Um leve jeito infantil de ser
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2001
Ruth Barros<br>Agência Estado 
A produtora de televisão Ana Beatriz Siqueira, a Bia, tem 23 anos e um quarto forrado de bonecos dos mais variados tipos. Apesar de ela mesma já estar um pouco passadinha para encarar tantos brinquedos, as crianças não têm vez no meio de todas as suas atrações. ''Odeio quando meu priminho vem em casa'', diz Bia. ''Criança detona e estraga tudo.''
As roupas são infantis, as tatuagens são de bonecos ou super-heróis. O figurino inclui quase sempre alguma coisa referente ao desenho ''As Meninas Super Poderosas'', o novo cult que enfeita mochilas ou lancheiras, daquelas de levar merenda na escolinha. O Laboratório de Dexter e Hello Kitty também estão em alta, substituindo o ''Pokémon'', que está meio por fora.
No Rio, esses adultos embalados de crianças são conhecidos como ''Ploc'', que os mais antigos vão lembrar como nome de chiclete de bola.
Em São Paulo, eles são tratados como ''clubber kids'', ou seja, a galera que frequenta a cena clubber, mas que ultrapassou o cenário de boates e raves, levando seu jeitinho infantil de ser para o cotidiano, a rua e o trabalho.
Muito fofo Ao contrário de tribos mais antigas como os punks, que pregam a negação aos padrões tradicionais da sociedade, ou os hippies, adeptos da revolução, da paz e do amor, nenhuma ideologia une os clubber kids. Eles podem ser a favor de causas tão diversas como Osama bin Laden ou o controle da camada de ozônio. O único ponto de contato é a estética que inclui o culto a desenhos animados de várias épocas, além de roupas e acessórios, mochilas e pirulitos. A palavra mais empregada é fofo quase tudo é fofíssimo no universo deles.
O gosto musical também é eclético pode ir de balada techno a roquinhos açucarados. O Free Jazz foi momento de glória para muitos, com a apresentação da dupla escocesa Belle and Sebastian que, aliás, é nome de um desenho animado francês.
No Brasil, uma rara unanimidade sonora é a banda Penélope, que por sua vez deve o nome à Penélope Charmosa, a corredora de automóvel cor-de-rosa que invariavelmente derrotava Dick Vigarista na Corrida Maluca. ''A gente sempre procurou fazer um som divertido'', conta a guitarrista e vocalista Erika Martins, de 27 anos.
Erika costuma usar uma bonequinha presa às cordas da guitarra, que certa vez foi ''raptada'' durante um show. Os fãs começaram a rastrear e descobriram o sequestrador através da Internet, que pediu resgate: um CD e uma foto autografada. Depois que ele foi pago, a bonequinha voltou para a guitarra, para alívio dos mais radicais.
Onde encontrar Na Rua Augusta, em São Paulo, um dos lugares mais procurados é a ''Galeria Ouro Fino'', que tem quase tudo para fazer um clubber kid feliz camisetas com os heróis favoritos, acessórios, saias de 35 centímetros de comprimento e até salão de beleza.
No favorito, ''Mundorama'', é possível mudar a cor do cabelo para roxo-batata ou rosa-choque, mas não é barato um azul radical pode custar até R$ 150,00, dependendo do comprimento do cabelo. À noite, esse visual turbinado é exibido em raves ou boates como a ''Lôca'' ou a ''Lov.e''. Os clubber kids bebem pouco, normalmente cerveja, e capricham na água alguns tomam ecstasy, que anima as pistas de dança e dá uma sede imensa.
Outro programa de grande audiência são as estréias de desenhos animados. Os longa-metragens Disney têm lugar cativo entre as fitas e os DVDs de um clubber que se preza. Como também acontece entre crianças, os filmes são vistos e revistos muitas vezes até que os diálogos sejam decorados.
Pato Donald A predominância entre eles é de garotas e gays. ''São poucos os carinhas que conseguem encarar andar com um visual desses'', confirma Bia, que tem como homem ideal alguém que não queira afastá-la de seus bichos de pelúcia nem mudar seu visual. ''O cara não precisa de se vestir de Pato Donald'', garante. ''Mas não pode ser ninguém que queira me impedir de ser eu mesma, de andar como gosto.''
Luiz Henrique Campos, 34 anos, mais conhecido como Normanda (apelido que pegou por causa de uma fantasia usada em uma festa gay), descobriu em uma banca de revista que Normanda também é um tipo de vaca. Começou a ganhar vaquinhas de louça, pelúcia, metal e objetos em forma de vaca.
O ''rebanho'' chegou rapidamente a 150 cabeças, que acabaram sobrando para a mãe dele. ''Fiquei meio cansado das vacas. As de pelúcia sujam muito e minha mãe acaba sendo obrigada a lavá-las para não emporcalharem meu quarto.'' Normanda é gerente da loja de Marcelo Sommer, estilista favorito de dez entre dez clubber kids. Dono de um estilo capaz de misturar pompons, laços de fita orelhinhas, saias-balão, macacões de pezinhos (como aqueles para recém-nascidos) e rendas francesas, Sommer causou furor no inverno passado, quando lançou a saia-urso, ou seja, uma cabeça de urso que ''vestia'' a pessoa como uma calça curta. ''Sempre procurei referências na infância para criar minhas peças.''
Ele está começando a ultrapassar as barreiras do universo cult. Em janeiro, no próximo São Paulo Fashion Week, a Estrela, uma das principais fábricas de brinquedos brasileiras, ataca no universo de moda infanto-juvenil pelo traço de Sommer, com um investimento de R$ 500 mil.
Bolinha Na estrada há mais tempo, o artista plástico Guto Lacaz, de 53 anos, também é freguês de brinquedos para fazer suas criações. ''Fui incorporando. Ao invés de largar a infância, eu a trouxe junto'', brinca Lacaz, que desdenha os novíssimos desenhos japoneses, um dos favoritos da galera, e dá preferência aos mais tradicionais. ''Sou fã do Bolinha.''
Topo Gigio Outros ídolos antigos também continuam mantendo seus fiéis. A produtora de TV Ida Feldman, de 34 anos, que se recusa a ser rotulada como parte de alguma tribo (''eu só sou eu mesma''), tem 19 tatuagens espalhadas pelo corpo. Quatro delas são do Topo Gigio, um rato italiano que fascinou as crianças brasileiras há mais de três décadas. Ida descobriu Topo Gigio quando já tinha 22 anos e nunca mais parou a coleção. ''Devo ter uns 200'', calcula.
Quem vai ficar feliz com a linha Sommer-Estrela é a instrumentadora cirúrgica Yolanda Sperli que não conta a idade, só diz que passou dos 40 anos. Ela tira proveito do peso-pluma, 49 quilos em 1,53 m de altura, para poder usar roupas de criança.
''Quando minha filha usava tamanho 6, eu usava 14 e a gente ia junto para as lojas. Era muito legal'', diz Yolanda, que tem um guarda-roupa composto por minissaias, bordadinhos, blusas de oncinhas e outros bichos variados. Como a filha vai fazer 12 anos em breve, Yolanda enfrenta um problema. ''Ela não quer mais saber desse tipo de roupa, quer grifes de adultos. Vou ter de continuar sozinha.''n


