Nesses tempos de extrema exploração da temática sexual pela mídia seja com foco informativo ou apelativo falar sobre sexo virou algo quase banal entre amigos, numa mesa de bar, no cabeleireiro... Mas, em casa, com as crianças, a coisa muda de figura. ''O diálogo sobre o assunto ainda é muito precário. As pessoas falam de forma superficial, confusa, genérica e até picante sobre suas experiências. Mas não conseguem falar sobre o prazer, a excitação e a descoberta do corpo com os seus filhos'', observa o psicanalista goiano Ailton Bastos, que esteve em Londrina, semana passada, ministrando a palestra ''Como e quando falar sobre sexo com seus filhos'', promovida pela Escola Educativa.
De acordo com ele, existe um esforço por parte de igreja e das escolas para abordar o assunto, mas, mesmo assim, o foco acaba ficando restrito às questões biológicas. ''Falar de sexualidade enquanto pulsão e sentimento é mais complicado'', constata.
Muitos pais, segundo o psicanalista, acham que a hora certa de falar sobre sexo com os filhos é a adolescência, por imaginarem que, se tratarem do assunto mais cedo, vão acabar despertando-os para a prática. ''Estão enganados. A adolescência é a hora de contestar os pais. Se eles não tiverem sido acessíveis até ali, os filhos não vão procurá-los. Vão, sim, buscar valores fora de casa'', diz, alertando para o fato de que é mais fácil passar caráter do que corrigir distorções. ''Os pais têm que se antecipar''.
Para Ailton, a grande pergunta que deve ser feita não é quando começar a educação sexual porque, independentemente da vontade dos pais, ela começa desde o nascimento. Por meio de expressões verbais e não verbais ao seu redor, a criança vai definindo a visão que terá da sexualidade. Isso inclui a convivência com o constrangimento dos pais diante de certas situações. ''Muitas vezes, o casal tem uma vida sexual satisfatória, mas não consegue lidar com isso de forma natural. É preciso corrigir esse comportamento para evitar situações do tipo: os filhos pegam os pais saindo do quarto embaraçados. A comunicação não verbal ficou gravada e a mensagem é: ''Isso que eles estavam fazendo está errado''', observa o psicanalista.
Herança cultural Para que a criança tenha uma boa formação sexual, é fundamental que os pais atentem para uma série de condutas culturalmente padronizadas que incentivam o despertar da sexualidade do garoto e podam o da garota transmitidas por atos banais no dia-a-dia, como deixar o menino fazer xixi na rua e não permitir que a menina faça o mesmo porque ''é feio''.
O psicanalista explica que isso tem a ver com a herança cultural religiosa do nosso País. ''A imagem da Virgem Maria, santa e pura, acaba norteando os relacionamentos. E o papel da mulher, principalmente depois que vêm os filhos, é visto pelo homem como o de mãe protetora. Aí começam as dificuldades para demonstrar afeição, o sexo já não é o mesmo'', argumenta. De acordo com ele, as pessoas vivem uma ambivalência entre o prazer do sexo e a questão da reprodução, da família. ''A história de que é bom mas é errado é um valor impregnado ao longo da vida'', diz.
Ailton lembra que, mesmo com a ameaça da Aids, as pessoas continuam tendo comportamentos sexuais irresponsáveis. ''Por quê? Porque precisam de valores, não de ameaças. E os valores transmitidos pelos pais vão nos acompanhar pelo resto da vida. Vivemos de acordo com eles, seja para negá-los ou confirmá-los'', diz. Portanto, pais e mães devem estar conscientes sobre a abrangência de todos os seus atos.
''Se os filhos crescem achando que os pais vão encobrir tudo o que eles fazem, certamente terão um comportamento sexual irresponsável'', avisa Ailton. Outra conduta problemática apontada pelo psicanalista é a preocupação excessiva dos pais em suprir materialmente a família, deixando de lado a questão afetiva. O psicanalista observa que muitos pais passam toda a infância dos filhos trabalhando para conseguir um bom padrão de vida e acham que podem adiar a atenção e o carinho para mais tarde. ''Não dá mais. Os filhos já não estarão mais acessíveis''.
Ele recomenda ainda atenção na maneira de educar os filhos no que diz respeito à agressividade. ''Crianças muito reprimidas dificilmente conseguirão dizer não. A pessoa precisa aprender, desde cedo, a estabelecer os próprios limites: 'aqui é meu quarto, meu espaço'. Meninas que, por imposição dos pais, sempre têm que bancar as boazinhas, podem não conseguir dizer não aos apelos dos meninos ao iniciar a vida sexual. Há um mito na cabeça dos homens, formado desde a infância, de que a mulher quer dizer sim mesmo quando diz não. Daí a assustadora quantidade de estupros entre namorados'', argumenta.
Abuso Segundo Ailton, muitas oportunidades de diálogo são perdidas. ''Existem pais que nunca falam. E filhos que nunca perguntam. Acabam tendo informações através de amiguinhos, revistas, internet''. Ailton ensina que uma boa chance de abordar assuntos ligados à sexualidade são os momentos em que a criança está brincando e pára para ver uma cena na TV. ''Pode ser uma hora adequada para falar sobre cuidados com o corpo e abuso sexual. A criança precisa ser ensinada a diferenciar um toque de afeto de um toque invasivo'', alerta o psicanalista.
De acordo com ele, durante a conversa sobre sexo os pais devem responder objetivamente e sempre com a verdade. ''Se a criança percebe que foi enganada, vai mudar a fonte, buscar informações em outros lugares e acabar com uma visão deformada da sexualidade''.
A escola, afirma o psicanalista, pode ser uma grande parceira dos pais desde que trabalhe em sintonia com eles, no sentido de não dar apenas a visão biológica do sexo. Todos os professores devem interagir nesse processo, observando, por exemplo, as mudanças bruscas no comportamento da criança. ''Isso pode indicar a possibilidade de ela estar sendo abusada'', avisa.
Outra orientação aos professores é não reprimir crianças que se masturbam em sala de aula. ''Evite dizer que é feio. Isso traz sérias consequências à vida sexual da pessoa. A melhor conduta é dizer à criança que é normal sentir prazer, pois ela está descobrindo o corpo e pode se tocar, mas que isso deve ser feito na intimidade. Esse processo de descoberta, às vezes, acontece muito cedo, mas deve ser encarado com naturalidade'', ensina. n

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