Qualidade de vida é, atualmente, um assunto de interesse geral. Cada vez mais, discute-seá alternativas para combater o stress e outros problemas acarretados pelo ritmo frenético da modernidade. Não por acaso, a alimentação ganhou um papel importante neste contexto. Mídia e publicações especiais falam hoje para um número crescente de ouvintes e leitores sobre o poder de um cardápio equilibrado, baseado principalmente em produtos naturais. Pesquisas comprovam que verduras, legumes e frutas previnem doenças, proporcionam bem-estar e podem garantir vida mais longa.
Indícios de que a busca por saúde à mesa é uma preocupação real do brasileiro podem ser constatados nos supermercados após a exibição, em cadeia nacional, de reportagens sobre os benefícios de determinados alimentos: prateleiras quase sempre vazias. A grande ironia da história é que o consumidor pode estar levando para casa exatamente o contrário do que procura: doenças, ao invés de antídotos contra elas.
Um trabalho concluído pela Secretaria de Vigilância Sanitária do Paraná em 2002 revelou que há excesso de agrotóxicos em muitos alimentos vendidos nos supermercados. E o que é pior: as análises indicaram o uso de venenos já banidos por leis internacionais em virtude do alto teor de toxidade. Os estudos do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) mostraram que, das 407 amostras analisadas, 225 tinham algum grau de contaminação.
O tomate ganhou disparado, com 98% de resíduos tóxicos. Em segundo lugar veio o morango, com 92%; em terceiro, a maçã, com 96% e, em quarto, o mamão, com 63%. Cenoura, banana e laranja foram os alimentos com menor índice de venenos. Mas isso não significa que estejam menos contaminados. Por falta de laboratórios e métodos adequados, somente 84 ingredientes químicos presentes nos agrotóxicos entraram na análise. Há cerca de 400 em uso no País.
Das amostras de alimentos contaminados, 118 tinham alguma irregularidade, como agrotóxicos proibidos para determinada cultura ou excesso do limite permitido pela lei. O problema é que a segurança dos alimentos, cujo teor de resíduos químicos está em conformidade com a legislação é, no mínimo, discutível.
O estabelecimento de limites máximos de resíduos é feito com base em uma pessoa adulta com peso médio de 60 quilos, sem levar em conta crianças, gestantes e o restante da população. ''Limite tolerável não existe. Cada ser humano é único. Assim como a impressão digital, o nível de intoxicação é individual'', avisa o médico Tsutomu Higashi, especialista em patologia clínica, medicina laboratorial, nutrologia e homeopatia, atentando para o absurdo de se discutir a quantidade de veneno que um alimento pode conter.
Cobaias humanas De acordo com Higashi, anualmente, 20 mil pessoas morrem, em todo o mundo, de intoxicação aguda por agrotóxicos. Quando se fala em intoxicação crônica, os números também impressionam: um levantamento clínico feito pelo médico entre os anos de 2001 e 2002 mostrou que 86% de seus pacientes tinham herbicidas no organismo; 85% estavam contaminados com inseticidadas e 80%, com metais tóxicos.
Mas os números e seus efeitos estão longe de ser precisos. ''Não existe estudo, a longo prazo, sobre os efeitos nocivos dos alimentos produzidos com agrotóxicos. Isso vai se verificando ao longo do tempo, com o consumo. Somos cobaias humanas'', constata a bióloga Sueli Souza Martinez, que trabalha com controle natural de insetos no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), há 29 anos.
O que se pode afirmar, com certeza, é que o consumo de alimentos contaminados é uma das maiores ameaças à saúde humana. ''Toda doença tem um gatilho inicial, provocado por substâncias estranhas ao organismo humano, toxinas, chamadas de xenobióticos. Dependendo da genética individual, isso vai alterar toda a parte bioquímica da pessoa: aí vêm os sintomas. Hoje, está provado que 85% dos tipos de Mal de Parkinson têm relação com agrotóxicos'', informa o médico.
Higashi explica que, quando se come de maneira errada, o primeiro órgão afetado é o intestino. Dalí, vazam todas as toxinas para a circulação. ''Nossas células são resultado do que comemos e do que o nosso intestino processa. Existe uma conexão direta entre a saúde da célula e o que plantamos para nos alimentar. É a biologia fundamental'', diz, denunciando a devastação do solo. Quando se joga agrotóxicos na terra, os nutrientes não são absorvidos pela planta de maneira adequada. E o veneno tem o poder de multiplicação na cadeia alimentar'', informa.
Preceitos éticos
Diante das evidências de que os agrotóxicos são um perigo real à saúde, a atitude mais sensata é tirar o veneno da comida. Alimentos produzidos sem aditivos químicos os orgânicos começam a ganhar espaço nas prateleiras dos supermercados e destaque em lojas especializadas, que oferecem uma infinidade de opções para quem deseja um cardápio mais natural. ''Além de seguro, o alimento orgânico tem alto teor de minerais, que desintoxica as células e ajuda a prevenir e a corrigir doenças'', diz Higashi.
A bióloga Sueli Souza Martinez explica que o plantio dos orgânicos é feito com produtos biológicos, e não químicos. A adubação é natural, pois se busca a saúde da planta, dando condições de equilíbrio ao solo para que haja liberação lenta dos nutrientes. O controle de pragas é realizado de diversas maneiras, uma delas é a mistura de plantas, que confunde os insetos e diminui a incidência de doenças. Em todas, há a participação ativa do agricultor.
De acordo com Sueli, além do plantio com métodos biológicos, o produtor deve respeitar alguns preceitos éticos para que sua produção seja considerada orgânica, como a não-utilização de trabalho infantil e a preservação da área de mata ao redor da propriedade rural. ''Para ser certificada, a propriedade agrícola deve estar produzindo orgânicos por, no mínimo, três anos'', informa a bióloga, que em setembro do ano de 2002 abriu, em Londrina, a loja Orgânica, única na cidade a comercializar apenas produtos naturais, sem aditivos químicos, sejam eles agrotóxicos, corantes ou conservantes.
Cultura alimentar
Na loja Orgânica, há desde hortaliças, grãos e frutas até alimentos industrializados, como achocolatados, acúçar, café, azeites, ovos, queijos, geléias, sucos e frango, todos com selo de certificação, essencial para garantir que se trata de um produto 100% orgânico. De acordo com Sueli, há mais de 30 certificadoras no Brasil. Uma das mais importantes é o Instituto Bio Dinâmico, o maior da América Latina. Entre os internacionais, destaque para o Federation of Organic Agriculture Moviments (FOAM). ''É preciso ler o rótulo dos alimentos como se lê bula de remédio'', aconselha a bióloga.
Sueli só trabalha com frutas, verduras e legumes de época, uma vez que a produção orgânica se pauta no ecologicamente correto. ''Para ter todos os produtos disponíveis no mercado o ano inteiro, há mais gasto energético, além de o plantio exigir mais cuidados e maior uso de agrotóxicos'', explica ela, aconselhando as pessoas a reverem seus hábitos alimentares em prol de uma vida mais saudável. ''Hoje se escolhe alimentos pelo sabor ou pelas calorias. Quem é que está preocupado em enriquecer o combustível natural do corpo com nutrientes que façam a máquina funcionar melhor?'', questiona.
Essa falta generalizada de conhecimento é, segundo Higashi, resultado de uma educação restritiva. ''Ao contrário do Japão, onde há aulas de nutrição nas escolas, no mundo ocidental não há nenhuma carga horária para ensinar as pessoas a comer. A informação que recebemos vem do marketing, da TV. Nossa cultura alimentar, nesse sentido, é um desastre de ignorância'', critica.
Mas, profetiza ele, não deve demorar muito para as pessoas se conscientizarem de que alimentos contaminados com aditivos químicos representam um risco alto à saúde. ''Hoje, os médicos que dizem isso são considerados radicais'', comenta, lembrando que com a nicotina também foi assim. ''Demorou 20 anos para os médicos falarem, claramente, que o cigarro mata''. Por causa da globalização, Higashi acredita que o processo será mais rápido com os agrotóxicos. Daqui a cinco anos, todos vão fazer o alerta: comida com veneno também pode matar''.

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