A frustração ainda é um sentimento frequente quando se fala de sexualidade feminina. Apesar das conquistas da humanidade, do avanço tecnológico e do comportamento social, falar de sexo ainda é tabu. O psicanalista Ailton Bastos exemplifica: ''O homem desenvolveu o projeto Genoma, viajou para a lua, mas ainda tem muita dificuldade de falar sobre sexo''.
Para Bastos, a infelicidade da mulher com sua sexualidade passa primordialmente por dois aspectos: ela não se conhece e não se deixa conhecer. Ele destaca que é de extrema importância que a mulher se toque, descubra os pontos que lhe dão prazer e fale sobre isso com seu companheiro. ''A menina, desde pequena, é criada com frases como 'senta direito', 'não toque aí', isso gera tabu e leva a pessoa a acreditar que aquilo é proibido. A mulher vive uma culpa'', explica o psicanalista.
Apesar do infinito número de informações disponíveis sobre sexo, muito pouco se fala sobre si mesmo quando o assunto é debatido. ''Quando as pessoas tocam no assunto, elas desfilam um sucesso fantasioso ou despistam com temas como prevenção de doenças e métodos anticoncepcionais. Sobre os sentimentos próprios não se fala'', observa. Bastos explica que a realidade do mundo atual, de competitividade, soluções rápidas e ótimo desempenho refletem na prática do sexo, que ''vira um produto do relacionamento''. Ele aponta ainda que há uma diferença grande entre o discurso, a quantidade de informações e a prática sexual.
Mito Um equívoco vivido por muitas mulheres é a ''masculinização'' da sexualidade. Bastos argumenta que a mulher acaba negando sua própria essência e age como se não precisasse de carinho e de profundidade no relacionamento. ''Isso não é verdadeiro'', alerta. ''Ela acaba entrando nesse jogo sob a pressão de que todos agem assim e fica cada vez mais distante do que ela deseja'', afirma. Dessa forma, as mulheres pensam que estão mais próximas dos parceiros, mas ficam cada vez mais vazias.
Os padrões de beleza e desempenho estabelecidos atualmente são outro problema quando o assunto é sexualidade. ''Existe um verdadeiro abismo entre o que se mostra e o que é real'', salienta Bastos. O corpo perfeito e o desempenho avassalador não fazem parte do dia-a-dia da vida sexual dos casais. O mito do príncipe encantado também prejudica a relação. ''Há uma falsa idéia de que se o homem ama uma mulher ele vai saber satisfazê-la. Mas como o homem pode supor que faz a mulher feliz se não é mulher?'', indaga.
Outra situação comum no universo feminino está em negligenciar a sexualidade. Bastos diz que as mulheres assumem o papel de mãe, de dona de casa ou até adotam uma postura que não dá condições de se encontrar em sua essência. No período da menopausa, algumas alterações biológicas podem interferir no apetite sexual. Mas o psicanalista aponta que tudo pode ser controlado, seja com reposição homonal ou terapia.
Nesse período, sexo pode e deve ser melhor vivido. Estabelecer uma comunicação com o companheiro é o primeiro passo. Trata-se do ''deixar-se conhecer''. A mulher não se conhece e não sinaliza o que deseja. O homem acredita que o que lhe dá prazer satisfaz a mulher. Cria-se, assim, uma frustração.
Sinais Quando existe uma dificuldade em se falar no assunto, o psicanalista sugere que se estabeleça sinais para facilitar o entendimento. ''Tem um casal que usa a expressão 'velejar' quando quer manter uma relação''. Dessa expressão, Bastos aponta diversas possibilidades de entendimento. ''O sol está bonito, o mar está calmo, vamos velejar?''. Quando se quer algo mais elaborado, a frase é dita de maneira diferente, como fazendo referência a um cruzeiro. A possibilidade de um passeio rápido também está na lista dos sinais.
Existem outras formas de sinalização como a própria forma de se vestir. O importante é a mulher não ter medo de dizer o que gosta e como gosta. Para alguns casais, não há a dificuldade de falar sobre o assunto e a comunicação pode ser estabelecida com as palavras próprias. ''Quando mais se conhece e não há travas na comunicação, maior a chance de ser bem sucedido'', declara.
O psicanalista explica que nem sempre a mulher busca o orgasmo numa relação sexual. ''Em determinados momentos, elas querem apenas ter uma relação mais íntima''. Mas, para o problema da falta de orgasmo, Bastos cita uma frase conhecida do repertório popular: ''primeiro as damas''. ''O homem pode tranquilamente levar a mulher a ter um orgasmo e, depois que ela está realizada, é a vez dele''. Ele alerta que a idéia de que os dois precisam chegar juntos gera ou frustração ou fingimento das mulheres.
A conquista por parte dos homens tem que ser diária e a sedução por parte das mulheres, também. ''Para sustentar a paixão e a atração sexual, o homem precisa de mensagens claras de que ela adora fazer sexo''. A sedução é outra arma poderosa. ''É preciso seduzir sempre senão eles viram pais, tios, avós, menos homem e mulher''. n
Serviço: O psicanalista Ailton Bastos ministra palestra com o tema ''Falando francamente sobre a sexualidade da mulher'' amanhã, às 11 horas, na Pernambucanas do calçadão, e às 17 horas no auditório da loja no Shopping Catuaí. A entrada é franca.

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