Cairo - O trânsito do Cairo ainda recebe os visitantes com seu caos peculiar, as pirâmides e a Esfinge continuam ladeando o mar de prédios logo ali em Gizé, a 20 quilômetros, e o Museu do Egito vai sempre deixar boquiaberto quem olhar de perto o sarcófago de Tutancâmon e a múmia do Rei Ramsés II. Mas um novo Egito surpreende os viajantes que desembarcam na maior nação árabe do planeta três anos depois do início de uma série histórica de mobilizações. É um país em plena metamorfose.
O cenário evidente de que estamos no calor de uma pátria que está mudando sua história é o centro dessa metrópole de mais de 9 milhões de habitantes, dona de uma população quase tão grande quanto a de São Paulo. Mais especificamente, a Praça Tahrir - ou Praça da Libertação -, como foi batizada em 1952, quando o Egito deixou de ser monarquia para tornar-se república. Desde 2011, esse gramado localizado num contorno viário entre prédios do governo atraiu tantas multidões durante as manifestações da chamada Primavera Árabe que acabou por se transformar em um ícone.
Ainda que no último dia 25 de janeiro, aniversário de três anos da primeira insurgência, conflitos tenham voltado a abalar a praça, o coração do Cairo vem apresentando uma relativa calmaria sob o governo militar interino de Adly Mansour, que aprovou por referendo popular a nova constituição em janeiro e anunciou a antecipação das eleições presidenciais. O ministro da Defesa, Abdel Fattah al-Sisi, principal nome no processo de derrubada do presidente Mohamed Mursi em 2013, é o candidato dos militares - o único popular até agora.
As evidências do tumultuado passado recente da praça surgem aqui e ali. Um tanque de guerra plantado diante do casarão rosa do Museu do Egito. Na rua de trás, a carcaça preta do edifício-sede do Partido Nacional Democrata, de Mubarak, incendiado na revolução. No centro da Praça Tahrir tem sempre alguém de bochechas pintadas nas cores do país (preto, branco e vermelho), vendendo bandeiras ou faixas de cabeça.

Paredes pintadas
Mas, para ver a espetacular arte revolucionária que brotou dos embates (nos quais podem ter morrido cerca de 3 mil pessoas), é preciso cruzar a movimentada avenida e caminhar pela Rua Mohamed Mahmoud. Os muros no entorno do campus da Universidade Americana do Cairo exibem grafites de cores fortes e imagens dramáticas.
Elas retratam faraós feridos, mulheres crucificadas, caveiras de militares, crianças famintas e heróis civis assassinados pelo regime. É o caso de Gaber Salah, o Gika, que tinha 18 anos quando levou um tiro das forças de Mursi, em 2013. Ele fazia uma homenagem às 58 pessoas que, um ano antes, haviam sido mortas exatamente no mesmo lugar.
"Esses artistas acreditam sinceramente que sua batalha contra o status quo se dá por meio da arte de rua", define Soraya Morayef, escritora egípcia que adotou o tema em um blog (suzeeinthecity.wordpress.com) e como objeto de estudo em sua dissertação no King’s College de Londres. "Muitos deles perderam pessoas queridas durante os atos de violência entre os manifestantes e as forças policiais, e assumiram a questão como uma luta pessoal." As frases, na maioria das vezes escritas em árabe (é bom fazer o passeio acompanhado por um guia), convocam o povo às ruas em mensagens como "quantos egípcios ainda vão morrer pela liberdade?".

Imagem ilustrativa da imagem Um país em plena metamorfose
| Foto: Fotos: Shutterstock
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