Um jeito zen de olhar a moda
Rosângela Vale
Com sensibilidade aguçada, muita pesquisa e devoção a mestres como Madeleine Vionnet e Yohji Yamamoto, o estilista Walter Rodrigues redesenha as formas femininas a cada temporada
Deslizando sobre o corpo, o tecido diáfano rende-se às mãos hábeis que lhe dão a forma da perfeição. A cada passo, uma dança majestosa acompanha o movimento dos quadris. Suave e harmoniosamente... Impossível não se entregar ao prazer da contemplação diante de um vestido de Walter Rodrigues. Romântico, ele parece querer captar o mais puro sentido da beleza em cada drapeado, dobra ou volume que inventa. Essa busca pela essência das coisas fica ainda mais evidente quando se conhece a trajetória do estilista, que esteve em Londrina semana passada, durante o 1º Encontro Paranaense de Tendências de Moda (leia texto págs. 10 e 11).
Em uma palestra de quase três horas, Walter falou a profissionais e estudantes de moda sobre sua carreira, referências e processo de criação. E se revelou um incansável pesquisador. Na lista de imagens que vai compilando e que faz parte de seu imaginário criativo constam fotos de moda de várias décadas, personalidades femininas fortes e estilistas como Elza Schiaparelli e Balenciaga, sua atual lente para os anos 60, que começam a ganhar força na última coleção. Mas a grande inspiradora de Walter é a francesa Madeleine Vionnet, mestra do corte enviesado e dos drapeados que marcaram os anos 30. Ela tinha fascínio pelo mundo grego, observa.
Outros nomes fundamentais para entender o trabalho do estilista são os contemporâneos Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo. A influência da cultura oriental sempre acompanhou Walter e aparece de forma clara nas suas criações mais recentes. Seus olhos puxados chegam a enganar os mais desavisados, mas devem-se à sua ascendência indígena. Natural de Herculândia, interior de São Paulo, aos 10 anos mudou-se com a família para Tupã, cidade vizinha de Bastos, colonizada por japoneses. Segundo ele, seu interesse pelo país do sol nascente começou ali. Cresci em meio a cultura oriental, justifica.
Impressões digitais Suas fontes de inspiração, entretanto, não páram por aí. Partindo do princípio de criação, tudo me interessa: a situação social do mundo, os momentos tristes e felizes da história da humanidade. Adoraria ter sido antropólogo para estudar a relação do homem com seu meio ambiente, revela. A moda fisgou Walter e a antropologia perdeu um talento logo na adolescência, quando começou a fazer vitrines para lojas. Mas a mudança para São Paulo só viria aos 23 anos. Conseguiu um trabalho de produtor de moda na Revista Manequim e um tempo depois já estava na Cori.
Naquela época, ele não tinha nenhuma noção da parte industrial do métier. Vi as peças sendo construídas, desmistificadas e o glamour da moda sendo desfeito naquele factoring, lembra. A experiência seguinte foi na Huis Clos, como assistente da estilista Clo Orosco, que lhe apresentou, de fato, o mundo da moda. Foi quem colocou na minha mão uma roupa de Rei Kawakubo e com quem viajei pela primeira vez para a Europa. Os trabalhos posteriores só provaram que seu caminho era outro. Na Satori, fiz uma coleção totalmente reta quando tudo era balonê no mundo. Foi difícil as pessoas entenderem, conta. Na Bicho da Seda, a história se repetiu. A grife tinha um estilo perua, com muitos bordados, enquanto eu adorava Yohji Yamamoto.
Antes de gravar suas impressões digitais no circuito fashion nacional, ele ainda passou pela Viva Vida. Na época, era chique ter o Walter Rodrigues como estilista, as grifes me disputavam, mas me pagavam para eu não fazer nada. E eu sou meio chão de fábrica, preciso botar a mão na massa. E foi assim, com fôlego de operário, que começou a construir sua marca. Ao lado da sócia e fiel escudeira, Áurea Yamashita, montou a primeira coleção no fundo do quintal. Duas estações depois, já tínhamos alugado uma casa. Chamávamos de UTI, porque quando chegava gente, dividíamos a casa com um pano branco. Ficava pseudo-chique, diverte-se.
Aula de anatomia Veio então o Phytoervas Fashion, em 94, e os bons ventos jamais o abandonaram. Participou das três primeiras edições do evento, mudou para um ateliê maior, onde emprega 18 pessoas, e hoje apresenta suas coleções duas vezes ao ano no MorumbiFashion. Sou completamente déspota nos meus desfiles. Faço tudo, desde o convite até a escolha de quem tem bunda A, B, C ou Z, brinca, referindo-se à distribuição dos convidados nas cadeiras numeradas. Há quatro anos, começou a trabalhar com vestidos sob medida, um desafio para perfeccionistas como ele, pois as curvas em questão, na maioria das vezes, estão longe das exibidas pelas modelos. Comecei a me perguntar porque as faculdades de moda não dão aula de anatomia, diz. Atualmente, também presta consultoria para a grife Seventeen.
Segundo Walter, seu processo de criação segue sempre a mesma ordem: primeiro escolhe a cor, depois o tecido, e só então pensa no modelo. Setenta por cento da coleção é feita em moulage. Tenho fascínio por retalhos, fico imaginando como posso usar aquela tira geométrica de tecido, conta. A criatividade é tanta que muitas vezes os vestidos chegam às butiques com bula, contendo instruções sobre o modo correto de vestir. Um dos pontos da silhueta feminina valorizados atualmente pelo estilista são os quadris. As brasileiras preferem as formas retas, mas acho que elas deveriam usar mais o godê, que disfarça o volume na região, ensina.
Todos os vestidos criados por Walter são cortados um a um. As matérias-primas são muito sofisticadas, como o crepe georgette, que é um fio de seda finíssimo. Minha costureira sabe exatamente quanto ela vale, garante. Apesar de tanta reverência a seu ofício, ele não considera moda uma arte. Moda é comércio, é indústria. Quando crio uma coleção estou fazendo a roda girar, ganho dinheiro e gero empregos, argumenta. Avesso a tendências, afirma conseguir fazer, hoje, um trabalho totalmente autoral. A partir do momento que um estilista adquire a consciência de que é preciso expor suas idéias, as coisas ficam mais claras, diz. Para Walter, elas são cristalinas.





