Tratamento de base
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de outubro de 2002
Carol Knoploch<br> Agência Estado 
O tratamento do pé torto congênito (de nascimento) passa por um período de redescoberta. E os pais de crianças brasileiras com essa deformidade também têm acesso às novidades. Devem saber que, se o recém-nascido não tiver outras anormalidades, e for tratado por mãos delicadas e experientes, terá os pés com aparência e função próximas do normal para todas as atividades. Isso sem passar por cirurgia, usada com frequência. Uma em cada mil crianças brancas e três negras nascem com o pé (ou pés) torto(s).
Baseada em manipulações artesanais e indolores e aplicação de gesso, a técnica de Ponseti tem sucesso em 89% dos casos. O nome vem do criador, o ortopedista espanhol Ignácio Ponseti, que mantém uma clínica na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Há 30 anos ele desenvolve essa técnica, que leva em consideração a biomecânica do pé torto, as relações entre as articulações e as respostas biológicas às alterações de posição obtidas pelas manipulações. Os resultados estão relatados no livro ''Congenital Clubfoot. Fundamentals of Treatment'' (Oxford University Press), de 1996.
''Minha maior felicidade foi ter encontrado o tratamento ideal para o meu filho na véspera de uma cirurgia'', comentou a tradutora Ana Teixeira, de 35 anos, mãe de Guilherme, de 1 ano. Ana diz que passou por vários ortopedistas ''famosos ou que representavam universidades importantes'' , mas o problema não regredia. Seu filho era tratado com outra técnica, que também utiliza gesso em série, porém com procedimentos diferentes em relação aos de Ponseti. ''Sentia que alguma coisa estava errada. Meu filho perdia o fôlego de tanto chorar quando faziam os gessos. Parecia que os médicos cumpriam uma receita qualquer até cair na cirurgia.''
Associação Ana resolveu procurar informações na internet. Não queria que o filho fosse operado. ''A cada dia conhecia mais histórias de bebês que tinham de fazer uma, duas, três cirurgias. Ou pior, crianças com 6 ou 7 anos com sequelas.'' Foi quando descobriu a técnica de Ponseti. ''Liguei para Iowa. Uma secretária pegou meu telefone e disse que passaria o recado para o médico (Ponseti). Ele me retornou... Quase chorei.'' A tradutora lembra exatamente o que Ponseti falou: ''Não opere seu filho.''
Há cinco meses, Guilherme iniciou novo tratamento com Monica Paschoal Nogueira, única médica no Brasil reconhecida por Ponseti para utilizar o seu método. Guilherme fez seis gessos e hoje tem o pé corrigido usa botinha para não voltar à deformação anterior.
Empolgada, Ana está fundando a Associação Pé Torto (Associação de Mães de Bebês com Pé Torto Congênito). ''Muitos dizem que seguem o Ponseti, mas não é verdade. Conheço uns cinco que tiveram, de fato, contato com o tratamento'', comenta Monica, formada em Medicina pela Universidade de São Paulo. Em um estágio no Centro de Alongamento e Reconstrução Óssea de Maryland, em Baltimore (EUA), ela aprendeu a técnica de Ponseti. ''Nunca tinha visto isso no Brasil.'' Monica conta que elabora um projeto no HC para atender crianças semanalmente pelo sistema único de saúde (SUS).
Na cidade paulisa de Botucatu, o tratamento é protocolo no hospital público da Unesp. A pedido de Reinaldo Volpi, ortopedista do departamento de cirurgia e ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu, Monica deu aulas, em novembro de 2001, sobre a técnica para médicos assistentes e residentes. ''Ainda estamos em processo inicial (cerca de 15 crianças foram atendidas com esse método, nenhuma precisou fazer cirurgia) , mas posso assegurar que os resultados são animadores'', disse Reinaldo.
No Hospital Materno-Infantil Antoninho da Rocha Marmo, em São José dos Campos, crianças também são atendidas pelo SUS. O ambulatório é auxiliado por freiras Pequenas Missionárias. ''Alguns ortopedistas ainda torcem o nariz, mas nada até agora era tão satisfatório'', comenta a ortopedista Maria Henriqueta Merlotti, que foi treinada por Monica em janeiro e é a única no hospital a usar a técnica do Ponseti.
Paciência O pé torto tem sido tratado com manipulações, bandagens, órteses (botinhas altas, abertas na frente e presas a uma barra) e gessos há muito tempo. A técnica de Ponseti, no entanto, é recente. Deve começar na primeira ou segunda semana de vida para aproveitar a elasticidade dos tecidos que formam os ligamentos, cápsulas articulares e tendões até os seis meses o tratamento ainda pode ser realizado com bons resultados. Essas estruturas são alongadas com as manipulações semanais a maneira como se mexe nos pés é muito diferente da técnica Kite, usual no Brasil. Um gesso é aplicado após cada sessão, a fim de manter a correção obtida. ''Alguns até dormem enquanto mexo em seus pés'', observa Monica.
Geralmente, cinco a sete gessos longos, da coxa ao pé, são suficientes para corrigir a deformidade. Após o corte do tendão de Aquiles, feito na própria clínica, sob anestesia local (o corte é mínimo), é colocado um último gesso, que tem de ser mantido por três semanas.
Os pés tendem a ''entortar'' novamente. Assim, deve-se usar órtese por tempo integral durante três meses. Depois, somente à noite por 2 a 4 anos. ''É um tratamento que requer paciência e dedicação do médico e das mães'', afirma Monica, que viajou para os EUA para estudar sobre a técnica com dinheiro do próprio bolso.
Menos de 5% das crianças com essa deformidade têm pés tortos com ligamentos rígidos, encurtados, e que não cedem aos alongamentos. Há uma escala de 1 a 6 que determina o nível de deformidade. O diagnóstico, então, é de cirurgia, que deve ser evitada nos casos mais simples. Isso porque diminui a força dos músculos do pé e da perna, causando rigidez e, em alguns casos, dores nas articulações já na fase da adolescência ou adulta. Além dos custos de um tratamento com gesso, a cirurgia (particular) não sai por menos do que R$ 5 mil, sem contar os gastos com internação. A maioria dos planos médicos cobre o valor. n


