Trabalho
temporário
Com o desemprego em alta, empresas e empregados
modificaram sua visão sobre emprego temporário
Celina Alonso Az
De Maringá
O mercado de trabalho tem mudado. Em tempos de globalização, empresas e empresários mudam suas rotinas de contratação de funcionários e o trabalho temporário, que há alguns anos era procurado apenas em alguns meses do ano, passa a ser uma nova opção no mercado.
O que antes era chamado de ‘‘bico’’ hoje é considerado um emprego como outro qualquer. A Câmara Federal está com um projeto de lei em tramitação no Senado, que permite às empresas a contratação de mão-de-obra temporária em quaisquer de suas atividades. Embora a oposição critique o projeto alegando que é inconstitucional e vai baratear ainda mais a hora de trabalho no Brasil - R$ 2,79 contra R$ 14,83 nos Estados Unidos - para muitos desempregados este tipo de serviço é uma bênção.
Com o desemprego em alta, empresas e empregados modificaram sua visão sobre emprego temporário. Para a empresa, ele significa uma forma de contratar bons profisssionais sem ter de ampliar seu quadro fixo e contar com mão-de-obra especializada, terceirizando esses serviços. ‘‘Para o candidato é uma ótima oportunidade de mostrar, na prática, o seu desempenho, e de vir a se tornar efetivo. E o trabalho free lance é cada vez mais comum nos países de primeiro mundo’’, explica Ruth Ceccom Barreiros, gerente comercial da Absoluta Assessoria Empresarial de Maringá.
A empresa atende a cerca de 300 candidatos por semana. Ela afirma que o número de colocações em serviços temporários tem aumentado significativamente. Só não dá para saber quantos porque muitos empresários não podem pagar os encargos contratuais e acabam contratando o funcionário informalmente.
Exigências Se as empresas mudaram a forma de contratação, com o desemprego crescente o empregador ficou mais exigente na escolha do candidato. ‘‘Hoje um ajudante geral, ou administrativo, precisa ter cursado o primeiro grau, e em alguns casos até mesmo o segundo grau’’, conta Ruth Barreiros.
Atualmente, em Maringá, é bem mais difícil a contratação, até mesmo temporária, de uma secretária sem um curso de computação. O diploma de 2º grau é uma exigência comum para muitos cargos que antes só exigiam o diploma do 1º grau. Um conferente de estoque, por mais experiência que tenha, não arranja emprego se não tiver noções de algums programas de informática. ‘‘O empregador está mais exigente e precisa driblar seus encargos sociais. Por isso prefere terceirizar seu quadro de seleção e recrutamento que passa a ser feito pelas agências’’, explica Ruth Barreiros.
Os cargos temporários que antes eram apenas para balconistas na época do Natal, ou durante o armazenamento de safra das cooperativas, hoje são mais frequentes. ‘‘É comum recebermos fichas de engenheiros, de altos executivos, que antes não procuravam trabalhos temporários’’, diz Cleomary Solette Pereira, psicóloga recrutadora da Absoluta.
Mercado Outra limitação imposta pelo empregador é a dobradinha idade/boa aparência. Embora seja uma forma de discriminação, quando solicitam às agências, os empregadores exigem que o candidato tenha menos de 30 anos e que seja bonito, bem vestido, fale bem e seja muito esperto.
A psicóloga Luiza Col, da agência Exclusiva, conta que é grande o número de vagas para efetivos e temporários na cidade, mas critica a falta de qualificação da mão-de-obra. ‘‘Falta preparo para os candidatos. Eles deveriam ter uma melhor formação, um nível mínimo para atender ao empresário que hoje está mais criterioso na hora de selecionar’’, diz a psicóloga. ‘‘Em São Paulo, o mercado é mais aberto por ser maior. Por isso é comum um candidato menos qualificado conseguir o emprego. Aqui, o mercado é mais competitivo e por consequência muito mais seletivo, contratando apenas os que têm mais habilitações e são mais preparados para o cargo’’, analisa Luiza Col.
Orientação Não resta dúvida que o trabalho das agências de emprego assume um papel social muito importante. ‘‘Recebemos dezenas de pessoas desempregadas diariamente. Sabemos que elas já bateram em muitas portas sem respostas. E por isso damos uma assessoria, orientamos quais cursos e locais onde podem se especializar, informamos sobre novas perspectivas. Nesta hora, um trabalho temporário muda a postura do candidato. Mais confiante, ele acaba demonstrando seu potencial e se efetivando na empresa, conta a psicóloga Cleomary Pereira, da agência Absoluta. É o caso de Valmor Reimer Júnior, 20 anos.

Ele chegou de Curitiba sem emprego, arrumou um serviço temporário e em três meses conseguiu sua efetivação. ‘‘Foi assim que consegui minha efetivação num cargo ainda melhor’’, conta.
Edilza Maria Caldas, 24 anos, diz que agora só quer emprego temporário. ‘‘Saí de uma empresa de cobrança em que era efetiva, com horários e ambiente muito rígidos. Hoje estou trabalhando como demonstradora num supermercado, sobra tempo, ganho mais e tenho mais liberdade’’. Ednei dos Santos, 23 anos, ficou desempregado. Queria um emprego fixo, mas por bom senso decidiu optar por um temporário. ‘‘Em dez dias consegui trabalho como ajudante geral. Já fui promovido para o almoxaridado, depois de mostrar toda minha capacidade no outro cargo’’.
Já Celeste Cunha, enfermeira, 40 anos, diz que apesar de todas as facilidades prefere um emprego fixo. ‘‘O temporário dá uma sensação de insegurança. A gente é tratado de forma diferente na empresa. Por causa da minha idade não sei quanto tempo ficarei vagando atrás de um emprego, mas só quero algo fixo’’. Mas o contador Augusto Gomes Jardim, 43 anos, desempregado há um ano, rebate. ‘‘É melhor um temporário na mão do que um fixo voando’’.

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