Todo dia tudo sempre igual
Todo dia
tudo
sempre igual
A organização de uma casa exige tempo, disposição e paciência
Jossânia Navolar
Para Tiago Ribeiro, a ordem é essencial dentro de uma casaO trabalho doméstico é, provavelmente, uma das atividades mais antigas do mundo. Nasceu, talvez, até mesmo antes de o homem deixar de ser nômade. Enquanto um grupo saía para caçar, outro ficava tomando conta do abrigo para que não fosse invadido por inimigos.
Ao longo do tempo, o lar tomou uma dimensão maior. Não é apenas um esboço de conquista, mas também sinônimo de afetividade e aconchego. Casa arrumada, roupa lavada e passada, comida pronta, dão prazer sem limites. Algumas vezes, no entanto, as pessoas não percebem o que isso significa.
Magbel Senra se sente realizada cuidando da casa, das filhas e do maridoPouco reconhecido, esse tipo de serviço nunca tem fim de expediente como os outros. Há sempre algo a ser feito. É um armário que precisa ser arrumado, é uma roupa que necessita de conserto, brinquedos que precisam ser limpos e guardados e um número interminável de outros afazeres. O dia começa com o café da manhã a ser preparado para a família e termina só depois que todos vão dormir. À noitinha, enquanto marido e filhos já encerraram o expediente, a dona de casa está na cozinha preparando o jantar, para depois colocar as coisas em ordem.
O valor que este serviço tem no cotidiano só ganha sua real dimensão quando não há ninguém para fazê-lo. Tiago Cezar Martins Ribeiro, 33 anos, consultor de marcas e patentes, sabe bem o que é isso. Separado, morando sozinho, é ele quem mantém a casa em ordem durante toda a semana. No domingo, tenho uma secretária que fica durante meio-período. Ela limpa a casa
e passa toda a roupa lavada por mim, diz.
Aos poucos Com as refeições, Tiago se vira como pode. Muitas vezes, ele sai para comer em restaurantes, outras é ele mesmo quem prepara o almoço e o jantar. Como gosto de cozinhar, isso não é problema. Durante a semana, também faço a manutenção da limpeza. Sou muito organizado e gosto de manter tudo em ordem, o que acaba ficando mais fácil. Quando as crianças vêm me visitar, a casa sai um pouco do ritmo, mas depois procuro arrumar tudo. No entanto, a limpeza mais pesada quem acaba fazendo é a secretária mesmo, diz.
Flávia Bispo divide as tarefas da casa com o maridoA advogada e funcionária pública Flávia de Araújo Bezerra Bispo, 23 anos, casada, também se vira como pode nas tarefas domésticas. A maior parte quem faz sou eu, mas meu marido me ajuda muito. Como temos um dia muito corrido, fazemos as coisas aos poucos, diz.
Flávia conta que detesta bagunça e coisas fora do lugar, mas também não tem mania por limpeza. Gosto das coisas em ordem, mas sem muita neura. Como o meu dia é muito corrido, tento organizá-lo da melhor maneira possível. Muitas vezes, tempero uma carne e lavo o arroz antes de sair para o trabalho. Outras, acabo organizando tudo o que posso à noitinha, logo que chego em casa. Nem sempre é fácil conciliar tudo, mas Flávia acredita que vem conseguindo com a ajuda do marido.
Prioridade Para Magbel Constantin Senra, 38 anos, dona de casa, conciliar o trabalho fora de casa com filhos é complicado. Acredito mesmo que a ausência da mulher em casa é uns dos motivos de tanta agressividade entre os jovens. Algumas vezes imagino que poderia estar melhor realizada se tivesse buscado uma profissão, mas fiz opção pela casa, filhos e marido. E não me arrependo.
Magbel conta que há 19 anos largou o primeiro semestre de Direito para se casar. Cuidava da casa e depois das três filhas. Esporadicamente, em um ou outro evento ajudava o marido, que é cinegrafista. Nunca tive empregada, apenas diarista. Primeiro, porque logo que casamos o dinheiro era curto, e agora, não iria me acostumar, diz.
Preconceito por ser dona de casa, Magbel já sofreu muitos. O padrão hoje é o de mulheres que têm emprego. Minhas filhas já chegaram a reclamar que as mães de suas amigas trabalham fora, só eu não. Não trabalho! O preconceito começa aí. Se uma mulher não trabalha fora, ela não faz nada. Ninguém enxerga que aquela comida gostosa ali na mesa, aquela roupa de cama cheirosa, é resultado do trabalho de alguém, diz.
Chateada Outro preconceito comum é quanto à aparência e a cultura. Vaidosa e sempre bem informada, Magbel lembra que ser dona de casa não é sinônimo de aparência desleixada e alienação. Pelo contrário, a informação é essencial para educar os filhos e até ajudá-los no cotidiano escolar. E sentir-se feliz com a própria imagem é essencial para ficar bem, observa.
Magbel confessa que já ficou muito chateada pela falta de reconhecimento de seu papel como dona de casa, mas agora não liga mais. Eu me sinto bem assim, estou realizada e isso basta. Aprendi a dar valor a mim mesma, diz. Mesmo assim, há um ano ela voltou a trabalhar com o marido no estúdio, cumprindo meio-período, porém, admite que não se sente totalmente realizada fazendo isso. Mas como agora as meninas estão maiores, tem mais tempo livre.
Quanto às filhas, Magbel procura não passar para elas, de maneira radical, seu modo de encarar os cuidados com a casa. Elas estão aprendendo a fazer uma ou outra coisa, mas de forma descontraída. Como não tenho empregada, elas acabam me ajudando quando preciso. Mas não fico em cima. Pelo contrário, elas estudam, fazem cursos de inglês e computação e não fico imaginando que serão donas de casa como eu. Até porque o mundo de hoje não comporta mais mulheres assim, avalia.





