Tratamento diferenciado
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quinta-feira, 14 de junho de 2001
Rosângela Vale 
Em 1989, alguns alunos do curso Odontologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) fundaram o Grupo de Estudo, Desenvolvimento e Tratamento Odontológico ao Excepcional de Londrina (Getexcel). Quatro anos depois, iniciavam o atendimento à população. Por mais que soubessem da importância desse serviço, não tinham noção das proporções que ele atingiria a partir de então.
Hoje, com sede própria, a entidade, sem fins lucrativos e credenciada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conta com 10 profissionais (entre dentistas e estagiários), tem cerca de 2.500 pacientes cadastrados e atende mais de 130 cidades de todo o Paraná e do sul de São Paulo. Os recursos vêm de convênios firmados com alguns desses munícipios, além de doações e promoções.
Tanta demanda é compreensível, já que no Paraná existem poucos profissionais habilitados para o atendimento a portadores de necessidades especiais (deficientes mentais, visuais e auditivos, entre outros). De acordo com a cirurgiã-dentista Nádia Mello, uma das integrantes do Getexcel, a disciplina não faz parte do currículo mínimo estabelecido pelo MEC e, por isso, não é ministrada na maioria das faculdades. No Paraná, só o curso de Odontologia da PUC oferece a matéria, diz ela, informando que, como especialidade, a área ainda não é regulamentada.
Reações Para suprir essa carência do mercado, as seis dentistas do Getexcel formularam um curso de aperfeiçamento, que será oferecido a partir do dia 16 de julho pelo Centro de Ensino e Pesquisas Odontológicas (EPEO), com certificado da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Estadual de Londrina. O curso terá duração de 10 meses e aulas duas vezes por mês, às segundas e terças. No conteúdo programático constam: conceito e metodologia do paciente especial, farmacologia e terapêutica aplicadas, malformações congênitas, pacientes com distúrbios neuromotor e neurológico, alterações comportamentais, deficiências de comunicação, estomatologia e alterações endócrino-metabólicas, interação multidisciplinar e odontologia hospitalar.
Segundo Nádia, o curso é aberto a todos os profissionais de odontologia, mas sobretudo aos dentistas das prefeituras. A idéia é evitar que os pacientes venham até Londrina para tratamentos simples. Têm pessoas que viajam até 500 quilômetros para fazer remoção de tártaro, um procedimento que poderia ser feito na cidade onde moram, observa a dentista. Ela ressalta que, no tratamento de pacientes com necessidades especiais, além do conhecimento sobre a deficiência, o profissional precisa observar as características individuais de cada um. É preciso saber interpretar reações. Como saber, por exemplo, se a anestesia pegou se o paciente não fala?, exemplifica Nádia.
Mesmos direitos A dentista informa que, ao contrário do que muitos profissionais da área imaginam, os tratamentos com anestesia geral representam uma porcentagem muito pequena do atendimento de portadores de deficiência: no Getexcel, são apenas 3% dos casos. Não há mérito nenhum em tratar o paciente especial sob anestesia geral, o que, além de tudo, envolve muitos riscos. A capacitação tem justamente o objetivo de trazer esse paciente para o tratamento convencional, afirma Nádia, argumentando que o curso é uma maneira de abrir o mercado e forçá-lo a se adequar à realidade.
O paciente especial é um cidadão com os mesmos direitos de qualquer pessoa. Sempre existiu e vai existir cada vez mais, pois a medicina está evoluindo e a sobrevida só tende a aumentar. Há 10 anos, uma pessoa com Síndrome de Down vivia cerca de 30 anos. Hoje, temos vários pacientes com 60 anos, ressalta a dentista.


