Divulgação‘‘Jovens’’ da terceira idade do Sesc imploram um noivo a Santo AntonioO correio elegante virou e-mail e home page. Os quitutes juninos deram lugar ao cachorro-quente e à pizza. O pau-de-sebo virou bungee-jumping. E a sorte e simpatias de junho? Ainda são as mesmas? A industrialização entrou de sola e a originalidade das quermesses juninas está se perdendo.
Mas, para muita gente com mais de 50 anos, as lembranças ainda estão bem vivas, como a grande fogueira que era o símbolo das festas de antigamente. Ali, os convidados se aqueciam do frio, e nas brasas onde se assavam batata-doce e pinhão, as mocinhas, depois de tomar quentão, pisavam descalças para demonstrar a fé nos santos de junho.
‘‘Hoje a festa junina é industrializada e está perdendo o encanto’’, declara a técnica social Irene dos Reis Zanetti, do Sesc de Maringá. Ela coordena há sete anos, um grupo de terceira idade num trabalho de resgate da cultura popular. Nessa época, cerca de 600 integrantes do grupo preparam trajes, decoração e pratos típicos das festas juninas para comemorar com toda a tradição por eles preservada. ‘‘Eles trazem na memória antigos costumes de sua terra natal. Reunimos todos e fizemos uma festa junina bem brasileira’’, conta Irene. ‘‘Queremos despertar a tradição e manter a originalidade das ações dos homens que fizeram a história do povo brasileiro. Hoje a festa junina ridiculariza esses valores, remendando as roupas das crianças, colocando trajes que não são típicos. Nenhum caboclo vai à festas mascarado, rasgado. Ele vai decentemente vestido e mantém o respeito’’, protesta Irene.
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Cardápio típico O trabalho do pessoal da terceira idade começa com estudos e levantamento de costumes e de vivências de sua juventude e que hoje estão se perdendo. Eles se preocupam com a fidelidade dos detalhes desde o traje típico, com muitos babados e laçarotes, à sianinha (um aviamento que enfeita as roupas) que, segundo eles, dão o colorido da vida. ‘‘Nossas raízes são frágeis demais. Alteramos muito o que acreditamos. Por isso, cada comunidade deve fazer um trabalho árduo de resgate para que essa tradição não morra, mantendo o elo com o que já foi vivido’’, sugere Irene Reis.
Dona Augustinha Calin Patrão, 75 anos, é um exemplo de participação nesse trabalho. Há 45 anos, ela levanta a bandeira de São João. ‘‘É o ponto culminante da festa junina’’, conta. ‘‘Através dela vem todo o cerimonial que é a procissão, o terço, os pedidos, a devoção de um povo’’. Dona Augustinha faz as flores de papel crepom, ajuda a preparar os pratos servidos nas barraquinhas. Fazem parte do cardápio típico, o anizete e o licor silvestre que, junto com o quentão, ajudam a quebrar o gelo.
Outras delícias são o bolo de fubá (que é o prato de resistência do cardápio), pudim caipira, pinhão, pipoca, canjica, amendoim, batata-doce e mandioca. ‘‘Só não tem cachorrão e pizza. Incluir esses pratos na festa junina é uma grande sacanagem da industrialização. É um horror’’, afirma Irene Zanetti.
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Já a professora Diva Couto, 48, que passou a infância numa fazenda, diz que os preparativos juninos eram sempre muito aguardados pela comunidade. ‘‘O povo levava a sério o ato de acender a fogueira e levar a bandeira do Santo. É uma pena que festas tão bonitas do nosso folclore, por falta de estímulo, estejam acabando. Era uma delícia dançar as músicas caipiras. Hoje tem gente que pensa que dançar quadrilha é coisa brega. E não sabem que é uma dança trazida pelos nobres europeus’’, lamenta a professora.

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