Celso Mattos
Em menos de cinco anos de existência, a Internet não causou apenas uma grande revolução tecnológica, mas também comportamental. Formas de relacionamento, antes consideradas impossíveis, se tornaram realidade com uma rapidez difícil de assimilar. Os encontros virtuais viraram mania. Calcula-se que a rede é acessada regularmente por 3,5 milhões de pessoas no Brasil por dia. E cerca de 300 mil frequentam diariamente os chats de bate-papo eletrônico. A amizade e o namoro on-line abriram caminho para um outro tipo de relação: a infidelidade virtual que tem, inclusive, desmanchado muitos casamentos reais.
O exemplo mais recente e conhecido é o da professora de Educação Física Roberta Rizzo, de São Paulo. Ela começou a frequentar as salas de encontro eletrônico em 1997, aos 31 anos de idade. Com o pseudônimo de ‘‘Bad Girl’’, ela conheceu o ‘‘Caçador de Emoções’’, um jovem 10 anos mais novo. Eles namoraram pelo computador durante dois meses. Foi uma paixão à primeira teclada. Roberta separou-se do marido e foi viver com o ‘‘Caçador’’ no Rio de Janeiro. O relacionamento real durou apenas quatros meses. Agora, ela está de caso com ‘‘Bruno RJ’’, de 45 anos. Mas quem quiser maiores detalhes sobre essa nova paixão, basta comprar o livro ‘‘Sedução na Internet’’, escrito por Roberta Rizzo.
Para quem pensa que a traição virtual se manifesta apenas em casos isolados, está enganado. Um estudo apresentado pelo médico Tonino Cantolmi, da Universidade Gregoriana de Roma, no Congresso Italiano de Psiquiatria realizado em junho, mostra que a infidelidade on-line está se tornando um fenômeno no mundo inteiro. Sem rosto e sem identidade, o amante virtual é perfeito, pois depende apenas da imaginação de cada um. Não é à toa que muitos provedores contam com chats específicos para casais. Uma deles, inclusive, tem um nome bem sugestivo: ‘‘Pulando a Cerca’’.
Brincadeira No entanto, traição de verdade não está nos planos da maioria dos frequentadores desses chats. ‘‘Concretamente falando, eu jamais trairia meu marido. Encaro esses encontros eletrônicos com outros homens como uma brincadeira e uma forma de apimentar ainda mais meu casamento’’, afirma a analista de sistemas Marlene, 37 anos (que não quer se identificar), de Londrina. Ela é casada há 11 anos, têm dois filhos e mantém uma relação virtual com um microempresário de Ribeirão Preto (SP), há três meses. ‘‘Ele é divorciado e tem 41 anos. Nós conversamos praticamente todos os dias. É algo muito legal porque não há compromissos. Nós trocamos idéias e experiências, dividimos as coisas boas e ruins. Na verdade, consigo me abrir mais com ele do que com meu marido’’, confessa Marlene.
Os encontros acontecem no trabalho, após o expediente. ‘‘Geralmente, conversamos durante uma hora’’. Ela não sabe dizer ao certo se está ou não apaixonada. ‘‘É difícil porque é tudo muito abstrato. Eu sequer conheço o som da voz dele, no entanto, construi na minha cabeça uma imagem, um corpo e um rosto que pode ou não estar muito distante do real. Essa dúvida ao mesmo tempo me fascina e me amedronta. Talvez seja isso que me seduz tanto a ponto de me fazer manter essa relação. Eu não vejo isso como uma traição, mas como algo que me faz bem, mesmo sentindo a consciência um pouco pesada’’, conta Marlene.
Ela também não sabe dizer se gostaria ou não de conhecê-lo pessoalmente. ‘‘Por dois motivos. Primeiro porque tenho medo de me decepcionar e, segundo, porque isso iria concretizar a infidelidade. Até certo ponto, é muito cômodo você manter uma relação real e uma virtual porque elas acabam se completando. A virtual pode acabar com a real, mas também pode salvar’’, acredita. O funcionário público Marcos, 31 anos (nome fictício), é outro londrinense que vem ‘‘pulando a cerca’’ virtualmente. Casado há cinco anos, ele tem uma ‘‘amante’’ on-line há quase um ano. ‘‘Já teclamos (termo que significa transar pela Internet) algumas vezes. É ótimo porque é o sexo mais seguro que existe’’, brinca ele.
Independência A exemplo de Marlene, Marcos também afirma que jamais terminaria seu casamento por causa de um amor virtual. ‘‘É um jogo erótico. Eu tenho a certeza de que posso pôr um fim nele apenas apertando uma tecla. Sabe, quando você se mete numa encrenca e diz, ‘como eu gostaria de poder passar uma borracha sobre isso’. Pois é, na Internet você pode. Basta deletar, como num passe de mágica. Não há cobranças e nem pentelhação. Eu não tenho dúvida de que é essa independência que está abrindo as portas para a infidelidade virtual. É uma traição não concretizada’’, define Marcos.
Segundo ele, sua amante virtual atende pelo nick (apelido) de Dara, uma referência ao nome da personagem de Tereza Seiblitz, na novela ‘‘Explode Coração’’, a primeira a abordar o assunto na televisão, em 1997. ‘‘Ela é solteira, mora em Curitiba, tem 27 anos e está fazendo pós-graduação em Economia’’, conta Marcos. Ele é o que se pode chamar de ‘‘internauta galinha’’. Dara é sua terceira amante virtual. ‘‘Mas é a relação mais duradoura que tive na Internet, as outras duas foram passageiras’’. Ele descarta totalmente a possibilidade de também ser traído virtualmente. ‘‘Graças a Deus, minha mulher é analfabeta em termos de informática’’, diz, suspirando aliviado.

mockup