''Ai, mãe, é tão fashion!'' Com esse apelo, Yasmin Cruz, 9 anos, consegue praticamente tudo o que quer. ''Tá na moda, é bonito, é charmoso, é da Barbie, ela quer'', conta a mãe, Marta Cruz. Da bolsinha de mão ao sapato, passando pelos anéis e pulseiras de preferência, com muito brilho tudo tem que estar combinando. Ainda que a escola exija uniforme, os outros itens do vestuário estão liberados. ''Nos acessórios, ela deita e rola. Até unha ela faz'', diverte-se Marta, comentando que a filha ''nasceu assim'', embora 90% das suas amiguinhas tenham exatamente o mesmo comportamento.
A influência da turma nos desejos de consumo dos pequenos é evidente. ''Todas da minha classe têm'', diz Isadora Barberato Pretto, 12 anos, justificando a sua preferência pelas roupas da Mulher Elástica. A adorada calça de ginástica da grife e o tênis Nike Shox são uma espécie de uniforme para os teens. Azar dos pais, já que o ''pisante'' de molas coloridas febre nas academias e nos colégios nem sempre cabe no orçamento. ''Queria um Shox, mas não tenho. Ainda estou tentando ganhar um no Natal'', sonha Isadora.
Cláudia Barberato Pretto desfaz as ilusões da filha. Para ela, além do preço salgado, o risco de assalto inviabiliza o presente. Ela conta que uma amiga de Isadora foi assaltada na frente do prédio onde mora, quando chegava na escola. Agora, para escapar da violência, mas não da moda, ela vai de All Star, leva o Shox na mochila e troca quando chega no colégio. E engana-se quem pensa que as influências do grupo atingem somente os mais crescidinhos. A pequena Luíza Verpa De Cunto, 3 anos, chegou em casa, dias desses, reinvindicando uma bolsa com rodinhas para carregar o material. Depois que um de seus amiguinhos chegou com a novidade na sala de aula, todo mundo aderiu. Ficar de fora? Nem pensar.
Globalização ''Não ter as coisas faz com que a criança se sinta deslocada, fora do âmbito social. Os objetos dão identidade grupal e a sensação de ser igual a todo mundo'', explica a psicóloga Maria Júlia Scicchitano Orsi, contextualizando a situação: ''Temos que levar em conta a característica marcante da nossa sociedade, essencialmente capitalista, que impõe a idéia de que devemos consumir a qualquer custo. Passa-se a idéia de que os objetos dão popularidade e felicidade'', argumenta.
Tal crença tem surgido, cada vez mais cedo, por causa do fácil acesso aos bens de consumo proporcionado pela globalização. ''Nunca houve uma disposição tão grande para consumir e uma oferta tão variada'', observa a psicóloga. Ela lembra que, hoje, a criança fica muito exposta à TV e aos shoppings e, consequentemente, aos apelos de consumo. Os pequenos também tem ido mais cedo para a escola e ficado mais tempo longe dos pais. Tudo isso faz com que eles passem a ver o mundo de uma forma mais materialista.
De acordo com Maria Júlia, a escola deve colocar regras, impondo uniformes e limitando a entrada de objetos que possam ser prejudiciais ao aprendizado. Mas, ainda assim, a maior responsabilidade é dos pais. ''Se eles se deixarem levar pelos insistentes apelos dos filhos, vão passar a idéia de que a criança vale pelo que tem e não pelo que é'', avisa.
Valores humanitários A função dos pais, segundo a psicóloga, é fazer a mediação entre a criança e o objeto de consumo. Mas, atenção: ''Na educação, mais importante do que se diz é o que se faz. Se os pais têm uma postura consumista, fica difícil os filhos não serem iguais. Em primeiro lugar, é preciso rever os próprios valores'', adverte Maria Júlia.
Para ela, quantidade e qualidade de tempo que se passa com os filhos têm o mesmo peso na educação. ''É preciso estar junto dos filhos para conhecê-los. Quando os papéis de pais são exercidos, há um risco muito menor de que as influências externas adquiram um peso muito grande na formação das crianças. E há também a possibilidade de transmitir valores mais humanitários'', observa.
Outro problema é que alguns pais realmente acreditam que a roupa, o tênis ou o celular vão realmente fazer o filho feliz. ''O consumo desenfreado pode levar a uma insatisfação muito grande. Quando temos as coisas muito facilmente, nos desinteressamos, não as desfrutamos como deveríamos, perdemos o prazer'', diz a psicóloga.
''À medida que os pais limitam a aquisição de objetos, a criança se vê obrigada a buscar outras maneiras de sentir satisfeita, a descobrir outras formas de se sentir aceita e valorizada'', ensina Maria Júlia, observando que a criança que tem tudo o que quer não é criativa, justamente a qualidade mais valorizada hoje pelo mercado de trabalho.

Maria Júlia Scicchitano Orsi
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