Um assunto mal resolvido
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2002
Rosângela Vale 
Para o psicanalista e psiquiatra Marcelo Castro, vive-se hoje uma cultura cheia de incoerências em relação à sexualidade, que está perdendo o sentido de valor. O tema está sendo exposto de forma maciça, permissiva e até invasiva em relação às crianças sem que a família e a sociedade tenham gerado os meios para trabalhar isso, observa. É dentro desse contexto que ele analisa a questão da homossexualidade na entrevista abaixo.
Folha da Sexta A homossexualidade está saindo dos guetos e ficando cada vez mais escancarada na mídia, em horário nobre. Como você você vê a questão?
Marcelo Está se expondo jovens, crianças, adultos e velhos à temática da homossexualidade sem que o valor da sexualidade esteja agregado. Se está exibindo, por exemplo, a nudez, em detrimento de se pensar a nudez, de se articular a nudez. A Leila Diniz, nos anos 60, apareceu de biquíni grávida na praia e deu o que falar. Eu acho legal que dê o que falar, o que pensar, o que discutir. Quantas coisas foram geradas daquilo. As imagens estão guardadas até hoje porque foram de valor para a época. Hoje se exibe e não se fala. Condena-se, aprova-se, mas não se discute. Então, nesse aspecto, não sei se a homossexualidade é mais perniciosa do que a sexualidade em geral.
Folha da Sexta E o que isso pode gerar?
Marcelo Nos anos 80, nós vivemos no Brasil o boom dos baixinhos com a rainha Xuxa, que eu penso ser a perversão da educação sexual, a deseducação, porque estimulou o erotismo, a captura e a introdução da criança nesse mundo masturbatório do consumo. Porque veio sandalinha da Xuxa, roupinha da Xuxa... É um mundo consumista e, por isso eu digo, masturbatório, ou seja, sem nenhuma elaboração, sem nenhuma interação, não se pára para pensar. E os baixinhos de lá são os adolescentes de hoje. Não me admira que na cultura que gerou Xuxa e seus baixinhos hoje esteja existindo o boom do uso de drogas na adolescência. Não é que a Xuxa causou isso. A cultura em que essa garotada foi criada produziu adolescentes que hoje estão tendo esses conflitos, como não era há 10, 20 anos atrás.
Folha da Sexta Isso é bem preocupante, não?
Marcelo A nossa geração de adultos está expondo nossas crianças a incoerências muito sérias e muito constantes, isso é muito preocupante. As coisas são muito imediatas. Tem uma crônica do Veríssimo, no livro Crônicas da Vida Privada, em que ele vai contando o que era de fato excitante na geração dele. A primeira pegadinha de mão da namorada no sofá, na frente do pai e da mãe, já dava para chegar perto do orgasmo. Hoje não, a coisa é rápida e imediata, sem intermediações simbólicas que resgatem a noção de valor. Valor do ser humano, valor do afeto do outro. Quando digo que vivemos em um mundo masturbatório, é um mundo de consumo para si, para o gozo próprio. Por isso esse vazio todo que está aí.
Folha da Sexta E como isso se reflete na questão da homossexualidade?
Marcelo Nós estamos vivendo um mundo de muita superficialidade para elaborar um tema tão delicado, tão humano, tão difícil como o da homossexualidade. Não gosto do termo, prefiro pensar em inclinação homoerótica, porque não dá para confinar os homossexuais na mesma categoria, não existem dois iguais. Nem a psicanálise nem outra teoria científica conseguiu rotular, expor em uma estrutura única que dê conta de todas as formas de homossexualidade. Não dá para comparar o homem com conflitos homossexuais que está casado, bem resolvido, que eventualmente tem um envolvimento hetero por puro prazer, com uma pessoa que busca ter, com alguém do mesmo sexo, uma relação afetiva e erótica de complementação sexual, que por sua vez não é comparável ainda ao travesti que está se prostituindo em troca da sobrevivência nas ruas da cidade. São exemplos de que não dá para reduzir tudo em uma fórmula única.
Folha da Sexta O tema é muito complexo. Como, então, tratá-lo com as crianças?
Marcelo Acho que nessa discussão o melhor caminho é apontar as dificuldades e os desafios antes de apontar soluções. Não sou eu que vou me meter a tentar dar fórmulas prontas. Um ponto de partida que me parece interessante é a questão da verdade. Ou seja, se uma criança pergunta, porque não falar a verdade e responder no tamanho da pergunta dela? A psicanálise ajudou muito a gente a perceber que a criança, desde seus primeiros momentos de vida, à medida que seu próprio desenvolvimento biológico e neurológico vai indo à frente, vai desenvolvendo todo um mundo de fantasias, de perguntas e de respostas provisórias para essas perguntas. Portanto, quando uma criança faz uma pergunta, ela já foi exposta a algum estímulo externo. Se ela está perguntando é porque nós, adultos, já expusemos esse assunto a ela, agora temos que aguentar o tranco. Diga a verdade, responda. Principalmente porque do quarto ao sexto ano de vida, dá-se a conclusão dos mais profundos aspectos psicológicos que vão estruturar a forma de ser da pessoa pela vida inteira. O esqueleto psíquico da criança está determinado aos seis anos. Daqui para a frente, é um período de latência e depois volta tudo à tona na adolescência.
Folha da Sexta Estimular, na infância, o respeito às diferenças, começando pela opção sexual, não é o caminho para evitar a intolerância e o preconceito?
Marcelo É justamente por volta de quatro, cinco anos, que a criança se defronta, de forma dramática, ainda que inconsciente, com o tema da diferença, que é a diferença dos sexos: homem e mulher. Já nem estamos falando de escolha ou inclinação sexual, mas da própria diferença anatômica dos sexos. A primeira teoria sexual que a criança tem, e a psicanálise mostrou isso, é que todo mundo tem um pênis. Daí até a constatação o que fazer com a diferença entre homem e mulher entra toda uma carga cultural, simbólica e todo um processo traumatizante, no bom sentido, que é para deixar marcas, uma estrutura formada. Não é raro o menino perguntar se mamãe tem pipi e a menina ser surpreendida fazendo xixi em pé depois de ter visto o irmãozinho fazer. Veja que lidar com a diferença sexual é difícil. Imagine, então, lidar com a diferença de inclinação sexual, numa cultura onde esse homoerotismo está na contramão de um perfil idealizado do sujeito pós-moderno: homem ou mulher, bem-sucedidos, casados heterossexualmente e com bens. É esse o ideal que silenciosamente nós vamos impondo e passando para nossas crianças. Aí você quer que mais um técnico da sexualidade chamo assim os psicólogos, terapeutas e psicanalistas diga para passar por cima disso tudo que está mal resolvido dentro de você e fale politicamente correto com a criança. Vá dar conta disso... E a criança percebe.
Folha da Sexta O problema é muito mais amplo...
Marcelo É a mesma coisa com as drogas. O adolescente percebe nossas incoerências. Nós estamos vivendo num mundo em que você está com medo de broxar? Tome Viagra. Não está conseguindo dormir, não vá examinar isso nem fazer análise, tome um Lexotan.. O adolescente faz o que para se livrar dos problemas? Toma drogas. Com relação à sexualidade, na minha opinião, é mais escancarado. Estamos vivendo uma sociedade fetichista e voyerista. Big Brother e Casa dos Artistas têm os mais altos índices de audiência. Por quem? Pelas crianças? Não, por nós adultos. Nós estamos cultivando isso. E aí vamos fazer de conta que para nós está tudo resolvido e vamos falar com as crianças. O recado que estou passando é: abra o olho. É importante cultivar a tolerância em relação às diferenças mais do que nunca nesse mundo violento em que estamos vivendo. É importante a verdade, sim, doa a quem doer. Se a criança perguntou, ela já foi exposta à necessidade de perguntar, então, fale a verdade. Mas esse pai e essa mãe estão vivendo isso?
Folha da Sexta O que dizer dos pais que evitam falar sobre o assunto e discriminam os homossexuais por medo de que os filhos façam essa opção?
Marcelo A psicanálise nos ajudou a mostrar que a gente teme muito o que deseja. Então, essa postura homofóbica do adulto, muitas vezes, assinala ou sujere uma questão homoerótica mal resolvida. Por que se defender tanto, agredir tanto o outro? Por que chamar de viado? Por que chamar de sapatão? Ninguém fala sou heterossexual assumido. Por que? Porque já se presume que a norma é o hetero. E essa norma está instituída em relação aos próprios conteúdos homoeróticos mal resolvidos. Eu diria: você está perseguindo, criticando, atacando muito, por que? Já parou para se ver, para se examinar? Por que essa necessidade de se manter lá longe? Por que não ter um amigo gay?


