Um sopro de inovação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de janeiro de 2003
Rosângela Vale<br>Enviada Especial 
Os jovens criadores do projeto AmniHotSpot abriram, semana passada, a temporada de lançamentos outono-inverno 2003, que prossegue, a partir de domingo, com a São Paulo Fashion Week. A quarta edição do evento aconteceu no mais novo hotel da Paulicéia. Inovador, arrojado e surpreendente, o Unique foi o espaço perfeito para abrigar as criações dessa trupe vanguardista, encarregada de dar uma lufada de frescor à moda brasileira.
Disponilibizando toda a assistência necessária aos participantes do fornecimento de matéria-prima à realização do desfile o projeto, idealizado por Paulo Borges, completa dois anos com um saldo superpositivo: coleções à venda nas principais cidades brasileiras e na badalada loja Patricia Field, em Nova York.
As novidades
Nesta temporada, uma nova estilista passa a integrar o calendário do Hot Spot. Simone Nunes (que já se apresentou no Projeto Lab, da Casa de Criadores) explorou o universo de Nelson Rodrigues e filmes como ''A Bela da Tarde''. Ora ingênua, com casaquinhos trapézios e formas infantis, ora sensual, com vestidinhos de malha e espartilhos à vista, a coleção traz detalhes como espelhinhos e estampas de ''loiras''. Destaque para a alfaiataria.
Outra novidade da temporada é a parceria do evento com o projeto Ellus 2nd Floor um espaço que a grife dispõe, na sua loja da Rua Oscar Freire, para a comercialização das coleções de novos estilistas. Dessa turma, quatro foram escolhidos para se apresentar no Hot Spot. Gisele Nasser, que também já havia mostrado o seu talento no projeto Lab, foi o maior destaque. Trabalhando com a idéia de dualidade, ela mesclou referências punks, streetwear, militares e românticas para criar uma coleção delicada e forte. Os tons são suaves, pontuados por preto e flúor. Luxo total: os bordados de flores tipo mosaico, numa releitura do camuflado.
Adriano Costa também foi destaque ao mostrar todas as possibilidades da boa e velha camiseta: pintada com desenhos infantis, grafitada com caneta hidrocor, customizada com paetês sobre estampas de ídolos da música e com frases de efeito como: ''Não use a pele dos outros'' e ''Quero meu hype em dinheiro, assinado: Coco Chanel''. Personalidade, ao invés de massificação fashion, é a mensagem do estilista.
Também desfilaram sob a bandeira do Ellus 2nd Floor Eduardo Inagaki, que fez um ''manifesto pós-cafona'', misturando estampas em silhuetas volumosas e inventando colares tipo forca; e a grife Redhead Loves P., com a coleção ''heavy things, light things''. A partir deste inverno, parte das coleções dos quatro estilistas estará disponível para os franqueados no show-room da Ellus.
Melhores momentos
A técnica cada vez mais primorosa de Wilson Ranieri trouxe modelagens próximas ao corpo, com calças e saias acima dos joelhos. Tranças de tecido detalham as peças cinza-claro. Os tons suaves ganham a boa companhia do laranja. E o clima invernal fica por conta dos casacos craquelados, que soltam pó e dão um efeito de neve. O ótimo Jefferson de Assis propõe miniblusas e saias de cós levemente arredondado (mais alto atrás), com vieses em couro, trabalhando com a idéia de espiral na estampa ''revoada de pássaros'. Recurso sempre utilizado pelo estilista, as multialças surgem agora nos sutiãs e bodies. Destaque para as ótimas sapatilhas, que também ganham efeito espiralado com zíper.
Samuel Cirnansck inventa uma madrasta má e moderna como protagonista de seu inverno sadomasoquista-chique. Assimetrias, transparências, rendas, plumas, franjas, detalhes em crochê, jeans e couro justinhos compõem a coleção, toda em preta e cinza. Madames chiques também são o alvo de Walério Araújo, que apresenta o tema ''Dadaísmo de Luxo''. Formas orgânicas e coloridas nas saias e vestidos dividem a cena com os tons cinzentos das calças com excelentes recortes, aberturas e amarrações.
A patinação artística é a inspiração de Deoclys Bezerra, que reedita os clássicos collants e aproveita a idéia de curvas deixadas no gelo para criar recortes e aplicações nas peças em moleton mescla, jerséi e cetim. Já Emilene Galende relembrou os tempos de colegial para construir uma coleção com influências esportivas, pontuada por tons vibrantes. Listras e a padronagem tweed ganham destaque, assim como as placas de acrílico usadas sobre a roupa e nos acessórios. A silhueta é mais ampla para vestidos e saias e seca para as calças. Nos pés, conga com sola mais grossa e salto alto.
Fábia Bercsek também resgatou os tempos da escola, sobretudo as feiras de ciências. Daí vêm as jardineiras, os jeans customizados com números, os aventais em lona e as jaquetinhas de lapelas arredondadas, além das estampas de foguetes, planetas e explosões cósmicas.
Da terrinha
Sempre fiel às suas origens orientais, a paranaense Érica Ikezili pesquisou a técnica Butoh, que surgiu no Japão depois da Segunda Guerra e ficou conhecida como a ''dança da escuridão''. Explorando elementos do espetáculo ''La Argentina'', de Kazuo Ono, ela elege o medo como tema central da coleção. Para isso, parte de formas geométricas, tanto na modelagem, de cortes circulares, como na estamparia, com carinhas assustadas. Franzidos e pregas criam volumes em saias e vestidos. Rosa, cinza, preto e branco compõem a cartela de cores.
* A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização do AmniHotSpot


