Os tempos são, definitivamente, outros. Na era da internet, um recado no Orkut (site de relacionamentos que virou mania entre internautas brasileiros) fere tanto quanto uma marca de batom na camisa ou um perfume diferente. ''Não é porque não há o contato físico que não machuca o outro'', explica a psicóloga paulistana Marilene Grandesso.
Doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, Marilene faz parte do corpo docente da pós-graduação do ISBL e dá aulas para o curso de formação em terapia de casal e família. Em um dos breves intervalos falou com a Folha da Sexta sobre infidelidade virtual, uma das mais recentes ''pedras no sapato'' no relacionamento de casais.
Pouco mais de 5% dos pacientes da psicóloga foram até a clínica por conta de problemas ligados à internet. De acordo com Marilene, que há 31 anos atende casais, os casos começaram a surgir nos últimos cinco anos. Apesar de não ser tão recente, vêm crescendo proporcionalmente à velocidade do mais rápido dos computadores.
''As relações virtuais tendem a ser intensas'', avisa a psicóloga, que vê ''com bons olhos a internet enquanto amplificadora da rede social, já que ela favorece relações'', completa. Sobre namoros que começaram no mundo virtual e se transferiram com sucesso para o plano real, Marilene cita um trabalho recente da psicóloga Mara Rossi que estuda a ''construção das relações virtuais''. O trabalho mostra que a maioria dos casos que deram certo é formada por casais que foram verdadeiros e não 'inventaram personagens'.
''A intimidade pela rede vem rapidamente'', explica Marilene. Mesmo que não haja contato físico, a troca de confidências também machuca. ''O sofrimento é muito grande. O parceiro traído fica muito mal quando descobre que o vértice virtual sabe muito mais coisas do que ele. Ele percebe que é casado com quem não conhece'', relata a psicóloga.
''Enquanto escreve, a pessoa elabora, lê e escuta o que escreveu e vai construindo uma narrativa'', explica Marilene. Os interlocutores virtuais se desnudam, sem que isso se relacione com roupas ou a falta delas. Desnudar-se, no caso, é contar os mais íntimos segredos na troca de e-mails ou mensagens pelo MSN (serviço de mensagens instantâneas). ''Não importa não ter sexo ou o grau de intimidade. O traído não aceita que o companheiro seja tão ou mais íntimo com outra pessoa'', avisa.
De acordo com a psicóloca, no mundo real há sinais que alertam os parceiros sobre possíveis traições. ''São pistas como quando o companheiro passa a chegar tarde. Mas se ele está em casa, a pessoa sossega'', diz. ''Entretanto, com a infidelidade virtual há um estado de hipervigilância e a pessoa fica fiscalizando até o celular''.
''Há quem se esconda atrás do computador e faça coisas que às vezes não tem coragem no mundo real'', lembra a psicóloga. Segundo ela, um caso virtual muitas vezes serve como tripé para um casamento morno, por exemplo, em que a pessoa não quer deixar o parceiro.


‘‘Tenho ciúme do Orkut do meu namorado. Checo todo dia os recados que outras meninas deixam. Mas é um ciuminho bobo. Não vejo problema nisso e nem penso em sair do Orkut.’’
Paula Vanzela, 18 anos

‘‘Eu entrei no Orkut e depois meu namorado entrou também. Não deu um mês e nós dois combinamos de sair porque estavamos brigando muito. Eu não gostava de ver os recados e as fotos, ele também não. Quanto aos e-mails, não me preocupo. O que os olhos não vêem o coração não sente e no Orkut fica tudo muito exposto’’.
Caroline Rosa, 20 anos

‘‘Já tive vontade em entrar em bate-papo e conhecer uma garota, mas não acredito em relacionamentos da internet. Quando não se tem contato real, não dá para saber se a pessoa está falando a verdade ou não. Acho uma perda de tempo. Prefiro o mundo real’’.
Marcelino Lourenço Júnior, 18 anos

‘‘Minha noiva conversa muito com os amigos pela internet. Mas não tenho ciúme e isso vai da minha confiança nela. O que eu não confio é no relacionamento virtual. Não acredito que possa dar certo. Tenho um pé atrás’’.
Carlos Henrique Aparecido Vieira, 18 anos

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