Tristeza materna atinge 80% das mães
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quinta-feira, 08 de maio de 2003
Lilia Rà<br> Agência Estado 
No lugar da alegria pela chegada de um bebê, um choro constante e mudanças de humor sem explicação. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a tristeza materna, ou ''baby blue'', manifesta-se em até 80% das mulheres. ''As mamães precisam expressar, sem culpa, que estão contentes com o bebê, mas que também sentem angústia'', conta Vera Iaconelli, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). A intensidade desses sintomas e a persistência desse estado por mais de um mês podem indicar a depressão pós-parto, que acomete cerca de 15% das mulheres.
De acordo com Carmem Sylvia Ribeiro, psiquiatra especializada em saúde mental pela Universidade de Campinas (Unicamp), em casos raros, menos de 1%, a mulher pode apresentar psicose puerperal, com alucinações e rejeição total ao bebê. A psicose puerperal foi a estratégia de defesa escolhida pelos advogados de Andrea Pia Yates, uma enfermeira de 37 anos, que afogou seus cinco filhos na banheira, em junho de 2001, em Houston, nos Estados Unidos. Andrea poderia ser condenada à morte, mas foi sentenciada com prisão perpétua. O júri não aceitou a tese de insanidade, acreditando que Andrea sabia o que estava fazendo. Entretanto, o próprio marido da enfermeira, Russel Yates, defendeu sua esposa alegando que ela andava deprimida e culpou os médicos de negligência. A depressão pós-parto é reconhecida como defesa legal em 29 países, entre eles está o Brasil.
A sociedade ainda encara com desconfiança reações femininas relacionadas à Tensão Pré-Menstrual (TPM) e, também, depressão pós-parto. ''Nossa cultura não associa parto à tristeza. A visão desse momento ainda é muito romanceada. No entanto, a mulher está cada vez mais sozinha. Antes, a família e a comunidade absorviam parte do processo gravídico'', ressalta Vera.
Hormônios A tristeza materna desenvolve-se nos dez primeiros dias de pós-parto e regride totalmente até o final do primeiro mês. Os especialistas contam que a maioria das mães não precisa de medicamento para enfrentar esse período. ''O 'baby blue' é uma depressão mais leve, que também pode ser explicada devido a grande oscilação hormonal que ocorre na gestação e no pós-parto'', conta José Domingos Borges, ginecologista do Hospital Nove de Julho, em São Paulo.
No primeiro trimestre da gravidez aumenta a produção de uma série de hormônios, principalmente a progesterona e o placentário. Quando o bebê nasce ocorre uma queda súbita desses hormônios. ''A mulher sente todas alterações do organismo. A gravidez é uma 'crise' previsível, um processo natural que causa perturbações mentais e fisiológicas, que podem se agravar ou não dependendo da mulher'', explica Renato Kalil, ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade São Luiz (SP) e membro do American Academy of Family Phisicians (Academia Americana dos Médicos de Família).
No entanto, os hormônios não são a única causa da tristeza materna. ''Um conjunto de fatores pode influir antes, durante e depois da gravidez. Histórico de depressão, luto na família, abortos, abandono do companheiro, gravidez indesejada e até mudança de casa'', enumera Vera. Kalil complementa que o equilíbrio emocional é mais o importante para mulher superar essa fase e que a família é fundamental na adaptação dos primeiros 15 dias após o nascimento do filho.
Sintomas Os principais sintomas da tristeza materna são insônia, irritabilidade, falta de apetite e ansiedade. ''Esses sintomas comprometem mais o bem-estar da mamãe. Contudo, o vínculo dos primeiros dias com a criança não é afetado'', diz Carmem. ''A mulher, contudo, sofre com o estresse da nova rotina. Ela se sente insegura e cansada, mas sempre é capaz de cuidar do filho.''n


