A descoberta da gravidez, na maioria das vezes, é motivo de muita comemoração e alegria em uma família. Para a mãe, a chegada de um bebê, seja ele o primeiro, segundo ou terceiro filho, é sempre aguardada com ansiedade. Ver a barriga crescer, senti-lo se mexer, preparar o quarto, comprar roupinhas, acessórios e brinquedos. Tudo nesse momento é cercado de magia.
Mas a história pode ganhar contornos bem diferentes quando vista pelo ângulo do irmão mais velho. Para ele, um novo irmão representa uma ameaça aos mimos e carinhos recebidos. Ver a barriga da mãe crescer e acompanhar a arrumação do quarto e as compras é quase como se preparar para uma tragédia inevitável. Para uma criança, a chegada de um bebê nem sempre representa um ganho. Muitas vezes, o sentimento é de completa perda.
''É bastante comum as crianças reagirem mal ao novo irmão. O mais velho sempre foi tratado como o rei da casa e, de repente, ele percebe que a mãe está mais interessada no bebê que está chegando. Ele se sente preterido, deixado de lado e até mesmo traído pela mãe'', afirma a psicóloga Maria Elizabeth Tavares, lembrando que o simples fato de a mãe não conseguir pegar a criança no colo por causa da barriga já é um grande motivo para o ciúme e o desconforto.
Os sinais que a criança dá indicando seu problema são irritabilidade, agitação, choro excessivo e regressão de idade. ''Além das mudanças de comportamento e humor, muitas crianças passam a agir como bebês. O filho que já havia parado de fazer xixi na cama, por exemplo, pode voltar a fazê-lo, ou querer mamar no peito outra vez, pedir mamadeira, chupeta'', diz.
A psicóloga lembra que o nascimento de uma nova criança muda a estrutura de toda a família e, mesmo filhos de mais idade, sentem a chegada de outro irmão. ''Às vezes é até pior quando o primogênito já é grandinho. Ele, que passou muito mais tempo tendo exclusidade dos pais, não aceita dividir a atenção. Até os gêmeos ficam com ciúmes um do outro. Mas se os pais agirem corretamente, o problema tende a desaparecer'', garante.
A vendedora Fabiana Rodrigues Veiga, 25 anos, é mãe de Davi Fraile Veiga, de um ano e um mês, e está grávida de oito meses. De acordo com ela, o comportamento de Davi já mudou. ''Ele exige muita atenção, quer brincar e ficar no colo o tempo todo. Como agora não tenho mais fôlego para isso, percebo que ele está mais carente'', afirma.
Um dos erros mais comuns, segundo Elizabeth, é tomar as coisas da criança mais velha e passá-las para o caçula. ''Em muitas famílias isso é extremamente comum. O berço, os brinquedos e as roupas de um vão para o outro. Além de sentir que perdeu os pais, a criança vê que também vai perder suas coisas. Nem sempre comprar um objeto novo para ela resolve porque o que existia era o valor sentimental. Os pais devem conversar com o filho mais velho, explicar a situação e pedir seu consentimento para passar seus pertences ao irmão'', aconselha.
Exigir que o mais velho tenha uma atitude não compatível com sua idade também agrava a situação. ''Muitos pais esperam do irmão a maturidade que ele ainda não tem, passam até a responsabilidade de cuidar do mais novo, cobram que seja um bom exemplo, que não brigue com o irmão. Muitas vezes, o mais novo se aproveita dessa situação e os pais nem percebem. As broncas ficam só para o mais velho'', lembra.
O ideal é que os pais valorizem as coisas que o filho mais velho faz e mostrar que ele continua sendo muito importante. ''É fundamental ressaltar as qualidades do filho como comer sozinho, ir para a escola, deixar que ele ajude nos cuidados com novo irmãozinho. E sempre procurar ter o mesmo comportamento e as mesmas cobranças com todos os filhos. Se o primeiro foi cobrado para deixar as fraldas com três anos, os demais precisam ser cobrados igualmente'', ensina.
São dicas que a mãe de David, Fabiana, parece já ter aprendido. ''Minha sogra teve dois filhos muito próximos e está me ajudando. Meu marido vai tirar férias quando o bebê nascer para me ajudar com os dois, pois sei que será difícil. Pretendo inserir o Davi na vida do irmão e dar atenção igual para os dois'', comenta.
Caso a criança não supere a chegada de um irmão, Elizabeth aconselha os pais a procurar ajuda profissional para superar essa fase. ''Se virem que há uma mudança brusca no comportamento, é bom tentar um psicólogo. A falta de tratamento pode deixar sequelas na criança para o resto da vida. Muitas vezes os pais tentam acertar mas não conseguem''.

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