução de tamanho – os modelos mais modernos têm cinco centímetros, pesam de 50 a 60 gramas e duram de sete a oito anos – outros progressos marcaram a evolução do aparelho. ‘‘Hoje, todas a funções do marcapasso são reguladas externamente, através de telemetria, sem necessidade de cirurgia. Os atuais aparelhos também já permitem o aumento do número de batimentos cardíacos conforme a atividade física do paciente’’, revela o cardiologista.
Nessa linha de evolução, os marcapassos agregaram outras funções, como a de cardioversores desfibriladores para tratar disparos no coração, dando choques internos salvadores em caso de parada cardíaca. ‘‘São indicados para pacientes com dilatação no coração, infartos antigos e ressuscitados de parada cardíaca’’, informa o médico. Segundo ele, nos últimos dois anos, outro tipo especial de marcapasso vem sendo utilizado. São os ressincronizadores ventriculares, para pacientes com insuficiência cardíaca já na fila de espera do transplante. ‘‘É uma alternativa ao transplante ou uma ponte enquanto se espera por ele. Por se tratar de uma tecnologia recente, ainda não sabemos se o paciente vai viver mais, mas com certeza, vai viver melhor’’, garante.
Estatísticas Fuganti observa que existem muitos mitos e folclores sobre o que um portador de marcapasso pode ou não fazer. Na verdade, os cuidados que se deve ter são com a interferência eletromagnética. ‘‘Pode-se usar o celular, mas não é aconselhável deixar o aparelho no bolso, ou seja, próximo do marcapasso. Também não se deve ficar próximo ao forno microondas em funcionamento’’, esclarece o médico. Deve-se evitar ainda portas eletrônicas em bancos, exames de ressonância magnética e aparelhos de fisioterapia que dão choque e calor na região do marcapasso. No caso de mecânicos, fica proibido o trabalho com motores de injeção eletrônica.
Apesar de o SUS e um número razoável de convênios cobrirem a colocação do marcapasso, as estatísticas revelam: muitos brasileiros estão morrendo por não terem acesso ao aparelho, seja por questões econômicas ou porque o problema não foi identificado a tempo. Basta comparar os números. Nos Estados Unidos são colocados, por ano, de 600 a 700 marcapassos por um milhão de habitantes. Na Argentina, 250 por milhão de habitantes, no Brasil, esse número cai para 70, o que representa apenas 11 a 12 mil implantes por ano.
Essa e outras questões relacionadas ao tema serão discutidas durante o 29º Congresso Paranaense de Cardiologia, que será realizado em Londrina na próxima semana. O evento, presidido por Cláudio Fuganti, vai contar com a presença, entre outros especialistas, de uma das maiores autoridades do País na área de marcapasso e desfibriladores, o médico José Carlos Pachon Mateus, do Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo. Confira programação neste página.

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