Trânsito sem stress
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quinta-feira, 03 de maio de 2001
Rosângela Vale 
Projeto transformou o longo e cansativo percurso do transporte escolar em uma divertida brincadeira para as crianças
Silêncio quase total. Afinal, a tia vai começar a contar mais uma história. Os fantoches ajudam a dar vida aos personagens imaginários. Vestida de Emília (personagem de Monteiro Lobato), ela ensina novas canções e propõe brincadeiras. Absorvidas pela diversão, as crianças nem se dão conta do tempo; quando chega a hora de ir embora, já esperam ansiosamente as novidades da próxima sessão.
A cena descrita acima não se passou em um teatro infantil. Também não aconteceu em uma daquelas animadas festinhas de aniversário, mas dentro de uma van durante o trajeto casa-escola-casa. Transformar o transporte escolar em uma deliciosa aventura para os alunos foi a solução encontrada pela Escola Interativa, de Londrina, para driblar o stress infantil no trânsito.
Pesquisa O projeto começou a ser colocado em prática no ano passado, depois de uma pesquisa que detectou as diferenças de comportamento entre as crianças que eram transportadas pelos pais e as que usavam o transporte escolar convencional. Elas chegavam estressadas, mais agitadas e levavam mais tempo para se concentrar nas aulas, conta a diretora pedagógica Sílvia Helena de Carvalho.
Segundo ela, vários fatores psicológicos contribuem para o stress quando a criança começa a usar o transporte escolar, além da irritação com o trânsito propriamente dito alguns alunos chegam a ficar 40 minutos rodando pela cidade. Eles estão sem os pais, que representam segurança; em um grupo heterogêneo, que não é a turma da sala de aula, mas outra que eles também vão ter que conquistar. Estas situações os colocam num estado de vulnerabilidade e podem ser somatizadas. Nossa preocupação é minimizar tudo isso, diz Sílvia.
Inquietação A idéia de fazer do transporte algo prazeroso para as crianças partiu da própria monitora ao perceber a inquietação daquelas que ficavam mais tempo dentro do carro. Como demoravam mais para chegar em casa do que as outras, passaram a questionar isso, lembra a professora Maria Aparecida Sobrinho, que transporta diariamente 22 alunos de 2 a 9 anos. Para amenizar a situação, Cidinha, como é carinhosamente tratada pelas crianças, começou a ensinar trechos de músicas com coreografias. A cada dia eu ensinava uma parte. Elas ficavam empolgadas para voltar no dia seguinte e aprender a outra parte e nem notavam mais as distâncias, relata.
Com o sucesso do trabalho, a monitora deu asas à imaginação. No seu arsenal de brincadeiras incluiu o dia do brinquedo, o dia do gibi, videokê e outras atividades divertidas. Agora, ninguém quer ser o primeiro a descer, observa. Os resultados positivos foram rapidamente percebidos na sala de aula e também em casa. Quando a secretária Regina Célia Souza Barbosa começou a utilizar os serviços do transporte escolar, tinha receio de que sua filha de 5 anos não se adaptasse, pois o trajeto até a escola, feito em cinco minutos com o carro, leva 40 minutos com a van. Mas ela nem se despede direito da gente e já sai correndo com medo de perder a hora do transporte, conta.
Educação Mas nem só de brincadeiras é feito o percurso. Há ainda a preocupação com a educação para o trânsito. Maria Aparecida passa noções de segurança, como a conscientização sobre a importância do cinto de segurança. Segundo ela, ao aprenderem que não podem colocar a mão para fora do veículo e nem se levantar quando ele está em movimento, os alunos passaram a observar e a criticar esse comportamento das crianças nos outros transportes escolares. Também conversamos sobre o lixo, que não pode ser jogado nas ruas pois entope bueiros. Já vivenciamos isso no trânsito uma vez; choveu e as ruas ficaram todas alagadas. Na hora, todos se lembraram da nossa conversa, diz.
A idéia deu tão certo que a Escola Interativa resolveu repassá-la para outras escolas brasileiras através do projeto Pueri Domus (Casa da Criança, em latim), onde 100 instituições de ensino trocam experiências positivas entre si com o objetivo de desenvolver projetos que melhorem a qualidade da educação. De acordo com a diretora pedagógica, a escola também tem planos de abrir, para toda a cidade, cursos de formação de monitores de transporte escolar. Muitos não estão preparados. Não basta seguir as orientações de segurança no trânsito. O profissional precisa saber trabalhar com a criança visando o seu bem estar, justifica.


