‘‘Mãe, não ficou ninguém da minha turma’’! Foi assim, com um misto tristeza e insegurança, que a estudante do primeiro ano do ensino médio Amanda Kienen Prestes, 14 anos, se expressou ao confirmar que dos 51 alunos da turma do ano anterior só dois estariam junto com ela na nova sala de aula. Esses dois, no entanto, pediram para trocar de turma.
‘‘Fiquei triste, ansiosa, com uma sensação de perda’’, ela resume. A decisão, entretanto, foi permanecer no novo grupo cuja maioria vem de Rolândia. Tímida, Amanda acredita que a mudança pode ajudá-la a se ‘‘soltar’’. Diz também que passada a expectativa e a tensão das primeiras semanas de aula, já gosta da turma que ‘‘é extrovertida’’. Para reencontrar os amigos que ficaram divididos nas outras salas, ela reserva um período da agenda: ‘‘Os intervalos das aulas são para matar as saudades’’.
Choro Apesar de preparada pela família sobre a mudança de sala, a pequena Fernanda Galão Pessoa, 5 anos, dividiu com coleguinhas a experiência da divisão de turmas. A mãe, a engenheira civil Tânia Galão Pessoa, conta que a separação não foi tão drástica porque Fernanda ficou com alguns amiguinhos que já conhecia. Para o outro grupo, contudo, foi a prima e companheira de sala, Gabriela Galão.
No terceiro dia de aula, a reação: muito choro e a negativa de ir para escola. Conforme Tânia, a estratégia da coordenação foi unir as duas salas para atividades conjuntas. Logo constataram que Fernandinha já brincava mais tempo com os novos colegas. ‘‘Os pais ficam com o coração na mão; pensam em voltar atrás’’, considera a mãe que complementa: ‘‘É preciso não ser tão imediatista e expor as crianças a situações novas’’.
Repertório social A psicóloga Alexandra Faconti diz que toda essa experiência vivenciada por crianças e adolescentes que com o início do ano passam a integrar novos grupos, proporciona ampliação e aprimoramento do seu repertório social. ‘‘Isso vai facilitar o bom relacionamento com as pessoas na vida adulta’’, observa. Alexandra comenta, contudo, que se por um lado essas trocas favorecem à socialização, por outro, quando muito frequentes e drásticas (uma turma totalmente nova), podem ampliar a insegurança da criança ou adolescente. ‘‘O recomendável’’, frisa, é que esta mudança seja gradual, no sentido de que as turmas tenham convivência, entrosamento, desenvolvam atividades em conjunto para que o grupo possa ser alterado.’’
Segundo Alexandra, é na infância que têm início as trocas sociais. O adolescente utiliza esse repertório construído para escolher grupos. A não ser que deseje, a troca frequente pode provocar a perda de identidade. Quando a separação acontece, o mais comum é que esse adolescente lance mão de vários mecanismos para retornar a uma situação estável. O aspecto positivo é que, não conseguindo, ele vai buscar nesse novo círculo, e certamente encontrar, um grupo menor ao qual se identifique.
Os pais ‘‘Por mais boa vontade que tenham, os pais não podem solucionar todos os problemas dos filhos’’, diz a psicóloga. ‘‘Em situações como as de Amanda e Fernanda, o papel dos pais é dar todo o suporte emocional que o filho necessita no momento para que supere a dificuldade: ouvindo, conversando, analisando os pontos positivos e negativos da mudança.’’
Para ela, o mais importante é incentivar o filho, tentar mostrar-lhe que é capaz de fazer novos amigos, que é uma criança de convivência agradável. Quando os pais tentam resolver, tiram do filho e de si próprios uma excelente oportunidade de crescimento mútuo. É um aprendizado para os pais também.’’

mockup