Uma doença e muitos preconceitos
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quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Cerca de 1 milhão de brasileiros têm epilepsia, mas estima-se que 40% deles não recebem o tratamento adequado por conta do preconceito e pela falta de informação das pessoas, além do despreparo do sistema de saúde. Devido a todos esses fatores, é difícil conhecer alguém que sofre da doença, geralmente escondida da sociedade. Na idade média, ela era atribuída a maus espíritos.
Nomes como Agatha Christie, Dostoievski, Edgar Alan Poe e Charles Dickens e Ian Curtis, vocalista da banda inglesa Joy Division, têm muito mais do que o talento como ponto em comum. Todos sofreram com a epilepsia e, com algumas exceções, tentaram manter o problema escondido do público. Tarefa difícil para o cantor Ian, que chegou a ter crises epilépticas no palco.
Já o russo Dostoievski, autor de clássicos como Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo, chegou a declarar, pouco antes de sua morte: ''Sim, eu tenho a doença ds quedas, a qual não é vergonha para ninguém. E a doença das quedas não impede a vida.''
O que o escritor declarou antes de morrer é uma verdade, infelizmente desacreditada por muitos. Segundo o neurologista José Ivan Cipoli Ribeiro, na tentativa de proteger o paciente, as família o impede de fazer coisas completamente normais, como namorar, ir à escola, ter amigos, casar e até ter filhos. ''Os pais geralmente exercem um poder muito grande sobre o doente, que não se lembra de nada depois das crises e acredita no que lhe dizem. A intenção da família pode até ser boa, mas atrapalha muito a vida de quem tem epilepsia'', diz.
A doença é causada por um problema nas descargas elétricas cerebrais que, de acordo com o especialista, ocorrem de maneira excessiva e com tendência à repetição. ''O cérebro funciona por estímulos elétrico, que normalmente acontecem 80 vezes por segundo. A epilepsia é caracterizada quando esses estímulos acontecem em número maior por segundo e com muita frequência'', explica.
Como consequência do aumento de impulsos elétricos, o paciente pode ter crises no sistema motor, que são os sintomas mais característicos da doença, e também na parte do pensamento e sensorial. ''Nem sempre a pessoa irá apresentar ataques motores. Uma crise também pode surgir com um problema de visão, por exemplo, e gerar uma alucinação. Ou ainda como uma confusão mental. Por isso, muitos pacientes são tachados de doentes mentais e acabam internados em instituições psiquiátricas. Esse mau diagnóstico é comum'', alerta o médico.
Para identificar esses sintomas como uma possível crise de epilepsia, o especialista afirma que é preciso observar o tempo de duração e o resultado depois da crise. ''Os ataques costumam durar no máximo dois minutos. Depois desse tempo, as funções se normalizam e o paciente não apresenta nenhum sintoma até uma próxima ocorrência'', comenta.
Em casos mais graves as descargas elétricas têm efeito mais prolongado, podendo chegar a 10 minutos de duração, ou repetição, com até três crises em menos de dez minutos. Esses casos os médicos chamam de estado de Mal Epiléptico. ''Para esses pacientes as consequência são mais sérias. Cerca de 10% a 20% deles morrem'', alerta José Ivan. As funções cerebrais também podem ficar comprometidas em crises mais longas.
Mais comum na infância e na terceira idade, a epilepsia ainda tem suas causas um tanto desconhecidas. O mais provável, segundo os médicos, é que ela surja como consequência de choques na cabeça, recentes ou não, tumores, abuso de álcool e drogas e outras doenças. ''Em crianças, enfermidades como sarampo, cachumba, coqueluche, meningite, encefalite e neurocisticercose, além de traumas durante o parto, são causas comuns. Em idosos, ela pode surgir como consequência de AVCs, câncer ou quedas'', explica José Ivan.
Para tratar a doença, o método mais comum é o uso de medicamentos específicos. O problema aí são os efeitos colaterais. Geralmente os remédios causam sonolência e falta de concentração, atrapalhando no rendimento escolar das crianças. ''Mas o controle medicamentoso é fundamental. Se não for tratado, o paciente pode desenvolver o Mal Epiléptico e até morrer'', alerta.
Outra solução é uma cirurgia cerebral, indicada para pacientes nos quais os remédios não fazem efeito. Mas de acordo com o especialista, os pacientes de baixa renda sofrem pela falta de estrutura do estado. ''O SUS não fornece os remédios facilmente e não banca as cirurgias. Embora sejam medicamentos relativamente baratos, em torno de R$ 6 reais por mês, para algumas pessoas isso é muito'', comenta.
O neurologista José Ivan Ribeiro: Os ataques costumam durar no máximo dois minutos. Depois desse tempo, as funções se normalizam e o paciente não apresenta nenhum sintoma até uma próxima ocorrência
Mitos sobre a epilepsia
- A doença não é contagiosa. Ao contrário do que muita gente pensa, a baba que o paciente solta durante os ataques não transmite epilepsia
- Pacientes de epilepsia não são loucos, bobos ou incapazes de aprender. Eles podem freqüentar a escola, namorar e trabalhar
- Durante um ataque motor, não é necessário puxar a língua do doente. Isso pode causar um acidente grave, uma vez que a mandíbula fica muito travada
- Se alguém estiver convulsionando, também não é necessário segurar braços e pernas. Basta proteger a cabeça para evitar pancadas fortes


