Chegar em casa depois de um longo dia de trabalho, jogar os sapatos para o alto e esparramar-se no sofá com a televisão ligada, sem ninguém por perto para reinvidicar o controle remoto, reclamar da bagunça ou exigir a passagem pelo chuveiro antes da definitiva entrega ao sono, na cama que não foi arrumada de manhã... A cena descreve algumas das delícias da solterice vivida de forma plena: na solidão (nestes casos, bem-vinda) de um apartamento.
A relação com o próprio ''canto'' e a necessidade de transformá-lo num verdadeiro ninho é uma característica básica deste público, composto por profissionais liberais bem-sucedidos que fazem da arte de morar bem um dos maiores investimentos. Mas, apesar de o casamento tardio ser uma tendência dos tempos modernos e das estatísticas de divórcio continuarem a pleno vapor, o mercado imobiliário, em Londrina, parece não ter se dado conta disso. Quem analisa é o arquiteto Guilherme Torres. ''O mercado vê os solteiros como um defeito da sociedade; só enxerga estudantes e famílias com filhos'', diz.
De acordo com ele, o maior problema enfrentado pelas pessoas com mais de 30 anos, com alto poder aquisitivo e sem perspectiva de casamento, é encontrar um imóvel compatível. A solução, muitas vezes, é comprar um apartamento com três quartos e transformá-los em um. ''Esse público busca algo personalizado, mas as construtoras ainda mantêm um perfil muito tradicional neste aspecto'', critica Guilherme.
Segundo ele, as empresas não diferenciam estudantes de solteiros mais velhos, que acabam sendo obrigados a tolerar repúblicas no prédio. ''O jeito de viver dessas pessoas é diferente. Elas gostam de festas, mas também de privacidade'', argumenta. Outra exigência desse segmento é que o imóvel tenha valor agregado: boa piscina, sala de ginástica, lavanderia. O arquiteto informa que investir em apartamentos desse tipo, atualmente, tem sido um grande negócio. ''Existe demanda, mas há pouca oferta'', constata.
Auto-conhecimento A construtora Dinardi é uma das poucas a explorar o filão na cidade. De acordo com Maurício Dinardi Filho, os investidores têm procurado esse tipo de imóvel, focando especificamente os inquilinos solteiros. Tudo por conta do estilo de vida que levam, o que contribui para a valorização do local. ''São pessoas modernas, atualizadas, que cuidam bem do apartamento, tanto em termos de limpeza como de benfeitorias'', diz.
Embora a empresa ofereça opções para todas as classes, com apartamentos cuja faixa de preço varia de R$ 34 mil (flats no Parque Universitário) a R$ 90 mil (Condomínio Estrela do Lago), com aluguéis entre R$ 200,00 e R$ 800,00, Maurício conta que a maioria dos que procuram um imóvel para comprar não se pauta pelos valores, mas pela praticidade. ''Querem apartamentos fáceis de limpar e com menor espaço para decorar. O que antes era considerado pequeno e sem charme, hoje tem valor por ter os cômodos integrados'', diz, informando que alguns apartamentos de um dormitório têm planta opcional para a derrubada das paredes, transformando-se, assim, em lofts.
Morar sozinho, para Guilherme, é um exercício de auto-conhecimento: afina o gosto e traduz personalidade. ''É uma relação muito íntima com o espaço, que vira realmente um ninho'', diz. Por isso, na hora de decorar o espaço, os solteiros costumam optar por produtos de primeira linha. ''Como eles têm um poder de compra maior, querem exercer isso. Tanto que os lançamentos, hoje, são voltados para esse público'', observa o arquiteto.
Solidão versus liberdade O ginecologista e obstetra Moacir Sanches Mascaro, 32 anos, é um exemplo clássico dessa categoria de solteiros. ''Tudo o que eu colocar aqui vai ser do bom e do melhor'', diz, referindo-se ao apartamento recém-adquirido no condomínio Estrela do Lago, próximo ao Lago Igapó 2, uma das mais belas vistas da cidade. Com 90 metros quadrados (área total) e um quarto, o imóvel ganhou a preferência do jovem médico pelos serviços agregados, como a lavanderia. ''Assim não tem tanto problema com faxineira'', argumenta ele, que buscava ''um apartamento funcional, com o conforto de um hotel''.
Funcionalidade também é uma de suas exigências na decoração. Sala com home theatre e uma boa cozinha são suas prioridades. ''Gosto de cozinhar e de reunir amigos. Depois de uma certa idade, a gente já não sai tanto. O lazer em casa é uma boa opção'', observa. Mesmo ficando muito pouco tempo no apartamento por conta de suas atividades profissionais, ele aponta a solidão como um dos aspectos mais difíceis de quem mora só. ''Mas, ao mesmo tempo, você tem a liberdade de fazer o que quiser, não dar satisfação para ninguém e ter a individualidade preservada'', diz.
Nenhum desses argumentos é forte o bastante para convencer a empresária Juliana Sorace, 29 anos, a trocar a casa dos pais pela cobertura no Estrela do Lago, comprada há oito meses. Apesar de estar curtindo todos os detalhes da decoração e a vista deslumbrante do Lago , ela resolveu não se mudar mais para lá. ''A independência que eu queria, já conquistei, que é a financeira. Não conseguiria sair do conforto da minha casa; tenho muito apego aos meus pais'', justifica.
A mudança de comportamento da maioria dos que moram sozinhos também é outra justificativa para Juliana permanecer com a família. ''A pessoa que mora sozinha fica chata, egoísta, intolerante. O convívio com outras pessoas se torna mais difícil. Certamente isso iria acontecer comigo'', acredita. n

Em tempo: no calendário de datas esquisitas, hoje é celebrado o Dia dos Solteiros.

mockup