Um filme para todas as estações
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de abril de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha da Sexta 
Três épocas, três histórias e três mulheres se fundem em ''As Horas'', filme em exibição em Londrina. Virginia Woolf, a escritora, está num subúrbio de Londres no início de 1920, começando a escrever ''Mrs. Dalloway''. Quase três décadas depois, em Los Angeles, a jovem dona de casa e mãe Laura Brown se deixa influenciar pela leitura de ''Mrs. Dalloway''. E em nossos dias, a novaiorquina Clarissa Vaughan é uma espécie de reencarnação da personagem criada por Woolf. Três épocas, três mulheres e um denominador comum, a novela ''Mrs Dalloway'', segundo a ficção criada pelo escritor Michael Cunningham na premiada novela ''As Horas'', que ganhou adaptação cinematográfica pelas mãos do diretor Stephen Daldry, o mesmo de ''Billy Elliot''.
Anos 20. Anos de ressaca, mas também de abertura. Parte da sociedade começa a buscar fórmulas de escapismo e evasão, tomando consciência de que o hedonismo e a diversão podiam ser componentes existenciais permanentes, mas sem perder de vista que se estava vivendo tempos revolucionários em terrenos diversos. O cinema vive uma de suas épocas douradas, e a cultura e a moda começam a ocupar um lugar mais reivindicador na cabeça dos europeus.
Anos 20. O comprimento dos vestidos encurta até os joelhos. As cinturas começam a estreitar. A mulher vai aos poucos conhecendo melhor seu corpo. De início são os acessórios que fazem a diferença: chapéus, bolsas, sapatos. São introduzidos o suéter e as jaquetas. Um novo conceito de mulher, ligado à arte e à vanguarda, começa a despontar. O individualismo, a própria sexualidade e a liberdade são de certa formas expressados na maneira de vestir. Mas se por um lado eram ouvidas vozes femininas na vida pública, política e intelectual, o papel da mulher na vida privada continuava sendo o de esposa e mãe.
Para criar o look de ''As Horas'', o diretor Stephen Daldry contou com a ajuda da desenhista de produção Maria Djurkovic, da desenhista de vestuário Ann Roth e do diretor de fotografia Seamus McGarvey. Todos trabalharam afinados para criar um esquema visual que unificasse as três histórias, enfatizando as qualidades de cada segmento cronológico.
Ann Roth se concentrou no próprio ambiente do grupo Bloomsbury, a libertária elite intelectual frequentada por Virginia Woolf nos arredores de Londres, composta por pintores, escritores, jornalistas. Cores intensas. Verdes e cinzas-azulados. As mesmas cores que vestem Laura Brown (Julianne Moore) três décadas mais tarde. Que vestem a Clarissa Vaugham de Meryl Streep no fim do século. E que vestiram a Virginia Woolf de Nicole Kidman há 80 anos.
A atriz Nicole Kidman, Oscar pela interpretação de Virginia Woolf, não tem dúvidas de que o vestuário criado para ela no filme foi decisivo para que desse forma ao personagem. Os sapatos, o tecido dos vestidos e até os lenços: tudo contribuiu de imediato para que a atriz reagisse de maneira autêntica para a época recriada.n


