Elas mal pararam de brincar de boneca e já têm de embalar o filho. No Paranoá, terra da modelo Shalana, vencedora do concurso Top Model deste ano, as adolescentes estão engravidando cada vez mais cedo. Três em cada dez partos realizados no Centro de Saúde dessa cidade da periferia de Brasília são de jovens entre 11 e 19 anos.
É um retrato fiel do que constatou o Censo 2000: a gravidez precoce cresceu nos últimos 20 anos no País, contrariando a tendência de queda da fecundidade percebida em todas as outras faixas etárias.
D.S., de 14 anos, está no oitavo mês de gestação. Deixou de frequentar a escola, não por vergonha da barriga. ‘‘Várias colegas também estão grávidas.’’ O medo era de não segurar o vômito e passar por algum vexame dentro da sala de aula. Agora, o receio é do futuro. A avó vivia dizendo para ela tomar cuidado. ‘‘Mas escapoliu’’, resigna-se a jovem, garantindo que sempre usou camisinha.
Cleiane Xavier dos Santos, hoje com 19 anos, ‘‘caiu na cilada’’ duas vezes. Quando engravidou do primeiro filho tinha 15 anos, apesar de toda vigilância da mãe, que não a deixava sair nem frequentar a escola nos dias em que havia aulas de orientação sexual. ‘‘Acabou acontecendo dentro da casa dela’’, conta Cleiane. A mãe assumiu o neto porque o pai da criança desapareceu.
Da segunda vez, a jovem já morava havia dois anos com o parceiro e tomava anticoncepcional. ‘‘Eu achava que ele ficaria comigo para sempre.’’ Bastou revelar a gravidez e o namorado, de 22 anos, que já tinha outros cinco filhos, sumiu.
A ginecologista Janice Vale informa que o risco de uma adolescente engravidar pela segunda vez antes de chegar à fase adulta é de 30%, principalmente em casos como o de Cleiane que delegou à mãe a responsabilidade de criar o primeiro filho. A médica pesquisou a gravidez precoce no Paranoá, onde o clima de sensualidade é visível nas ruas. ‘‘Esse é o modelo vendido pela mídia que as jovens imitam’’, avalia Janice, observando que a imaturidade somada à carga de hormônios e a desproteção emocional selam o futuro de muitas adolescentes.
Janice descobriu que nem sempre a gravidez é indesejada. É o caso de R.X.S que engravidou aos 15 anos. Ela e o namorado moravam num quarto na casa da mãe e desejavam um filho. ‘‘Uma criança é mágica’’, deslumbra-se a adolescente, que vê outras vantagens em ter sido mãe precocemente. Entre elas, a de que os conflitos com a filha serão menores por causa da pouca diferença de idade entre as duas. O relacionamento amoroso se fortaleceu. Mas não quer que a filha repita o seu exemplo. Se pudesse voltar no tempo, garante que primeiro terminaria os estudos para não ter tanta dificuldade em arranjar emprego. Agora, o marido é balconista em uma loja, mas no início estava desempregado. (S.S./AE)

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